É apenas uma questão de tempo até que drones assassinos totalmente automatizados dominem os campos de batalha do século XXI
É apenas uma questão de tempo até que drones assassinos totalmente automatizados dominem os campos de batalha do século XXI
Tomasz Konicz, 23.07.2026
Há cerca de dois anos abriu-se na Ucrânia um novo capítulo distópico da guerra baseada em drones. De acordo com informações da revista The New Scientist, as forças armadas da Ucrânia utilizaram pela primeira vez drones de ataque totalmente autónomos num ataque experimental contra as tropas de invasão russas, tendo estas últimas alegadamente sofrido reais perdas em termos de efectivos e material.1
Representantes de fabricantes ucranianos de drones afirmaram à revista científica britânica que, em 2024, equiparam dez drones quadricópteros com modelos de IA destinados a cobrir um sector da frente de três a cinco quilómetros, para posteriormente os colocar num «modo Terminator», no qual os drones deveriam detectar e atacar alvos de forma totalmente automática. O ataque experimental terá sido parcialmente bem-sucedido: tropas e veículos russos foram atingidos. No final de 2025 o New York Times publicou uma reportagem de fundo sobre a evolução da tecnologia dos drones na guerra da Ucrânia, que também chegou à conclusão de que entretanto quase todas as fases de ataque podem ser automatizadas.2
Até ao momento a Ucrânia proíbe a utilização de drones assassinos com IA totalmente automáticos; a pedido do The New Scientist, porta-vozes do exército explicaram que, até agora, sempre houve um ser humano envolvido na cadeia de ataque dos sistemas de drones ucranianos. Os sistemas actualmente utilizados na linha da frente já são capazes de localizar e identificar alvos automaticamente, bem como de executar os metros finais do ataque de forma totalmente automática, a fim de simplificar as operações, explicaram membros do exército ucraniano; no entanto, as ordens de ataque são sempre dadas por pessoas, no âmbito da hierarquia militar.
O grande nivelador
Não existe uma proibição oficial da ONU relativamente a sistemas de ataque totalmente automáticos baseados em IA, mas até ao momento nenhuma das partes beligerantes autorizou oficialmente a sua utilização, o que entretanto representa apenas um obstáculo político-ético. E este obstáculo deverá cair em breve, uma vez que as vantagens militares de uma guerra com drones totalmente automatizada se tornam cada vez mais evidentes. O drone é o grande nivelador do início do século XXI, que permite às partes beligerantes em desvantagem manter em xeque adversários militarmente muito superiores e prolongar os conflitos.
A utilização maciça de drones permitiu à Ucrânia paralisar quase totalmente a invasão russa em meados de 2026 – pelo menos por enquanto –, apesar de o Kremlin ter conseguido mobilizar recursos muito superiores para a sua guerra de agressão. Entretanto os drones ucranianos não só tornam impossíveis grandes ataques russos na linha da frente, forçando o Kremlin a uma guerra de posições, como também alcançam as linhas de abastecimento russas no interior do país, por exemplo, o troço entre Mariupol e a Crimeia, o que dificulta o abastecimento das tropas de invasão russas. Os ataques espectaculares ao sector energético da Rússia, bem como a marginalização da Frota Russa do Mar Negro, não teriam sido possíveis sem o uso maciço de drones de longo alcance e marítimos.
O mesmo cenário, em que o drone funcionou como um factor de equilíbrio militar, aplica-se a outros conflitos actuais: na derrota estratégica dos EUA na guerra contra o Irão, os drones baratos e utilizados em massa desempenharam um papel importante – sobretudo nos ataques contra os Estados do Golfo e no bloqueio do Estreito de Ormuz. O mesmo se verifica na guerra entre Israel e o Hezbollah no sul do Líbano, onde a milícia xiita conseguiu infligir perdas significativas ao exército israelita através de ataques com drones.
Para onde tende esta evolução técnico-militar? O surgimento do drone totalmente automático com IA é de facto inevitável, sobretudo no contexto da brutalização e barbarização generalizadas provocadas pela crise, uma vez que representa o ponto de fuga da espiral de armamento neste tipo de armas, que se desenvolveu plenamente com a guerra na Ucrânia: A utilização de drones telecomandados levou ao surgimento de dispositivos de interferência eletrónica, que por sua vez foram neutralizados através de cabos de fibra óptica, permitindo que drones na linha de frente tivessem alcances de dezenas de quilómetros. Entretanto também estes drones ligados por cabo estão a ser neutralizados por sistemas de defesa que visam cortar os cabos de fibra óptica. A isto acresce o desenvolvimento de drones interceptores, destinados a neutralizar os drones de ataque.
Pentágono vs. Anthropic
O drone com IA totalmente automático, que já não necessita de qualquer ligação a um controlador humano, ultrapassaria a maioria das medidas de defesa existentes até agora. Neste contexto o enxame de drones controlados por IA, composto por centenas ou mesmo milhares de drones, destinado a atacar secções inteiras da linha da frente e assim abrir brechas, constitui o ponto final distópico desta espiral de armamento, tal como foi visualizado, por exemplo, na segunda parte da trilogia «Matrix». No entanto, actualmente, são provavelmente as finanças, e não a tecnologia, que representam o obstáculo decisivo à concretização desta visão apocalíptica – o enxame teria de transportar consigo a sua capacidade de computação e a sua memória durante o ataque, o que seria muito dispendioso, tendo em conta a bolha da IA e não só.
Nesse sentido não surpreende que os debates em torno do desenvolvimento de sistemas autónomos de IA letais se travem sobretudo no inflado complexo militar-industrial dos EUA. Em Fevereiro de 2026 foi precisamente esta questão controversa que provocou uma ruptura espetacular entre o Pentágono e a empresa de IA Anthropic, quando o presidente da empresa, Dario Amodei, se opôs à investigação e aplicação de sistemas de armas de IA totalmente automatizados sem uma base jurídica explícita. Para esclarecer: Amodei apenas recusou a vigilância em massa de cidadãos norte-americanos através dos seus sistemas de IA; as máquinas letais de IA não foram excluídas por princípio. Na sequência disso, o Pentágono rescindiu os acordos já existentes com a Anthropic, celebrou novos contratos com a OpenAI e com a Grok de Musk – e declarou a empresa de Amodei como uma ameaça à segurança nacional. Trump só revogou esta decisão em meados de Junho, após uma conversa com Amodei.3
Crimes de guerra com IA?
Entretanto o Pentágono já utilizava maciçamente os sistemas de IA da Anthropic no seio da sua máquina militar: já no sequestro do chefe de Estado venezuelano Maduro, estes terão desempenhado um papel importante no âmbito da identificação de alvos. Estes sistemas de detecção de alvos interligados – o «Maven» da Palantir e o «Claude» da Anthropic – desempenharam um papel central no planeamento e na execução da guerra contra o Irão. Graças a estes sistemas de análise e detecção, o Pentágono conseguiu atacar com sucesso cerca de 1 000 alvos no Irão nas primeiras 24 horas. Não só a deteção de alvos, como também a cadeia de comando sofre uma aceleração tremenda: os sistemas de IA podem sobretudo reduzir substancialmente o intervalo de tempo entre a localização do alvo – por exemplo, de plataformas móveis de lançamento de mísseis – e o ataque. A era da guerra em tempo real, em que máquinas militares de alta tecnologia amplamente automatizadas transformam imediatamente as informações recebidas em reações militares, parece estar ao nosso alcance.
Todos os sistemas de IA funcionam com probabilidades estatísticas que são aperfeiçoadas durante o treino. Trata-se de soluções de preenchimento automático dotadas de capacidades computacionais gigantescas, que conduzem com inevitabilidade matemática às bem conhecidas «alucinações», especialmente quando alimentadas com material desactualizado. As consequências de tais erros da IA tornaram-se evidentes nas primeiras horas da guerra no Irão, quando um míssil norte-americano causou 175 vítimas numa escola de raparigas,4 que devido a dados desactualizados tinha sido marcada como alvo legítimo pelos sistemas de IA do Pentágono, o que também lança uma luz reveladora sobre o controlo humano destas determinações de alvos por IA no Pentágono de Pete Hegseth.
Este ataque assassino maciço poderá constituir o primeiro crime de guerra relacionado com a IA na história militar. Graças aos seus sistemas de IA, o exército norte-americano conseguiu atacar mil alvos no Irão em 24 horas – incluindo uma escola de raparigas que tinha sido criada há poucos anos nas imediações de um complexo da Guarda Revolucionária.
1 https://www.newscientist.com/article/2529849-fully-autonomous-drones-have-killed-human-soldiers-for-the-first-time/
2 https://www.nytimes.com/2025/12/31/magazine/ukraine-ai-drones-war-russia.html
3 https://www.msn.com/en-us/politics/government/trump-says-anthropic-is-no-longer-a-national-security-threat-after-g7-lunch-with-amodei/ar-AA265yjJ
4 https://www.independent.co.uk/news/world/americas/us-politics/iran-school-attack-ai-investigation-b2937456.html
Original “Welcome, Robot Overlords” in konicz.info, 22/07/2026. Antes publicado com ligeiras alterações sob o título Vollautomatisiertes Töten [Morte Totalmente Automatizada] na revista Jungle World 29/2026.