Ready or not, here it comes

A crise do sistema capitalista entra agora na sua fase manifesta também nos centros do sistema mundial – será que a esquerda remanescente ainda consegue orientar o processo de transformação que se avizinha numa direcção emancipatória?

Tomasz Konicz, 21.09.2026

Há um pré-requisito fundamental para a prática emancipatória na crise mundial do capital que se desenrola, e que simplesmente não pode ser abandonado: é preciso dizer às pessoas o que se passa. Aquilo que a maioria das pessoas intui ou sente vagamente tem de ser claramente identificado e tornar-se a base dos movimentos sociais e das lutas: o capitalismo está no fim – e na sua agonia ameaça arrastar a humanidade consigo para o abismo, privando-a dos meios de subsistência sociais e ecológicos. O sistema mundial capitalista está a atingir os seus limites internos e externos de desenvolvimento. A crise económica e a crise climática constituem apenas dois momentos do mesmo processo de crise, no qual a compulsão desenfreada do capital pelo crescimento – a ânsia de transformar dinheiro em mais dinheiro através da exploração do trabalho na produção de mercadorias – gera um mundo ecologicamente devastado e uma humanidade economicamente supérflua.

É portanto necessário procurar conscientemente, na luta e no discurso sociais, caminhos para sair do capitalismo de crise e de catástrofe, uma vez que o mundo corre o risco de afundar na barbárie. A ultrapassagem das relações capitalistas constitui assim o fio condutor de todos os esforços práticos da esquerda. As lutas sociais, os protestos e os movimentos terão de ser entendidos e conduzidos como momentos parciais de uma luta transformadora em prol de uma sociedade pós-capitalista. Isto, a ultrapassagem da compulsão de valorização do capital desenfreada a nível mundial, é o mínimo absoluto, a conditio sine qua non de qualquer desenvolvimento civilizacional no século XXI.
Dizer as coisas como elas são significa, portanto, identificar claramente a ultrapassagem do capital em colapso como uma necessidade de sobrevivência civilizacional. Toda a prática progressista tem de orientar-se por esta realidade da transformação do sistema. E é precisamente esta insistência na necessidade de uma transformação sistémica emancipatória que representa também a linha divisória clara em relação ao oportunismo de esquerda – à tentativa de, em tempos de crise, fazer rapidamente carreira como administrador de crises por meio da demagogia, tal como fazem, por exemplo, os DSA (Democratic Socialists of America) ou o «Partido da Esquerda» com o seu populismo. As organizações ou correntes outrora de esquerda, mas cegas à crise, podem assim ser efectivamente designadas como «pós-esquerda» – mesmo que ainda se considerem de esquerda.
A passagem do capital à história representa o último imperativo capitalista. Qualquer grupo ou partido que se autodenomine de esquerda e que pregue a mudança gradual, sem abordar explicitamente a crise do sistema e sem sublinhar a necessidade da transformação do sistema, é de facto oportunista, se não mesmo reaccionário. Na crise sistémica que se agrava, já não há possibilidade de levar a cabo políticas de reforma que sejam «bem-sucedidas», uma vez que esta tentativa é simplesmente impedida pelas perturbações da crise, que ganham cada vez mais intensidade. A prática progressista e emancipatória só pode desenvolver-se com base no esforço para assegurar um curso progressista da inevitável transformação do sistema. Isto não é um «radicalismo» de esquerda, mas sim um realismo decorrente da compreensão da natureza da crise. A crise desenrola-se na sociedade como um processo fetichista e incontrolável, que se desenvolve mediado pela concorrência e pelo mercado, sem ter em conta as opiniões e os cálculos dos que estão presos na rotina capitalista.
Isto não é um concurso de popularidade: mesmo que os assalariados não queiram admitir, mesmo que todas as camadas populacionais relevantes, incluindo a classe trabalhadora, se agarrem ao capitalismo, o sistema irá desmoronar-se devido às suas contradições internas. O que se segue, porém, permanece em aberto – e é precisamente por isso que é necessário travar a luta, a luta pela transformação. No entanto, uma queda na barbárie durante o processo de transformação que se avizinha, cujo desfecho ainda é incerto, só poderá ser evitada por um movimento emancipatório se essa revolução for por ele socialmente reflectida, compreendida e conscientemente moldada no âmbito da igualmente inevitável luta pela transformação. Para o conseguir, a esquerda tem de dizer primeiro às pessoas o que se passa, com base numa teoria radical da crise. Esta é a condição prévia de toda a prática de transformação emancipatória. Caso contrário, a dinâmica fetichista do capital tornará o mundo inabitável. E, uma vez que de facto não existe nenhum sujeito revolucionário, nenhuma classe em si que pela sua posição no processo de produção possa funcionar como sujeito revolucionário, resta apenas a esperança na formação de uma consciência radical da crise na população, que funcionaria como base de um movimento de transformação emancipatório.

O fetichismo do capital

Mas o que é o capital que tem de ser passado à história antes que arraste a humanidade para o abismo no seu colapso? É o dinheiro que gera mais dinheiro, através do trabalho assalariado na produção de mercadorias – sendo o trabalho a única mercadoria que cria mais valor do que aquele que possui. O capital deve ser entendido como uma relação social que atravessa a sociedade como um mero estádio de passagem da sua acumulação ilimitada de mais-valia na produção de mercadorias. Só no seio deste movimento de valorização – a queima de recursos por meio do trabalho com o objectivo de maximizar o lucro – é que as pessoas ou as coisas têm de se tornar capital. O capital, em todas as suas contradições sociais e ecológicas, é assim também uma abstração real que, em cada ciclo de valorização, sofre uma transformação de forma: do dinheiro à mercadoria e por fim a mais dinheiro.
O capital gera, a nível da sociedade como um todo e globalmente, uma dinâmica própria: o fetichismo social. A dinâmica destrutiva de valorização do capital, gerada inconscientemente pelos sujeitos do mercado – «nas suas costas», uma vez que é mediada pelo mercado —, surge como um fenómeno natural que se desenrola sobre a sociedade. É sobretudo em períodos de crise que este fetichismo se manifesta abertamente, quando a «economia» entra subitamente em amoque e «tempestades de crise» ou «terramotos de mercado» devastam socioeconomicamente regiões inteiras – tal como acontecimentos meteorológicos extremos. A sensação de estar à mercê de forças quase naturais, anónimas e avassaladoras torna-se então evidente. O mesmo torna-se evidente na crise climática – que, aliás, também afecta cada vez mais a própria valorização do capital. O que tem de ser ultrapassado é, portanto, este movimento de valorização do capital que decorre cegamente e que devasta tanto a sociedade humana como os ecossistemas. Este fetichismo destrutivo tem de ser substituído por um entendimento consciente, por parte dos membros da sociedade, sobre o processo de reprodução da sociedade.
Com a crise do capital, ruem também as instituições e as estruturas sociais que este gerou historicamente. A reprodução social pós-capitalista não pode, portanto, decorrer precisamente sob as formas de uma «nacionalização», tal como é imaginada, por exemplo, pela esquerda ortodoxa, uma vez que o Estado, na sua qualidade de «capitalista global ideal», é uma instituição historicamente desenvolvida e necessária do capitalismo, que tem de facto de ser financiada pelo capital através dos impostos – razão pela qual muitos Estados sobreendividados da periferia entraram em colapso já na década de 1990, transformando-se em «Estados falhados», assim que o processo de crise ultrapassou um certo grau de maturidade. O Estado não é a solução, mas sim parte do problema. Outro beco sem saída são as tentativas de se afirmar no mercado em crise através de unidades autogeridas, de empresas ou de comunas agrícolas, uma vez que, apesar da autogestão, as pressões do mercado acabam inevitavelmente por se impor. Trata-se, portanto, efectivamente do conjunto da sociedade aprisionada no fetiche do capital.

Emancipação e fuga da prisão capitalista do pensamento

Do fetichismo do capital deriva também o conceito de emancipação – trata-se de uma emancipação do fetichismo social, ou seja, da «heterodeterminação» dos sujeitos por dinâmicas sociais que esses próprios sujeitos geram inconscientemente por intermédio do mercado. Isto só pode ser alcançado por um movimento que esteja consciente da sua própria situação, que tenha consciência do carácter de crise acima descrito. Só numa luta consciente por um futuro pós-capitalista, resultante da compreensão dessa necessidade, é que poderão eventualmente surgir momentos de emancipação. Existe portanto uma máxima da prática política que os movimentos, grupos ou partidos emancipatórios do século XXI têm de seguir, se quiserem continuar a actuar como forças sociais progressistas na actual época de mudanças e crises, e não degenerarem numa «pós-esquerda» aberta à direita. O capitalismo tem de ser passado à história o mais rapidamente possível; a relação de capital tem de ser abolida. Todas as acções de esquerda, todas as tácticas, todas as propostas de reforma e todas as estratégias deveriam orientar-se por este imperativo categórico.
E a luta por um futuro pós-capitalista digno de ser vivido não é «radicalismo». É precisamente o contrário: a teimosia em manter as formas de socialização capitalista em desintegração, o mercado e o Estado, conduz à barbárie, ao extremismo fascista do centro. Os sucessos da direita na crise resultam precisamente do facto de esta conseguir levar ainda mais longe a ideologia que estava em vigor no centro neoliberal da sociedade capitalista tardia, como a ideia da concorrência e o darwinismo social, levando-a a um maior embrutecimento.
O essencial aqui é o seguinte: nesta concorrência legitimada por critérios «raciais», religiosos ou nacionais, não há qualquer ruptura com o neoliberalismo e com a sua ideia de localização do investimento implicitamente nacionalista. É nestas linhas de continuidade ideológica que reside o segredo – nem por isso tão secreto – do sucesso da revolta conformista da Nova Direita. Esta não promove qualquer fuga da prisão intelectual capitalista e das suas chamadas restrições objectivas. Em vez disso, as figuras autoritárias permanecem na via ideológica já traçada, que conduz do centro neoliberal ao extremo bárbaro. É por isso que quem mais beneficia da crise actual é sobretudo a direita. É muito fácil tornar-se nazi.
Por isso é decisivo romper mentalmente com a prisão intelectual capitalista, o que tem de ser acompanhado por uma prática emancipatória, a fim de impedir a deriva para o extremismo fascista do centro. Por isso é importante dizer às pessoas como as coisas estão. A luta por uma alternativa sistémica que valha a pena viver, face à crise letal do capital, é a única opção sensata, moderada e equilibrada. O progresso só pode agora ser concretizado para lá do capital. Mais uma vez: isto não é necessário devido à vontade dos sujeitos ou aos estados de espírito e sensações da população, mas porque o capital, enquanto totalidade fetichista global, se desintegra por si próprio.
A sensação de que o sistema se encontra numa grave crise é omnipresente. E as distorções cada vez mais agudas dão origem à habitual interacção entre o declínio social e comportamentos de concorrência crescente. É precisamente esta concorrência de crise, alimentada pelo puro instinto de sobrevivência, que contribui de forma determinante para a barbarização do capitalismo e para a ascensão da Nova Direita – que reveste essa concorrência de crise com racismo, nacionalismo, anti-semitismo, fanatismo religioso e assim por diante. Este instinto de sobrevivência, preso na concorrência quotidiana cada vez mais intensa do capitalismo tardio e praticado inconscientemente, teria de ser «sublimado» no âmbito de uma prática emancipatória.
É a partir de aqui que deve ser entendida a reflexão consciente sobre as causas inconscientes da acção social, neste caso, a interacção entre a mentalidade concorrencial e o processo de crise sistémico. Assim como o instinto cego de sobrevivência dos sujeitos do mercado apenas acelera a dinâmica da crise e abre as portas à barbárie, um impulso colectivo de sobrevivência reflexivo, que tenha se convencido da necessidade de ultrapassar o capital por toda a sociedade, poderia constituir um poderoso factor de motivação para as forças emancipatórias na luta pela transformação do capitalismo tardio. Uma consciência radical da crise está, portanto, ciente da insolubilidade da dupla crise socioecológica do capitalismo e da necessidade de uma transformação do sistema como condição de sobrevivência.
E é precisamente por isso que é importante preservar – na medida do possível – este processo de transformação que decorre objectivamente, através da difusão de uma consciência adequada da crise, para evitar que se desvie para o delírio ideológico e a barbárie fascista. Talvez a consciência de uma alternativa viável ao colapso climático e ao colapso do capital só possa desenvolver-se amplamente num movimento de luta. Afinal, não faltam confrontos e lutas nesta crise sistémica que se acelera.

Falsa imediatidade

Estes movimentos ficam frequentemente presos na falsa imediatidade das suas reivindicações directas: Querem por exemplo uma melhor redistribuição da riqueza capitalista abstracta; a crescente pauperização leva a exigências de mais Estado social; à inflação responde-se com exigências de contenção através de subsídios ou preços máximos etc. Mas estas exigências imediatamente «plausíveis» têm de se revelar ridículas face à realidade da crise.
Face à dinâmica da crise já bastante avançada, parece contraproducente iniciar agora uma crítica fundamental que visasse a construção de um «novo» movimento transformador e emancipatório. As forças emancipatórias teriam de trabalhar com o que ainda existe, tendo em conta a urgência do momento e as janelas de oportunidade que se estão a fechar. A retirada para a torre de marfim da «doutrina pura», com o objectivo de trabalhar para uma «difusão» gradual de uma consciência adequada da crise no seio da esquerda, não constitui uma estratégia viável. Em vez disso, resta na verdade apenas a opção de aproveitar as sucessivas ondas de crise para tentar introduzir directamente uma consciência adequada da crise nas lutas em questão.
As perspectivas para tal não são na verdade más, uma vez que mesmo os círculos de esquerda ideologicamente cegos – por exemplo, do espectro próximo dos Verdes, da esquerda liberal ou do marxismo tradicional – já mal conseguem ignorar as consequências da crise.
A crise é inimiga e amiga do movimento progressista: restringe cada vez mais os espaços de discurso social, faz crescer o pânico e alimenta o delírio da extrema-direita – mas, ao mesmo tempo, obriga todas as forças sociais que ainda mantêm alguma lucidez a enfrentar a necessidade inegável de ultrapassar a sociedade capitalista em colapso.
A tentativa de introduzir nas contendas e conflitos sociais actuais uma consciência da crise que corresponda ao processo objectivo da crise resume-se assim, em última análise, à luta contra a falsa imediatidade que caracteriza essas contendas. Por «falsa imediatidade» deve entender-se a tendência dos movimentos sociais para, inconscientemente, permanecerem em formas de pensamento que correspondem às condições sociais e às contradições contra as quais, na verdade, se dirigem.
As pessoas envolvidas nos crescentes conflitos decorrentes da crise não são, precisamente, dominadas por um «automatismo revolucionário» que lhes proporcionasse uma consciência anticapitalista da crise. Muito pelo contrário. Através da fixação em objectivos concretos e aparentemente alcançáveis no âmbito do sistema existente, a própria lógica desse sistema é reforçada, mesmo na luta de oposição. A luta contra a inflação e contra a erosão social, por um salário mais elevado ou contra os cortes salariais, a luta contra moinhos de vento da esquerda desamparada e social-democratizada contra o desmantelamento da democracia e do Estado social, que avança alegremente: tudo isto consolida as estruturas sociais capitalistas e as formas de socialização correspondentes, nas quais e em nome das quais se luta. O trabalho, a democracia burguesa, juntamente com os «direitos civis» castrados pelo capitalismo, e o Estado enquanto «Estado social» cristalizam-se assim, mesmo no seio do movimento enredado nas lutas sociais, como pressupostos quase naturais da sociedade humana.
Os objectivos imediatos que são perseguidos no seio do sistema são, portanto, «falsos»; conduzem à formação da referida falsa imediatidade, uma vez que, em primeiro lugar, não rompem com a lógica sistémica assolada pela crise, mas pelo contrário a cimentam, e, em segundo lugar, devem ser conquistados no seio de uma sociedade capitalista em colapso, de modo que a sua concretização é totalmente ilusória. Após o inevitável fracasso das grandes lutas sociais em períodos de crise – como, por exemplo, no sul da Europa após o início da crise do euro —, instalaram-se por isso na maioria das vezes a resignação e a apatia, uma vez que a esses movimentos faltava precisamente uma perspectiva transformadora mais abrangente, que só poderia surgir de uma consciência da crise adequada ao próprio processo de crise. As forças envolvidas nos protestos sociais, que se intensificam devido à crise, na maioria das vezes não pretendem alcançar mais do que aquilo que postulam: a luta pelos postos de trabalho, por salários mais elevados, contra os cortes sociais, contra a destruição de postos de trabalho, contra a erosão constante dos «direitos civis» etc.
Parece absurdo: Na crise, a esquerda luta pela manutenção das formas capitalistas de socialização que estão a ser corroídas pela própria crise. E, ao mesmo tempo, não existe uma alternativa realista a essas mesmas lutas, uma vez que se trata, na maioria dos casos, de formas mais ou menos abertas da luta nua e crua pela sobrevivência. A imposição de salários de fome, que se situam abaixo do nível de subsistência, avança também nos centros. A perda do emprego anda cada vez mais associada à queda num pauperismo que põe a vida em risco. A luta contra o desmantelamento da democracia e a fascização omnipresente da Europa é necessária para pelo menos manter abertas, durante o maior tempo possível, as margens de manobra para uma política emancipatória. Enquanto a relação de capital persistir como a totalidade social descrita, também as forças de oposição estarão acorrentadas às suas formas de socialização.

O caminho como objectivo

Isso não significa, porém, que estas forças devam exigir a luta socioecológica apenas nestas formas, muito menos que tenham de a conduzir apenas nestas formas. É portanto efectivamente decisivo com que consciência os protestos e lutas actuais são conduzidos, mesmo que o seu desenrolar concreto, inicialmente, não se diferencie muito das lutas reformistas imanentes ao sistema. A disputa com a ideologia da crise, a crítica simplista ao capitalismo e a falsa imediatidade visa, em última análise, elevar o processo de transformação à «consciência política» dos movimentos sociais, para que a luta pela transformação, conduzida de forma inconsciente, possa ser compreendida como tal e consequentemente moldada de forma consciente. A esquerda tem de ser a força que transporta esta consciência radical da crise para as lutas sociais – ou deixará de ser esquerda e degenerará numa pós-esquerda oportunista e reaccionária.
O foco e os objectivos de uma luta assim conduzida de forma consciente, aparentemente imanente ao sistema (luta pelo clima, luta salarial, protestos antifascistas, manifestações contra o desmantelamento da democracia, lutas de defesa contra os cortes sociais), alteram-se assim que são impregnados por uma consciência transformadora; ou seja, quando são compreendidos e propagados como uma fase inicial da luta pela transformação, que já se desenrola na periferia com toda a brutalidade assassina de massas. Para nos mantermos no exemplo dos protestos sociais: em vez de simplesmente postular que os ricos devem pagar, teria de ficar claro que os ricos têm de pagar pela transformação – enquanto o dinheiro ainda tiver valor e fizer algum sentido fazer essa exigência. O caminho torna-se o objectivo: a auto-organização das pessoas nos respectivos movimentos de oposição teria, assim, de ser já sustentada pelo empenho em criar momentos de uma socialização pós-capitalista. O caminho da organização progressista nas lutas sociais contribui assim para o objectivo de uma sociedade pós-capitalista emancipada do fetichismo.
No entanto, para além das medidas de redistribuição e expropriação, colocar-se-á também a questão: Como se pode organizar os cuidados de saúde, a alimentação, a habitação etc., sem que existam os meios financeiros necessários ou postos de trabalho rentáveis? O mais tardar quando a inflação desvalorizar o dinheiro no âmbito da desvalorização do valor e tudo correr o risco de ser encerrado ou reduzido devido à falta de rentabilidade, a organização da reprodução social segundo critérios diferentes dos capitalistas estará na ordem do dia. Não segundo o lema «Como financiar as pensões?», mas sim «Como organizar a riqueza material e social para que os idosos possam viver com dignidade?». Não «Como criar postos de trabalho?», mas sim «Como é que as pessoas e os recursos teriam de ser mobilizados e o que seria necessário fazer para que a alimentação, a habitação, a saúde etc., pudessem ser garantidas?» (e isso precisamente não ao nível do Hartz IV, dos bairros de lata ou do Gulag). Ou a esquerda se compromete com este nível radical, ou transforma-se numa «pós-esquerda» e terá de participar na implementação de soluções imanentes ao sistema, o que não conduzirá a nada mais do que enviar os idosos para «gulags» de cuidados a baixo custo ou eliminá-los de forma «socialmente aceitável».
As reivindicações e as formas de organização na resistência contra a iminente catástrofe climática e contra as imposições da administração da crise terão portanto de conter já os germes de formas de socialização pós-capitalistas. O esforço central aqui deveria ser realmente o de configurar os movimentos de oposição imanentes ao sistema, em primeiro lugar, como espaços de discurso abertos – de preferência também baseados na Internet. O discurso sobre a crise, que já não é possível a nível da sociedade como um todo (e que é sabotado pelo Partido da Esquerda ou pela DSA por cálculos oportunistas), tem de ser conduzido, pelo menos, na oposição da esquerda remanescente. Além disso, o processo de entendimento pós-capitalista almejado sobre a reprodução da sociedade como um todo parece já surgir no entendimento sobre estratégias e formas de protesto. Os espaços de debate teriam, assim, de ser mantidos abertos o maior tempo possível, mesmo face à repressão crescente. O processo de discussão aberta, a organização e a coordenação da resistência transformadora – são precisamente estes que poderiam funcionar como uma forma preliminar de autocompreensão consciente e global da sociedade mundial no que diz respeito à sua reprodução.
É por isso, aliás, que a luta democrática pela manutenção durante o maior tempo possível das liberdades democráticas burguesas remanescentes é tão necessária, a fim de poder influenciar durante o maior tempo possível o processo de transformação através de formas de confronto não militares. Além disso, a necessidade da transição entre a luta democrática e os conflitos militares-militantes é difícil de avaliar, dependendo do grau de fascização e das tendências de desintegração do Estado em questão e da sua sociedade. No entanto essa luta armada, que pode ser imposta às forças emancipatórias no decorrer de uma crise, representa também uma derrota. A estrutura de discurso aberta, as iniciativas de autogestão, que poderiam constituir os embriões de sociedades futuras, correm o risco de ceder lugar às necessidades da organização militar. Nesse caso, as orientações práticas leninistas tornam-se de facto inevitáveis – e surge então o risco de uma «sovietização» autoritária das alternativas pós-capitalistas.

O denominador comum

No entanto, já não se trata mais de reparar o sistema em decadência, mas sim de encontrar, com base em lutas concretas, os caminhos mais adequados para sair da crise capitalista permanente, precisamente porque um colapso do capital na barbárie e na desintegração marcaria a derrota definitiva da esquerda. Por isso a esquerda tem de compreender a crise como um processo que decorre em ondas e, consequentemente, pensar também em termos de processos e de evoluções, perceber as estruturas sociais existentes como estando em decomposição, identificar as contradições decisivas e, antecipando os enormes abalos futuros, criar as melhores condições sociais e a posição de partida ideal para a transformação emancipatória. Nesse contexto, coloca-se sempre de forma muito concreta a questão de saber quais as estruturas políticas e quais as configurações de poder social que deverão prevalecer na próxima onda de crise. O processo de crise que se desenrola nas costas dos sujeitos pode deparar-se com sociedades do capitalismo tardio estruturadas de formas muito diferentes. Estas podem ter uma orientação oligárquica, pré-fascista ou democrático-burguesa, mais igualitária ou estamental, nacionalista ou cosmopolita, secular ou religiosamente fascista, e assim por diante.
No entanto, é essencial evitar uma hierarquização das lutas entre contradições principais de luta de classes e outras contradições secundárias. A luta de classes, sustentada por uma consciência radical da crise, pode funcionar como forma embrionária e momento parcial da luta pela transformação tanto como a luta pelo clima. Os conflitos de luta de classes em lutas salariais ou protestos sociais só em pé de igualdade com outras lutas sociais – como a Antifa, a luta climática, o antimilitarismo, o feminismo, a defesa da democracia, a autodeterminação sexual etc. –, no âmbito de um movimento transformador, podem servir para ultrapassar a sua falsa imediatidade ao longo dos confrontos. As lutas sociais, os protestos ou as lutas pela redistribuição tornar-se-iam, através da introdução de uma consciência radical da crise, momentos de uma luta transformadora que escalaria muito rapidamente ao ultrapassar pontos de viragem sociais ou ecológicos, que provavelmente coincidirão cada vez com mais frequência. A crise, juntamente com o processo de transformação, é o denominador comum de quase todas as lutas sociais, que terão de ser conduzidas como lutas transformadoras: Para onde tende a dinâmica da crise? Onde se situam as contradições decisivas? Que forças, que constelações poderiam contribuir para um curso emancipatório da transformação? A esquerda tem de pensar em termos de processos, dinâmicas e contradições, em vez de persistir na habitual reificação.
Consequentemente, apesar de todas as evidências, é necessário lutar para transformar este movimento de transformação inevitável – que irá sem dúvida abolir o estado actual e cujo curso e resultado ainda estão em aberto – numa força que actue de forma consciente na luta pela transformação. Não há alternativa: a transformação do sistema é inevitável; o que importa é orientá-la numa direcção progressista e emancipatória – na luta contra as forças da barbárie que o capital volta a exsudar na sua crise.
Se existe actualmente um campo de batalha que deva ter prioridade nesta fase de crise, esse é o antifascismo empenhado na formação de uma aliança tão ampla quanto possível, uma vez que o fascismo, enquanto forma abertamente terrorista de crise da dominação capitalista, já se delineia claramente. A «frente transversal», que há muito vem a alastrar na esquerda alemã, a «Nova Direita», profundamente entrelaçada com o aparelho de Estado alemão, e o pré-fascismo, em ascensão, já estão a preparar-se para responder à crise do capital com uma nova queda na barbárie.

Original “Ready or not, here it comes” in konicz.info, 20.09.2026. Antes publicado em Direkte Aktion, 17.09.2026. Tradução de Boaventura Antunes
https://www.konicz.info/2026/09/20/ready-or-not-here-it-comes/

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