A nova qualidade da crise

konicz.info, 07.06.2022
Por que razão não haverá uma ordem pós-guerra estável depois da guerra sobre a Ucrânia

Tomasz Konicz, Tradução de Boaventura Antunes

A dialéctica da crise * Desglobalização * A China como o novo hegemonista? * Oceânia versus Eurásia? * Formação e desintegração do Estado autoritário * Amoque ou emancipação

Is this the big one? Será este o grande crash que irá derrubar tudo o que foi estabelecido em termos de estruturas e dinâmicas globais desde o avanço do neoliberalismo na década de 1980? A guerra sobre a Ucrânia poderá de facto ser vista em retrospectiva como o fim de uma época, como um ponto de viragem do processo de crise global, no qual o sistema mundial do capitalismo tardio em crise passou para uma nova qualidade da crise.


O facto de o sistema mundial capitalista estar numa grave crise sistémica1 é agora geralmente aceite, mesmo na esquerda alemã, após décadas de ignorância e marginalização2 da teoria da crise da crítica do valor, mas o carácter do processo de crise parece ainda estar muito pouco esclarecido. Pois a crise sistémica do capitalismo tardio não é um acontecimento isolado, não é um mero „grande crash“, mas um processo histórico que se desdobra em surtos ao longo de décadas, corroendo da periferia para os centros do sistema mundial. As crises de endividamento do Terceiro Mundo, que ocorreram nos anos 80 no início da era neoliberal agora em colapso e deixaram atrás de si filas de guerras civis e „Estados falhados“, há muito que atingiram os centros do sistema mundial. Isto é evidente, por exemplo, na tendência crescente para a estagflação, que faz lembrar o período de estagflação dos anos 70 – que então ajudou o neoliberalismo a irromper.3


A crise sistémica não é, portanto, um „grande estouro“,4 mas um processo histórico de crescente desenvolvimento da contradição interna e externa do capital, que, devido à racionalização mediada pela concorrência, se livra da sua própria substância, o trabalho gerador de valor na produção de mercadorias, e deixa atrás de si uma humanidade economicamente supérflua5 e um mundo ecologicamente devastado.6 Neste contexto, este processo histórico de crise, que deu origem ao neoliberalismo como sistema de „retardamento da crise“, caracteriza-se por fases de latência interrompidas por surtos manifestos de crise nos centros: tais como a bolha dot-com em 2000, a bolha imobiliária em 2008, o surto de crise relacionado com a pandemia em 2020 e as convulsões que agora começam com a guerra. O retardamento da crise foi assim comprado com a crescente instabilidade do sistema, que teve de lidar com surtos de crise cada vez mais violentos nas décadas neoliberais, e com a acumulação do potencial de crise.

A dialéctica da crise


Os surtos de crise que vão ganhando intensidade e nos quais a crise se manifesta são assim precedidos por uma longa fase latente, em que se acumula o potencial de crise resultante da auto-contradição do capital, sobretudo sob a forma de montanhas crescentes de dívida ou bolhas do mercado financeiro,7 que ainda permitem ao sistema hiperprodutivo uma espécie de vida ilusória8 tipo zombie através da procura financiada a crédito – e é precisamente esta construção de torres de dívida que está a atingir os seus limites internos devido à actual dinâmica da inflação.9 O processo quantitativo, a acumulação de dívida e o aumento de bolhas especulativas, leva a uma convulsão qualitativa após atravessar o ponto de viragem, à eclosão de uma crise de dívida ou ao rebentar de uma bolha de dívida, que depois também são publicamente percebidas como „crise“.


A mesma dialéctica materialista da transformação das mudanças quantitativas numa nova qualidade também pode ser constatada na crise climática capitalista. 10;11 Aqui é o aumento quantitativo dos gases com efeito de estufa na atmosfera que leva a uma mudança fundamental e qualitativa no sistema climático, uma vez passados certos pontos de viragem. (A propósito, os efeitos de habituação entre as crises económicas ou ecológicas também promoveram a ignorância da crise, uma vez que as consequências de um surto de crise nos centros ou na periferia muito rapidamente se sedimentam numa nova „normalidade“ entre o público sem o sentido da história).


A variante neoliberal do capitalismo impulsionada pelas finanças, que se instalou em reacção à estagflação e ao fim do grande boom do pós-guerra nos anos 70, geriu de certo modo o capitalismo „a crédito“, tanto em termos económicos como ecológicos. Desde os anos 80, o peso da dívida global tem vindo a aumentar mais rapidamente do que a produção económica mundial, levando a abalos cada vez mais fortes nos mercados financeiros sob a forma de bolhas de especulação e crises de dívida. E também ecologicamente a globalização capitalista neoliberal tem sido acompanhada por um aumento constante das emissões de CO2, que até agora só puderam ser reduzidas a curto prazo à custa de crises económicas. E são precisamente as crescentes distorções climáticas e económicas que tornam o sistema na sua forma neoliberal cada vez mais instável.


O edifício da torre da dívida neoliberal que constitui a base desta era não pode ser continuado ad infinitum. O mesmo se aplica à máquina mundial de queima de combustíveis fósseis,12 que foi provocada pela globalização neoliberal – que é de facto uma globalização da dinâmica da dívida por meio de circuitos de défice. O aumento quantitativo do potencial de crise, que produziu uma montanha de dívida global de 356 por cento da produção económica mundial13 e uma concentração de CO2 de 419,82 ppm14 , está a levar o capitalismo ao seu limite interno e externo, pelo menos ao limite de desenvolvimento da era neoliberal do capital. Uma mudança qualitativa para outra forma de processamento da crise capitalista parece inevitável (é impossível a ultrapassagem da crise económica e ecológica do capital no quadro da formação social capitalista).


Esta mudança dialéctica da quantidade para a qualidade está a ocorrer em particular no que diz respeito ao processo de globalização, que parece estar a transformar-se no seu oposto. É precisamente aqui que emergem claramente os contornos de uma nova fase de crise, que seria caracterizada por uma „fragmentação da economia mundial em blocos geopolíticos“, na qual seriam também utilizados „diferentes padrões comerciais e tecnológicos, sistemas de pagamento e reservas monetárias“, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) advertiu num documento de Abril de 2022.15 Já em meados de Março, o FMI descreveu a guerra como um „duro golpe na economia global“ que não só „alteraria fundamentalmente a ordem económica e geopolítica global“, mas que também comportava o risco de aumento da instabilidade em regiões periféricas como a África ou a América Latina, que seriam afectadas pela crescente insegurança alimentar.16

Desglobalização


As sanções que acompanham a guerra perturbam importantes fluxos comerciais globais e levam a rápidos aumentos de preços não só para a energia mas também para os alimentos, uma vez que a Rússia, a Bielorrússia e a Ucrânia estão entre os mais importantes exportadores globais de cereais e fertilizantes.17 Para os bens essenciais, alimentos e combustíveis fósseis, a globalização capitalista já entrou, de facto, em colapso. As sanções ocidentais sobre os fertilizantes russos e bielorussos são susceptíveis de reduzir a produção agrícola em muitos países.18


Mas não é apenas o confronto imperialista entre o Oriente e o Ocidente na guerra da Ucrânia que está a contribuir para a explosão dos preços – há muito tempo que países não envolvidos também têm recorrido a medidas proteccionistas para garantir a segurança alimentar e a estabilidade política interna. Devido ao aumento maciço dos preços e à ameaça de escassez da oferta, a Indonésia, por exemplo, decretou a proibição de exportação de óleo de palma, o que agravou ainda mais a situação da oferta, especialmente no Sul global, uma vez que a guerra já tinha causado o colapso da exportação de óleo de girassol ucraniano.19 A Índia agiu de forma semelhante com a sua recente proibição de exportação de trigo.20


A inflação e a escassez de oferta, que já ocorriam antes da guerra devido à pandemia, estão agora a ganhar força à medida que a desglobalização se instala abruptamente. Mas também este grande estouro, com o qual os fluxos globais de bens e finanças estão a ser abalados, não surge do nada. Os esforços para rever a globalização têm sido virulentos há anos, especialmente na figura do Presidente dos EUA Donald Trump, que personifica as contradições da produção capitalista de mercadorias como nenhuma outra. Eleito por partes da classe média pauperizada dos EUA, Trump propôs-se fazer „grande“ novamente uma América desindustrializada, atormentada por um gigantesco défice comercial – erguendo barreiras comerciais. O objectivo do proteccionismo de Trump era a reindustrialização dos Estados Unidos.


A dinâmica da dívida que se desenvolveu durante a financeirização neoliberal, que se instalou após o fim do grande boom fordista do pós-guerra e deixou o sistema mundial cada vez mais a funcionar a crédito,21 não se desenvolveu de modo uniforme. Regiões com grandes défices, tais como os EUA ou o sul da Europa, contrastavam com países com grandes excedentes de exportação. Isto levou à formação de circuitos de défice, que se tornaram cada vez mais importantes durante a globalização e moldaram o curso dos episódios de crise nas duas primeiras décadas do século XXI (bolha imobiliária, crise do euro). A globalização não é assim obviamente a causa do processo de crise capitalista com as suas distorções, tais como as bolhas do mercado financeiro e as crises da dívida, mas é a forma do seu curso histórico.


O maior circuito de défice do Pacífico entre os Estados Unidos e a China caracterizou-se pelo facto de a República Popular, que se tornou a nova „oficina do mundo“, ter exportado quantidades gigantescas de bens através do Pacífico para os EUA em desindustrialização, acumulando assim enormes excedentes comerciais, enquanto na direcção oposta corria um fluxo do mercado financeiro de títulos de dívida dos EUA, de modo que a China se tornou o maior credor estrangeiro de Washington.22 Um circuito de défice semelhante, mais pequeno, formou-se entre a RFA e a periferia sul da zona euro, no período desde a introdução do euro até à crise do euro.23


Assim, a globalização não se caracterizou apenas pelo estabelecimento de cadeias de abastecimento globais, consistiu também numa globalização correspondente da dinâmica da dívida realizada através de circuitos de défice, a qual, como mencionado, cresceu mais rapidamente do que a produção económica mundial nas últimas décadas – e consequentemente funcionou como um importante motor económico ao gerar uma procura financiada a crédito. A globalização que produziu estes gigantescos desequilíbrios globais foi uma reacção sistémica, uma fuga para a frente das crescentes contradições internas do modo de produção capitalista, que está a sufocar o seu próprio desenvolvimento da produtividade.


O que está agora a desenrolar-se globalmente poderia ser estudado nos seus rudimentos, com base na crise do euro: Enquanto as montanhas da dívida crescerem e as bolhas do mercado financeiro estiverem a crescer, todos os Estados envolvidos parecem lucrar com este crescimento do crédito. Mas assim que as bolhas rebentam, a batalha sobre quem tem de suportar os custos da crise começa. Na Europa, como é sabido, Berlim utilizou a crise para transferir os custos da crise para o Sul da Europa, sob a forma dos infames ditames de austeridade de Schäuble. Agora, a nível global, está iminente o colapso da muito maior economia de défice financiada pela dívida, que ultimamente foi mantida viva sobretudo pela política monetária expansiva dos bancos centrais.


O valor acumulado na esfera financeira, capital „fictício“ não gerado pela utilização de força de trabalho, será desvalorizado devido à falta de um novo regime de acumulação na produção de mercadorias.24 A inflação crescente, perante a qual a política monetária burguesa se encontra numa armadilha de crise,25 que só permite o caminho para a inflação e/ou recessão, é precisamente uma expressão da inevitável desvalorização iminente do valor. Para muitos Estados anteriormente acorrentados à globalização através de circuitos de défice e da concorrência pela localização do investimento, os custos crescentes da crise excedem as vantagens em erosão das economias de défice, de modo que as tendências centrífugas nacionais e regionais ganham vantagem e forçam o colapso da globalização. Isto é uma contradição induzida pela crise. O capitalismo está cheio delas.

A China como o novo hegemonista?


É precisamente este esgotamento do edifício da torre neoliberal de dívidas das últimas décadas que está a fazer com que os monstros do Estado capitalista tardio procurem cada vez mais refúgio na expansão externa contra as crescentes contradições internas. A Turquia, flagelada por uma elevada inflação de dois dígitos e impulsionada por Erdogan para novas campanhas imperialistas de conquista, é, por assim dizer, apenas o modelo do manifesto imperialismo de crise que se está a espalhar em muitos lugares. Esta fuga neo-imperial para a guerra, relacionada com a crise, é também evidente no caso da Rússia, que teve de abater várias revoltas e agitações no seu „quintal“ pós-soviético nos meses que antecederam a invasão da Ucrânia.26


Mas esta relação causal entre crise e guerra manifesta-se também nas acções expansivas do Ocidente no espaço pós-soviético, que, com a sua recusa em concordar com garantias de neutralidade para a Ucrânia, provocou claramente a guerra de agressão russa no „quintal“ geopolítico do Kremlin. Para os EUA, a luta contra a Eurásia, como esboçada na aliança da China e da Rússia, é uma luta pela hegemonia e pelo dólar americano na sua função de moeda de reserva mundial.27 Os Estados Unidos, devido ao seu extremo défice comercial, funcionaram em certo sentido como um buraco negro da economia mundial, absorvendo uma grande parte da produção excedentária da hiperprodutiva indústria do capitalismo tardio. Com a inflação em rápida aceleração, que é alimentada não só pela política monetária expansiva dos bancos centrais, mas também por estrangulamentos de recursos e pela crise climática em plena expansão,28 a capacidade de Washington de pedir livremente empréstimos na moeda de reserva mundial, a medida do valor de todas as mercadorias, está agora em risco.


Ao mesmo tempo, a China, que juntamente com a Rússia se esforça por formar um bloco de poder eurasiático, está a perder um importante incentivo para tolerar a hegemonia americana com o fim iminente da economia de défice dos EUA: Os extremos excedentes de exportação chineses, que contribuíram significativamente para a industrialização capitalista atrasada da República Popular nos anos 90 e no início do século XXI, já não desempenham um papel central como motor económico desde a eclosão da crise imobiliária em 2008 – e são susceptíveis de perder peso rapidamente também em relação aos EUA no futuro.


No entanto, é uma falácia interpretar a actual convulsão global como uma transição para um novo sistema hegemónico, em que a China „sucederia“ de certo modo aos EUA. O Império do Meio parece estar em vias de substituir os Estados Unidos como potência capitalista hegemónica global – mas ao mesmo tempo esta radical mudança já não é possível no quadro do modo de produção capitalista, devido à escalada da crise socio-ecológica. A história da expansão global do sistema mundial capitalista, que começou no século XVI, ocorre em ciclos hegemónicos, tais como os descritos por Giovanni Arrighi na sua fascinante obra „Adam Smith em Pequim“:29 Uma potência emergente ganha uma posição dominante dentro do sistema, após um certo período de domínio esta potência hegemónica entra em declínio imperial e é finalmente substituída por um novo hegemonista.


De acordo com Arrighi, cada ciclo hegemónico tem duas fases: Primeiro, tem lugar uma fase de ascensão imperial, caracterizada por uma „expansão material“, ou seja, pelo domínio da indústria produtora de mercadorias da nova potência hegemónica. Após a eclosão de uma „crise de aviso“ económica – desencadeada por processos de sobre-acumulação – instala-se a fase de descida imperial, que é acompanhada pela expansão financeira e pelo domínio da indústria financeira, e que ainda dá ao hegemonista descendente um apogeu económico e imperial final.


E esta sequência pode ser claramente confirmada empiricamente, tanto no caso da Grã-Bretanha como no dos EUA. O Império Inglês, que se ergueu para se tornar a „oficina do mundo“ no contexto da industrialização no século XVIII, transformou-se no centro financeiro mundial na segunda metade do século XIX, antes de ser substituído na primeira metade do século XX pelos EUA economicamente ascendentes, que por sua vez experimentaram a sua „crise de aviso“ durante a fase de crise da estagflação na década de 1970. Seguiu-se a desindustrialização e financeirização dos EUA, o que levou à dominância económica do sector financeiro.


Arrighi argumenta também que a mudança entre dois ciclos hegemónicos é acompanhada por um endividamento da potência hegemónica descendente ao hegemonista ascendente, como ilustrado no livro pelo exemplo da crescente dependência económica da Grã-Bretanha em relação aos EUA durante a Primeira Guerra Mundial. A Grã-Bretanha durante o período da Guerra Mundial acumulou um enorme défice comercial com os EUA, „que forneceram milhares de milhões de dólares em munições e alimentos aos Aliados, mas receberam poucos bens em troca“. A propósito, a Grã-Bretanha agiu de forma semelhante no seu papel de „banqueira“ da coligação anti-Napoleónica, cerca de cem anos antes. E é precisamente esta relação de dependência entre um declínio dos EUA e uma subida da China que tem sido descrita com base no circuito de défice do Pacífico, com o qual os excedentes das exportações chineses contribuíram para a industrialização da China orientada para a exportação e para a acumulação do défice nos Estados Unidos.


So, what is wrong here? O que está errado desta vez que torna impossível um novo ciclo hegemónico chinês? Porque é que o século XX „americano“ não pode ser substituído pelo século XXI „chinês“? Por um lado, a China já passou obviamente a sua „crise de aviso“ marcando a transição para um modelo de crescimento impulsionado pelo mercado financeiro em 2008. Com o rebentamento das bolhas imobiliárias nos EUA e na Europa, os excedentes de exportação chineses extremos diminuíram (com excepção dos EUA), enquanto os gigantescos pacotes de estímulo que Pequim lançou nessa altura para apoiar a economia levaram a uma transformação da dinâmica económica da China: as exportações perderam peso, a indústria da construção financiada a crédito e o sector imobiliário formaram desde então os motores centrais do crescimento económico.


Por exemplo, de acordo com estatísticas oficiais, a China consumiu cerca de 6,6 gigatoneladas de betão de 2011 a 2013, o que significa que a República Popular, condenada a um boom permanente, produziu mais betão em três anos do que os EUA em todo o século XX. No final de Março de 2015, o „Washington Post“30 entusiasmava-se com o facto de com isso todo o Havai poder ser coberto de betão e transformado num enorme parque de estacionamento. Os Estados Unidos tinham consumido 4,5 gigatoneladas de betão no século passado, segundo o WP, sendo que os números oficiais de Pequim careceriam de um escrutínio mais minucioso – o que não é nada óbvio. Os números são „surpreendentemente lógicos“, uma vez que uma grande parte das infra-estruturas da China só foi construída no século XXI e a urbanização do país mais populoso do mundo está a progredir rapidamente. Em 1978, apenas um quinto de todos os chineses viviam em cidades; em 2020, o número tinha aumentado para 60 por cento.


Assim, o crescimento da China está também a decorrer a crédito, a „República Popular“ está igualmente muito endividada, tal como os centros ocidentais em declínio do sistema mundial (ainda mais: a ascensão da China para se tornar a „oficina do mundo“ baseou-se também nos processos de endividamento na Europa Ocidental e nos EUA, devido aos excedentes de exportação chineses no quadro dos circuitos de défice acima mencionados).31 E este circuito de défice chinês produz excessos especulativos ainda maiores do que nos EUA ou na Europa Ocidental, como tornaram evidente as distorções no absurdamente inflacionado mercado imobiliário chinês em 2021.32 Esta falta de um novo regime de acumulação na produção de mercadorias, em que se manifesta o limite interno do capital, constitui a grande diferença entre a China e os EUA: Washington conseguiu aproveitar duas décadas de expansão do capital sob o fordismo após a Segunda Guerra Mundial, no início da sua hegemonia. A China, pelo contrário, devido ao colapso das suas torres de dívida num sistema mundial capitalista tardio sobreendividado, é como se já estivesse em declínio antes de alcançar a hegemonia.


Outro momento que torna impossível a hegemonia chinesa no sistema mundial capitalista tardio em termos ecológicos foi descrito por Arrighi no seu referido trabalho como a tendência histórica de progressão dentro dos ciclos hegemónicos: o território, a população, bem como o peso económico das potências hegemónicas aumentam na história do sistema mundial capitalista. Desde os poucos milhões de súbditos da Grã-Bretanha, a centenas de milhões de cidadãos americanos do hegemonista continental EUA, até ao último incremento possível do Estado com mais de mil milhões que é a China. Isto, contudo, também rebenta os limites ecológicos do sistema capitalista mundial,33 uma vez que a China já é o maior emissor de gases com efeito de estufa e a crise climática já está a ter consequências catastróficas que estão a devastar a República Popular em particular.34

Oceânia versus Eurásia?


O colapso da economia de défice global e a escalada da crise climática impedem uma nova „ordem mundial“ moldada por Pequim, um ciclo hegemónico chinês. Afinal de contas, a hegemonia significa que a posição do hegemonista é pelo menos tolerada, uma vez que traz vantagens para os outros Estados no sistema hegemónico. No caso dos EUA, foi o longo boom fordista do pós-guerra e – a partir dos anos 80 – a economia de défice baseada na moeda de reserva mundial, o dólar, que tornou possível a hegemonia de Washington. A ascensão da China, pelo contrário, já não se pode basear num tal fundamento económico.


Ao ciclo histórico de hegemonia do sistema mundial capitalista sobrepõe-se assim o processo de crise socio-ecológica do capital, que interage com ele e faz com que se sobreponham a ascensão e a decadência da hegemonia da China. No lugar do sistema hegemónico americano, que entrou em dissolução aberta com a invasão do Iraque a partir de 2003, parece existir agora uma formação de blocos global, na qual a Eurásia (Rússia e China) e a Oceânia (EUA juntamente com os seus sistemas de aliança do Atlântico e do Pacífico) se encontram num conflito perpétuo, numa verdadeira distopia. Mas mesmo esta linha de frente, que faz lembrar a Guerra Fria – e que escalou para um conflito aberto na Ucrânia – é provável que se mantenha instável e volátil. Poder-se-ia mesmo argumentar que Washington e Londres, como forças motrizes do conflito na Ucrânia, estão também a perseguir o objectivo de soldar o conjunto do sistema de aliança ocidental em erosão, através de uma frente comum contra Moscovo nas trincheiras da Ucrânia oriental.


O colapso da globalização é sinónimo do colapso da economia de défice global acima delineada, que estabilizou o sistema mundial na era neoliberal. Este é o factor decisivo que irá moldar o futuro curso da crise. O edifício da torre da dívida, que foi mantido mais recentemente através da impressão de dinheiro pelos bancos centrais e que atrasou o surto manifesto da crise no período neoliberal, está actualmente em colapso sem que um novo regime de acumulação seja previsível, resultando na intensificação da cega concorrência de crise a todos os níveis da socialização capitalista. Uma „ordem pós-guerra“ já dificilmente parece possível, devido ao crescente impacto da crise e ao consequente aumento da concorrência de crise.


Isto também se aplica ao imperialismo de crise, que, embora evocando memórias do século XIX, é impulsionado por uma lógica inversa de desenvolvimento. Enquanto o primeiro „Grande Jogo“ imperialista teve lugar numa fase de expansão global do capital, na qual regiões periféricas sempre novas foram integradas a ferro e fogo no sistema mundial capitalista, a sua reencenação no século XXI está a ter lugar contra o pano de fundo da contracção do processo de valorização, que está a deixar para trás cada vez mais „terra queimada“ económica e ecologicamente, juntamente com os correspondentes „Estados falhados“.


Em resumo: Uma vez que o capital já não pode continuar a sua vida zombie financiada a crédito, os últimos monstros estatais capitalistas estão a cair uns sobre os outros, o que também torna todas as actuais alianças instáveis, uma vez que a pressão competitiva relacionada com a crise também está a aumentar entre a UE e os EUA, entre Pequim e Moscovo. Há uma certa inevitabilidade em tudo isto, uma vez que a luta pelo reconhecimento mundial na crise mundial do capital é de facto equivalente a uma luta contra o declínio social e económico, uma luta sobre o Titanic do sistema mundial do capitalismo tardio que está em decadência aberta. O isolamento dos economicamente supérfluos e a segurança dos recursos são momentos centrais deste imperialismo de crise, enquanto as potências e as regiões mundiais inferiores cambaleiam no colapso do Estado.


Isto torna-se claro no exemplo da guerra sobre a Ucrânia, onde ambos os lados estão de facto a tentar instrumentalizar as tendências de desintegração do Estado para os seus próprios interesses. Moscovo está a trabalhar para estabelecer „repúblicas populares“ nas regiões de língua russa ocupadas da Ucrânia – seguindo o exemplo de Donetsk e Luhansk – a fim de as incorporar na Federação Russa. A extrema direita da Ucrânia, que forma actualmente a ponta de lança fanática dos militares ucranianos, por outro lado, vê a guerra como uma oportunidade para acelerar a desintegração do Estado russo, a fim de à sua sombra poder realizar ambições imperiais.35


É uma lógica talibã que se está a desenvolver aqui, na qual – à semelhança da ajuda militar ocidental aos combatentes da guerra santa do Afeganistão nos anos 80 – está a ser melhor armado um movimento extremista que desestabilizará a região no decurso da crise e levará as tendências anómicas já existentes no aparelho estatal ucraniano podre (que é tão corrupto como o da Rússia) ao seu pleno desenvolvimento. Mesmo os nazis da Ucrânia, que estão hoje a ganhar rapidamente influência,36 seguem apenas superficialmente o seu modelo histórico – à semelhança do imperialismo de crise acima descrito. Depois de se terem empenhado em lutar pelo habitual império nacional em forma de Estado, são de facto o sujeito da barbárie anómala que se desenvolve objectivamente durante a crise, ou seja, do rápido avanço da decadência do Estado.


Outro momento da nova fase de crise, em que os limites externos e internos do capital interagem, torna-se também claramente visível durante a guerra da Ucrânia: a rápida propagação da falta de recursos e alimentos que ainda podem ser vendidos tornar-se-á um fenómeno permanente em consequência da guerra.37 Face à escalada da crise climática e à globalização em colapso, o sistema agrícola global do capitalismo tardio, que transformou os recursos naturais e os meios de subsistência da humanidade em suportes do valor e os queima para fins de uma desenfreada valorização do valor,38 é incapaz de manter o fornecimento de alimentos para grandes partes da humanidade na periferia do sistema mundial – mesmo que isso ainda fosse possível num sistema pós-capitalista de conservação de recursos, apesar da escalada da crise climática.


Com o colapso cada vez mais evidente da economia de défice global, incluindo os circuitos de défice acima descritos, e com a desvalorização do valor que agora também está iminente nos centros, na zona euro e na zona dólar, que muito provavelmente será anunciada pela estagflação, as cadeias globais de abastecimento de matérias-primas, recursos e alimentos básicos também são susceptíveis de entrar em colapso ou, pelo menos, de ser gravemente danificadas. A crise de escassez característica da nova qualidade da crise, que já está a alastrar na periferia,39 é assim o produto das crescentes contradições inerentes à compulsão de crescimento do capital – e também aqui a „escassez de abastecimento“ a partir da qual a indústria alemã, por exemplo, geme, foi apenas a manifestação no decurso da pandemia desta nova qualidade de crise de um sistema mundial em desintegração aberta.


O carácter do „Grande Jogo“ neo-imperialista sobre a Ucrânia mudou consequentemente desde 2014 – quando o Ocidente interveio40 para impedir a formação da „União Eurasiática“ propagada por Putin. Com a luta pelas regiões sul e sudeste da Ucrânia, que o Kremlin quer incorporar no seu império podre, está agora também a ter lugar uma guerra pelos recursos de aspecto arcaico. Estas áreas têm os rendimentos agrícolas mais elevados.41 Moscovo, que não conseguiu modernizar a economia russa, está assim a expandir a sua estratégia de um „império energético“, que procura um controlo extensivo da „cadeia de valor“ das fontes de energia, para incluir outros recursos „escassos“: alimentos básicos. A Rússia não só quer ser uma estação de serviço com armas nucleares, como também quer ser um celeiro – precisamente em antecipação da crise climática.


A invasão russa da Ucrânia proporciona assim um vislumbre do próximo período de crise, em que um sistema mundial capitalista em processo de desintegração deixará de permitir uma hegemonia fixa ou a formação de blocos, devido aos crescentes impactos económicos e ecológicos, enquanto que os confrontos bélicos abertos sobre recursos essenciais são susceptíveis de aumentar, mesmo entre as grandes potências que cada vez mais se fecham à periferia. De certo modo, tudo se tornará petróleo – especialmente porque o processo de crise não se detém na reificação do discurso burguês da crise, e os momentos individuais desta dinâmica, que na percepção pública estão ordenadamente separados uns dos outros e discutidos como „crise económica“, „crise climática“, „instabilidade política“ ou „escassez de oferta“, interagirão cada vez mais uns com os outros. O ponto de fuga desta nova qualidade da crise a um nível geopolítico e „neo-imperial“ é, em última análise, a troca de galhardetes nucleares, que se torna cada vez mais provável com a intensidade crescente da crise ecológica e económica, com „impactos de crise“ sempre novos e cada vez mais violentos.

Formação e desintegração do Estado autoritário


Uma vez que a desglobalização é acompanhada pelo colapso da economia de défice global, que levará à desvalorização da montanha da dívida neoliberal, os deslocamentos económicos e sociais mais graves, que devastaram grandes partes da periferia sob a forma de crises da dívida e colapsos económicos na era neoliberal, parecem prováveis desta vez também nos centros. Se as elites funcionais capitalistas não tiverem à sua disposição outro método para retardar a crise, o processo de crise, que tem vindo a avançar por fases desde a periferia até aos centros desde os anos 80, chegará assim ao seu ponto final lógico. Não são apenas os EUA, que gemem sob um absurdo peso da dívida pública e privada, que estão a enfrentar o abismo económico, tendo em conta a necessária reviravolta da política monetária; são precisamente as economias exportadoras, como a da RFA, que estão altamente dependentes da economia de défice global por via dos seus excedentes de exportação, que de facto representam uma exportação de dívida – são elas que podem agora ser atingidas de forma particularmente dura pela desglobalização.


Assim, à primeira vista, uma tendência que já aparecia na fase final da era neoliberal parece estar a avançar para se tornar um momento central do novo período de crise: O Estado como actor económico, que nos últimos anos parece ter estabilizado o sistema com pacotes de estímulos e impressão excessiva de dinheiro no contexto da última grande bolha de liquidez42 , é susceptível de subir para se tornar a variável económica dominante a curto prazo, devido à nova qualidade do processo de crise – mesmo que estes movimentos reflexos de capitalismo de Estado já não tenham qualquer perspectiva de sucesso.


Em geral, o Estado capitalista, que já na sua forma inicial absolutista actuava como o mais importante impulsionador do arranque do processo de valorização no quadro da „economia das armas de fogo“ europeia (Robert Kurz), actua como o actor económico central em tempos de guerra e de crise. O Estado não é uma alternativa ao mercado, como aparece frequentemente na crítica truncada do capitalismo, mas uma correcção necessária à dinâmica cega do mercado, que tende a ser autodestrutiva. Assim que as contradições inerentes à valorização do capital abalam o sistema até aos seus fundamentos através de crises ou guerras, o Estado – que é sempre um Estado capitalista – tem de intervir para tentar estabilizar o sistema. Mais recentemente, por exemplo, no período de crise e guerra na década de 1930.


Também actualmente, perante a crise climática e a guerra, se levantam vozes na opinião pública apelando a uma transição aberta para a ideia de renúncia,43 o capitalismo estatal e a economia de guerra.44 O Estado não deve apenas apoiar a „economia“ através de programas de estímulo económico, da construção da novas infra-estruturas „ecológicas“ e da impressão de dinheiro, como na fase final do neoliberalismo; entretanto, a dispendiosa investigação básica, o subsídio ao consumo ou à produção e a organização da distribuição de mercadorias em fases de crise também parecem concebíveis sob a direcção do Estado. As decisões estratégicas estatais sobre o desenvolvimento industrial já fazem parte da política burguesa, por exemplo na RFA sob a forma de promoção de „campeões industriais“ que deverão conquistar os mercados mundiais com o apoio do Estado (também aqui o Ocidente só está realmente a seguir a China e a Rússia).45 Em resposta às próximas fases de crise, também são previsíveis nacionalizações, especialmente no sector arruinado e propenso a crises das infra-estruturas do capitalismo tardio.


Este necessário papel do Estado como „administrador da crise“, no entanto, é minado pelo referido esgotamento da globalização da economia de défice da era neoliberal, que, perante montanhas vertiginosas de dívidas, mercados financeiros sobreaquecidos e inflação em rápido aumento, está a conduzir a política para um beco sem saída, para uma armadilha de crise: Por um lado, a política de crise capitalista teria de facto de baixar as taxas de juro, imprimir dinheiro e apoiar a economia através de programas de estímulo económico, a fim de minimizar as consequências económicas da guerra da Ucrânia; mas ao mesmo tempo seria necessário aumentar as taxas de juro e seguir um curso de austeridade consistente, a fim de obter pelo menos algum controlo sobre a inflação.


Esta armadilha de crise,46 que está a tornar-se cada vez mais clara, e marca o fim do retardamento neoliberal financiado a crédito do avanço manifesto da crise nos centros, irá, quando se fechar, resultar nas mais graves distorções económicas e sociais – especialmente nos centros, especialmente na sua classe média. Com o surto de empobrecimento, a brutalização gradual das sociedades metropolitanas burguesas, que se prolonga há décadas, vai transformar-se numa barbarização aberta, impulsionada por uma escalada da concorrência de crise a todos os níveis, que está a conduzir à anomia. O recuo sócio-político do Estado induzido pela crise irá reduzi-lo ao seu papel original de instrumento de repressão. O novo impulso de crise implicará assim uma reacção estatal correspondente. As aspirações autoritárias do Estado, presentes no neoliberalismo sob a forma de desmantelamento da democracia e de expansão do Estado de vigilância, tornar-se-ão abertamente evidentes. O presidente de direita dos EUA Trump foi apenas um prelúdio a este respeito. E também na República Federal, é provável que o potencial fascista latentemente fermentado só se torne plenamente manifesto quando o efeito civilizador dos elevados excedentes de comércio externo, que obrigam as elites funcionais da Alemanha a ter em conta a opinião estrangeira, desaparecer no decurso da crise.

A guerra sobre a Ucrânia, em particular, torna clara esta interacção de surto de crise, brutalização e reflexo autoritário do Estado. Lukashenko, em tempos descrito como „o último ditador da Europa“, parece ser o precursor de todas as tendências autoritárias que actualmente se propagam na UE, por exemplo na Hungria ou na Polónia, na NATO, especialmente sob a forma do regime islamo-fascista na Turquia, ou na própria Ucrânia, que já segue os passos da Rússia com detenções de membros da oposição e proibições de partidos.47 É um erro fundamental interpretar a guerra na Ucrânia como uma luta entre a democracia e a ditadura, erro que na realidade poderia ser corrigido apenas olhando para as condições em Varsóvia, Budapeste ou Ancara. Consequentemente, é mais provável que a nova fase de crise seja caracterizada pela luta orwelliana de regimes autoritários ou fascistas pelos recursos do que por uma nova edição da „Guerra Fria“.

No entanto, esta tendência para a administração autoritária e em última análise abertamente fascista da crise é um fenómeno de superfície que só externamente está ligado ao fascismo do século XX. A mobilização total e totalitária durante a Segunda Guerra Mundial tornou possível o boom fordista do pós-guerra, uma vez que efectivamente não houve desmobilização após o fim da guerra e a produção em massa de tanques passou para a automobilização das sociedades capitalistas do pós-guerra; mas um regime semelhante de acumulação, em que a mão-de-obra assalariada em massa seria utilizada na produção de mercadorias, não está à vista desta vez. Existe apenas o abismo do sobreendividamento total na catástrofe climática incipiente, o que dá uma diferente forma de desenvolvimento à função objectiva do fascismo como forma de crise terrorista da dominação capitalista. O elemento do fascismo que sempre existiu como a dominação de vigaristas, ou seja, de comunidades de saque concorrentes, como a teoria crítica clarividentemente afirmou, torna-se dominante na actual crise sistémica.

A formação autoritária do Estado, que se está a tornar cada vez mais presa de vigaristas, vai assim a par com a sua erosão interna, que já começa a desenvolver-se na República Federal da Alemanha: especialmente no que diz respeito às crescentes actividades da extrema-direita48 no aparelho de Estado.49 Este processo progrediu muito mais na Ucrânia, onde, após a queda do governo e a eclosão da guerra civil, o domínio dos oligarcas já se transformou numa formação aberta de milícias de extrema-direita,50 que foi capaz de desafiar abertamente o Estado ucraniano no período que antecedeu a guerra.51 Além disso, a desastrosa invasão russa revelou até que ponto as tendências para a erosão do Estado também progrediram no seio da oligarquia estatal russa, uma vez que até o exército, essencial para a projecção do poder do Kremlin, foi totalmente afectado por esta situação. A divisão dentro da direita alemã, que não pode posicionar-se claramente atrás dos nazis ucranianos ou do pré-fascismo russo na guerra da Ucrânia, aponta precisamente para a omnipresença destas tendências anómicas autoritárias neste conflito.52

Um excelente exemplo da fragilidade do regime autoritário no capitalismo e da transformação da ditadura em anomia é oferecido pela Primavera Árabe, no decurso da qual ditaduras aparentemente monolíticas como as da Síria e da Líbia entraram em colapso e libertaram as forças centrífugas que lhes eram inerentes. As estruturas autoritárias não são um sinal da força interior do sistema capitalista, que prefere optimizar a auto-exploração dos dependentes de salário no quadro da democracia capitalista, mas sim a sua forma de crise, que está longe de ser tão eficiente a organizar o processo de valorização como o discurso público habitual nos centros do sistema mundial sobre formas de optimizar e aumentar o crescimento – mas que requer um certo grau de estabilidade social para assegurar os seus fundamentos ideológicos.

Amoque ou emancipação


A era de administração da crise abertamente autoritária, que se está agora a anunciar, por exemplo, na preferência publicamente expressa dos oligarcas ocidentais pelos populistas de direita,53 não será assim capaz de trazer uma ordem pós-guerra de uma década na política interna, tal como prevaleceu pelo menos nos centros na era neoliberal, apesar de todos os processos larvares de erosão e das crescentes contradições. Os impactos climáticos, económicos e geopolíticos da crise são cada vez mais frequentes, razão pela qual é pouco provável a estabilização, que anunciaria um novo período histórico de administração da crise, mesmo por meio de métodos autoritários e ditatoriais. Especialmente porque, como já foi mencionado, os diferentes momentos do processo de crise estão a interagir cada vez mais, de modo que a crise climática, por exemplo, terá um impacto económico e social crescente. O tempo dos monstros, como Gramsci chamou ao tempo de irrupção do fordismo na década de 1930, já não parece ser capaz de terminar.


Poder-se-ia mesmo argumentar que – com o imperialismo de crise e com o fascismo em luta pelo anómico como um aberto culto da morte54 – na fase de declínio do capital, momentos da sua dinâmica de expansão reaparecem brevemente, sobrepõem-se, interagem – inteiramente no sentido de uma negação dialéctica da negação, de modo que fenómenos aparentemente familiares numa fase mais elevada do desenvolvimento contraditório capitalista seguem uma lógica de desenvolvimento invertida, impulsionada pela contracção do processo de valorização. São memórias do ensanguentado capitalismo inicial da fase ascendente do capital que o sistema mundial, que está a entrar em agonia, desencadeia uma vez mais sobre a humanidade. Mesmo o mercenário, que está actualmente a celebrar um regresso nas guerras neo-imperialistas de distribuição e de colapso, é um produto do capitalismo inicial, quando os primeiros „pagos a soldo“ emergiram em massa na guerra dos 30 anos como forma embrionária do assalariado e aterrorizaram a população.


Sem uma ultrapassagem emancipatória do capital na sua fuga fetichista para a destruição do mundo,55 a crise tem o seu ponto de fuga final no pânico, no corte de todos os laços sensíveis entre os membros da sociedade desencadeado pela escalada da concorrência da crise, como já aparece regularmente no amoque individual56. A par da guerra nuclear global, que se está a tornar uma ameaça cada vez maior no imperialismo de crise à medida que a intensidade da crise aumenta, é a crise climática que provavelmente irá actuar como o maior produtor de pânico: Especificamente, a cada vez mais óbvia inabitabilidade de grandes partes do Sul global,57 que coloca limites objectivos a todas, mesmo às mais brutais e abertamente terroristas formas de administração da crise. Isto marcaria a transição para o colapso puro e simples da civilização.


Desta pulsão sistémica para a autodestruição, que entretanto salta à vista, cresce a necessidade para a sobrevivência da ultrapassagem emancipatória do capital, que constitui, por assim dizer, o último constrangimento objectivo com que o regime capitalista de constrangimento objectivo tem de ser passado à história. A luta pela transformação do sistema terá assim de ser o elemento central da práxis de esquerda, em vez de se perder na claque arregimentada pela Nato ou por Putin, como faz actualmente grande parte da esquerda alemã perante a guerra da Ucrânia.58

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  52. https://www.heise.de/tp/features/Der-alte-Todesdrang-der-Neuen-Rechten-4509009.html
  53. https://www.heise.de/tp/features/Die-subjektlose-Herrschaft-des-Kapitals-4406088.html
  54. https://www.heise.de/tp/features/Fluchtpunkt-Amok-3263142.html
  55. https://www.spiegel.de/wissenschaft/mensch/extremwetter-und-klimaforschung-klimakrise-macht-hitzewellen-in-indien-100-mal-wahrscheinlicher-a-aa4a67a0-96f2-4be0-911f-a83f33abcaec
  56. Mehr dazu: https://www.konicz.info/?p=4868. Em português: http://www.konicz.info/?p=4879

Original “Eine neue Krisenqualität. Wieso es nach dem Ende des Krieges um die Ukraine keine stabile Nachkriegsordnung geben wird” in www.konicz.info 24.05.2022. Publicado em www.exit-online.org, 02.06.2022. Tradução de Boaventura Antunes

http://www.obeco-online.org/
http://www.exit-online.org/

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