Emancipação na crise

01.11.2022, Tomasz Konicz

No desenvolver da crise sistémica, o novo mergulho na barbárie parece pré-estabelecido. Mas não tem de ser necessariamente assim

„O comunismo não é para nós um estado de coisas que deva ser estabelecido, um ideal pelo qual a realidade terá de se regular. Chamamos comunismo ao movimento real que supera o actual estado de coisas. As condições deste movimento resultam dos pressupostos actualmente existentes.”

Karl Marx, Friedrich Engels, A Ideologia Alemã1

Há uma premissa fundamental da prática emancipatória no desenrolar da crise mundial do capital que simplesmente não pode ser abandonada. É necessário dizer às pessoas o que está em causa. O que a maioria das pessoas suspeita ou sente vagamente tem de ser claramente afirmado e tornar-se a base dos movimentos e lutas sociais: O capitalismo está no fim2 – e na sua agonia ameaça arrastar a humanidade para o abismo com ele, privando-a dos fundamentos sociais e ecológicos da vida. O sistema mundial capitalista está a atingir os seus limites internos3 e externos de desenvolvimento.4 As crises económica e climática5 são apenas dois momentos do mesmo processo de crise, em que a compulsão do capital ao crescimento sem limites – o esforço para ganhar mais dinheiro com a exploração da mão-de-obra na produção de mercadorias – produz um mundo ecologicamente devastado e uma humanidade economicamente supérflua.

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É portanto necessário procurar conscientemente formas de sair do capitalismo de crise e catástrofe na luta e no discurso sociais, pois o mundo ameaça afundar-se na barbárie. A ultrapassagem da relação de capital é assim o princípio orientador de todos os esforços práticos de esquerda. As lutas sociais, protestos e movimentos têm de ser entendidos e liderados como momentos parciais de uma luta de transformação para uma sociedade pós-capitalista. Esta ultrapassagem da compulsão do capital à valorização em amoque por todo o mundo é o mínimo absoluto, a condição sine qua non de qualquer desenvolvimento da civilização no século XXI. Dizer o que está em causa significa assim claramente nomear a ultrapassagem do capital em colapso como uma necessidade civilizacional para a sobrevivência. Toda a prática progressista tem de ser orientada para esta realidade de transformação do sistema. E é precisamente esta insistência na necessidade de transformação emancipatória do sistema6 que também representa a clara linha de demarcação do oportunismo de esquerda, do esforço de fazer carreira rápida como administrador da crise através da demagogia.7

A passagem do capital à história representa o último constrangimento material capitalista. Qualquer grupo ou partido que se autodenomina de esquerda que pregue uma mudança gradual sem abordar a crise sistémica nem enfatizar a necessidade da transformação sistémica é de facto oportunista, se não reaccionário.8 Na escalada da crise sistémica, já não há qualquer possibilidade de fazer políticas de reforma “bem sucedidas”, uma vez que as distorções de crise em crescente intensidade simplesmente impedem este empreendimento. A prática progressista só pode desenvolver-se com base nos esforços para alcançar um curso progressista da inevitável transformação sistémica. Isto não é “radicalismo” de esquerda, mas um realismo ganho com a percepção do carácter da crise. A crise atravessa a sociedade como um processo fetichista e incontrolável,9 que se desenvolve mediado pela concorrência e pelo mercado, sem prestar atenção aos pontos de vista e cálculos dos tripulantes do moinho de degraus capitalista.

Mesmo que os assalariados não o quisessem admitir, mesmo que todos os estratos relevantes da população se apegassem ao capitalismo, o sistema quebrar-se-ia devido às suas contradições internas. O que está em aberto, porém, é o que vem depois – e é precisamente por isso que a luta, a luta de transformação, deve ser travada. Esta agonia do capital é evidente nas montanhas da dívida global, sob as quais muitas economias ameaçam entrar em colapso, bem como no constante aumento das emissões de CO2, produzidas por uma economia mundial capitalista apanhada na compulsão irracional ao crescimento.10 Contudo um movimento emancipatório só pode evitar um mergulho na barbárie no processo de transformação pendente em aberto se reflectir sobre ele socialmente, se o compreender e o moldar conscientemente no quadro da luta de transformação igualmente inevitável. Para o conseguir, a esquerda, com base na teoria radical da crise, tem de dizer às pessoas o que está em causa. Caso contrário, o impulso fetichista do capital tornará o mundo inabitável. Estas teses introdutórias serão elaboradas e justificadas de seguida.

Natureza não dominada

O contraditório modo de produção capitalista não é apenas a força motriz11 da crescente dívida e das crises económicas,12 é também a causa do desenvolvimento da catástrofe climática. E, na realidade, é evidente que as alterações climáticas “feitas pelo ser humano” são essencialmente causadas pelo sistema social – pela forma como a sociedade está organizada e se reproduz – no qual as pessoas são forçadas a viver. Este facto é óbvio. A crise climática é uma crise climática capitalista, é uma “mudança climática feita pelo capital”. Que mesmo assim pareça algo monstruoso falar esta verdade simples e desconfortável deve-se à tremenda pressão ideológica que pesa sobre o discurso social – e que é expressão da crescente densidade, bem como da propensão para a crise da socialização capitalista, que se esforça por abafar todo o pensamento e acção oposicionista através do oportunismo13 ou da repressão.14

Desde o iluminismo, o núcleo da ideologia capitalista tem sido ideologizar o capitalismo como um modo de produção “natural”, sem contradições e apropriado à natureza humana, como uma formação social que é simplesmente expressão da natureza humana e – o mais tardar desde a ascensão do darwinismo social – que se desenvolve economicamente de acordo com as mesmas leis que os sistemas ecológicos “naturais”. Consequentemente, esta “natureza capitalista” sintética da dominação sem sujeito do capital,15 com os seus níveis mediadores de mercado, política, justiça, indústria cultural etc., é sempre apenas a base, nunca o objecto do discurso publicado das sociedades capitalistas tardias. E é precisamente por isso que a procura de bodes expiatórios, que rapidamente se desvia para o fascismo, ganha tanta popularidade em tempos de crise,16 uma vez que a economia de mercado “natural” é literalmente imaginada como natural, potencialmente sem contradição. Assim, para a pessoa “esclarecida” na sociedade burguesa, o capitalismo parece tão “natural” como o feudalismo parecia dado por Deus ao homem medieval.

E no entanto a ideologia usual da “essência natural do capitalismo” contém um grão distorcido de verdade. Existe um paralelo entre os processos de crise ecológica e económica que promove a sua percepção como “natural”: O pedaço de “natureza indomada” no meio da sociedade, que promove a ilusão de um estado de natureza capitalista, consiste no incontrolável processo de valorização do capital, ou seja, no fetichismo social acima mencionado. A destrutiva dinâmica da valorização do capital, inconscientemente produzida pelos sujeitos do mercado – “nas suas costas”, dado que mediada pelo mercado – aparece como um fenómeno natural que atravessa a sociedade. Este fetichismo emerge abertamente, especialmente em episódios de crise, quando a “economia” de repente entra em amoque e “tempestades de crise” ou “terramotos do mercado” provocam estragos sócio-económicos em regiões inteiras – como eventos climáticos extremos. A sensação de estar à mercê de forças quase naturais, anónimas e dominantes torna-se então evidente.

Este impulso irracional do capital, produzido inconscientemente pelos sujeitos do mercado na sua busca aparentemente racional do maior lucro possível, representa assim o momento da pseudo-natureza não dominada que, devido às suas crescentes contradições internas, está a destruir a civilização e os seus fundamentos ecológicos. Enquanto o capital, na sua mudança sem limites de forma de dinheiro, mercadoria e mais dinheiro, processar cegamente através da sociedade com fricções cada vez maiores, nem a crise climática nem a crise social poderão ser ultrapassadas.

Trata-se assim de ultrapassar este fetichismo, esta pseudo-natureza capitalista, a fim de preservar os fundamentos naturais da sociedade humana. Em última análise, num certo sentido, o processo de civilização humana tem de ser concluído, a reprodução inconsciente da sociedade através de processos de valorização cegamente executados tem de ser substituída, num tremendo processo de transformação, pela organização e discussão conscientes da reprodução social, que já não se subordina à acumulação ilimitada e irracional na forma de capital de quanta cada vez maiores de trabalho abstracto despendido, mas tem como objectivo racional a satisfação directa das necessidades para além da forma de mercadoria.

O que é o capital? O que tem de ser ultrapassado?

A partir destas observações sobre o fetichismo social que parece “natural”, torna-se também claro o que deve ser compreendido pelo conceito de capital, que tem de ser passado à história. Assim, o capital não é uma coisa, não é apenas dinheiro, nem a fábrica ou a maquinaria. Nem é simplesmente uma pessoa, como o capitalista, o gerente ou o especulador. Esta visão truncada conduz à reificação ou personificação do capital, que por sua vez é a base de toda a ideologia no capitalismo.

O capital deve ser entendido como uma relação social, como uma relação de capital que passa pela sociedade como uma mera fase transitória da sua multiplicação sem limites na produção de mercadorias. Só dentro deste movimento de valorização – a queima de recursos por meio de trabalho com vista à maximização do lucro – as pessoas ou as coisas têm de se tornar capital. O trabalhador e o gerente já não funcionam como capital após o trabalho. O mesmo se aplica às ferramentas nos seus espaços de hobby, que são simplesmente objectos de uso, enquanto que na fábrica funcionam como capital (constante). A relação de capital deve assim ser entendida como esta dinâmica de valorização calibrada para o crescimento permanente e que abrange toda a sociedade. O capital, em todas as suas contradições sociais e ecológicas, é assim uma abstracção real que sofre uma mudança de forma de dinheiro para mercadoria e finalmente para mais dinheiro em cada ciclo de valorização: coisas concretas e pessoas são por ele postas em movimento da forma mais eficiente possível, a fim de acumular cada vez mais quanta de trabalho abstracto (a fonte e substância do capital) num fim-em-si irracional.

Esta compulsão de crescimento realmente abstracta do capital é assim de certo modo totalitária; a relação de capital torna-se uma totalidade social. Na fuga das suas contradições internas e externas, ocupa todos os domínios e nichos sociais – com excepção da esfera dissociada e conotada como feminina da reprodução doméstica e familiar17 – e leva-os para a valorização. O aparelho de Estado, as instituições jurídicas e políticas, os níveis político, económico, jurídico e ideológico de mediação da dominação – foram produzidos e moldados pela relação de capital num processo histórico que corre às cegas. Precisamente na sua agonia, o capital subjugou assim, na medida do possível, toda a sociedade, até aos movimentos subculturais. A dominação sem sujeito do capital é total no momento histórico em que sufoca nas suas contradições. E são precisamente todas estas instituições e níveis de mediação produzidos ou moldados pelo capital que estão agora a entrar em colapso juntamente com a dinâmica do capital.

O que precisa de ser ultrapassado é, portanto, este movimento cego de valorização do capital, que devasta a sociedade humana bem como os ecossistemas. Este fetichismo destrutivo tem de ser substituído pela compreensão consciente dos membros da sociedade sobre o processo de reprodução da sociedade, sem a divisão das actividades por género ou similar. Isto é necessário para a sobrevivência, precisamente porque este processo de valorização, de cuja alimentação endovenosa todas as sociedades capitalistas dependem na forma de impostos e salários, está a perecer devido às suas contradições. Mas com o capital também estão a perecer as instituições e estruturas sociais que ele historicamente produziu. A reprodução pós-capitalista da sociedade não pode, portanto, ter lugar sob a forma de “nacionalização”, como é imaginada pelos esquerdistas ortodoxos, porque o Estado na sua qualidade de “capitalista global ideal” é uma instituição do capitalismo nele historicamente crescida e necessária, que tem de ser financiada pelo capital através dos impostos – é por isso que muitos Estados sobre-endividados da periferia caíram em “Estados falhados” nos anos 90, assim que o processo de crise ultrapassou um certo grau de maturidade. O Estado não é a solução, mas sim parte do problema.

Num processo histórico que começou com as crises da dívida do “Terceiro Mundo” nos anos 80, a crise progride por fases desde a periferia do sistema mundial até aos centros. Por conseguinte, o futuro da crise pode ser adivinhado a partir do curso da crise na periferia. Sem uma ultrapassagem consciente e emancipatória da relação de capital em colapso, esta cairá em formas igualmente bárbaras de anomia ou ditadura de crise, como na Somália, Congo ou Eritreia18 – a menos que ao processo civilizacional seja posto termo com uma guerra nuclear catastrófica. Mad Max ou 1984 – esta é a alternativa imanente ao sistema que o capitalismo deixa em aberto na sua agonia.

Motivation: There is no Alternative to Transformation

Do carácter da crise aqui descrito como um processo fetichista de crescente desenvolvimento da contradição interna da relação de capital resulta assim a necessidade da luta pela sua ultrapassagem emancipatória. É – como já foi mencionado no início – simplesmente uma questão de vontade de sobreviver. Trata-se portanto de apelar ao instinto de sobrevivência das pessoas, que é inconscientemente activado na crise e contribui para a intensificação da concorrência da crise. E este instinto de sobrevivência, na sua forma pouco reflectida e quase como acto reflexo, tem sido eficaz há muito tempo numa escala de massas. Inconscientemente, a maioria dos ocupantes do capitalismo tardio há muito que reagiu às crescentes distorções relacionadas com a crise através de uma intensificação quase instintiva da concorrência. O instinto de sobrevivência já se concretiza inconscientemente através de uma concorrência mais dura, na qual a própria sobrevivência deve ser garantida através da queda dos concorrentes a todos os níveis (desde o mobbing até à competição acirrada, à concorrência de localização, ao imperialismo de crise). E é precisamente esta concorrência de crise, alimentada pelo nu instinto de sobrevivência, que contribui causalmente para a barbarização do capitalismo e para a ascensão da nova direita – a qual encobre esta concorrência de crise no racismo, nacionalismo, anti-semitismo, fanatismo religioso etc.

Este instinto de sobrevivência inconscientemente praticado, apanhado pela escalada da concorrência quotidiana do capitalismo tardio, teria de ser “sublimado” no quadro da práxis emancipatória. Isto deve ser entendido como a reflexão consciente e analítica das causas inconscientes da acção social, neste caso a interacção entre o comportamento concorrencial e o processo de crise sistémica, em que o efeito “barbarizador” fatal da concorrência individual seria esclarecido. Tal como o instinto de sobrevivência individual e “cego” apenas acelera a dinâmica da crise e abre as portas à barbárie, um instinto de sobrevivência colectivo reflectido, que se tenha assegurado da necessidade de sobrevivência de ultrapassar o capital na sociedade como um todo, poderia constituir um poderoso factor motivador para as forças emancipatórias na luta para transformar o capitalismo tardio. E esta não é uma questão que afecta apenas a esquerda “da esquerda radical”. Uma tal ligação conscientemente estabelecida entre a sobrevivência – colectiva – e a necessidade de ultrapassar o sistema também pode muito bem tornar-se a preocupação do burguês que quer deixar aos seus filhos um futuro digno de ser vivido.

E é precisamente por isso que é importante dizer às pessoas o que está em causa. É importante transformar o “sentido de crise” das grandes massas numa consciência de crise reflectida – precisamente porque não existe um “sujeito revolucionário”, a formação de uma consciência de crise radical eficaz para as massas é indispensável para um curso emancipatório da crise. E, na verdade, a dificuldade central não estaria em espalhar uma consciência emancipatória na crise manifesta, mas sim em transmitir a fé numa alternativa sistémica viável ao capital em colapso. A mudança ideológica induzida pela crise, em que a fé cega no capital como condição natural da civilização humana se transforma subitamente em pessimismo cultural fatalista, é na realidade a reacção ideológica padrão em situações de crise manifesta.

Esta produção de pânico do capitalismo tardio deve, portanto, ser contrastada com a visão adquirida através da reflexão teórica radical sobre a necessidade de transformação do sistema, motivada por um instinto de sobrevivência sublimado que tomou consciência dos seus próprios pressupostos sociais e ecológicos. O “prepper” de direita não se salvará; isto só pode ser conseguido colectivamente ao nível da sociedade como um todo. Evitar a iminente catástrofe ecológica e social através da transformação do sistema equivale assim a “influenciar” o processo de crise, que é impulsionado pela sua dinâmica fetichista, o que apenas representa a crítica inversão dialéctica das contradições inerentes ao capital. Mais precisamente: o capital está em dissolução, é importante conduzir este processo de transformação que corre cegamente numa direcção progressista e emancipatória no âmbito de uma luta de transformação, a fim de finalmente ultrapassar o fetichismo e passar à modelação consciente da reprodução social. Isto, esta ultrapassagem da pré-história fetichista da humanidade, é simplesmente, como explicado, uma questão de sobrevivência. Mais uma vez, não há alternativa à luta por um curso emancipatório da inevitável transformação do sistema.

Emancipação e extremismo na crise sistémica

É também a partir daqui que se desenvolve o conceito de emancipação – é uma emancipação do fetichismo social, ou seja, da “heteronomia” dos sujeitos submetidos às dinâmicas sociais que estes mesmos sujeitos produzem inconscientemente por meio do mercado. Isto só pode ser conseguido por um movimento que esteja consciente da sua própria situação, que esteja consciente do carácter de crise descrito. Só numa luta consciente por um futuro pós-capitalista, resultante de uma visão da necessidade, poderão ainda surgir eventualmente momentos de emancipação. Consequentemente, existe uma máxima de práxis política que os movimentos, grupos ou partidos emancipatórios no século XXI terão de seguir, se ainda quiserem funcionar como forças sociais progressistas na actual época de convulsões e crises. O capitalismo tem de ser passado à história o mais rapidamente possível, a relação de capital tem de ser abolida. Todas as acções da esquerda, todas as tácticas, todas as propostas de reforma, todas as estratégias terão de ser orientadas por este imperativo categórico.

E a luta por um futuro pós-capitalista digno de ser vivido não é “radicalismo”. É precisamente o contrário: a adesão às formas em dissolução da socialização capitalista, ao mercado e ao Estado, conduz à barbárie, ao extremismo do centro. Os êxitos da nova direita na crise resultam precisamente do facto de conseguir conduzir a ideologia que é eficaz no centro neoliberal da sociedade capitalista tardia para uma brutalização ainda maior. Enriquecido com fantasias invejosas contra bodes expiatórios, o pensamento concorrencial neoliberal tem sido levado a um extremo nacionalista-racista pela direita. A concorrência entre sujeitos do mercado e localizações económicas é ideologicamente sobre-elevada num choque de nações, culturas, “raças” ou religiões.

O que é decisivo aqui é que nesta concorrência “racial”, religiosa ou nacionalmente legitimada, não há ruptura com o neoliberalismo e o seu pensamento implicitamente nacionalista de localização económica. Nestas linhas ideológicas de continuidade reside o segredo não tão secreto do sucesso da revolta conformista da nova direita. Não rompe a prisão capitalista do pensamento nem os seus chamados constrangimentos materiais. Em vez disso, as personagens autoritárias permanecem na trilha ideológica bem desgastada que conduz do centro neoliberal ao extremo bárbaro. É por isso que é sobretudo a direita que beneficia com a crise actual. É muito fácil tornar-se nazi.

Portanto, o factor decisivo é precisamente a ruptura mental acima referida da prisão capitalista do pensamento, que tem de ser acompanhada pela práxis emancipatória, a fim de evitar a deriva para o extremismo do centro. Por isso é importante dizer às pessoas o que está em causa. Face à crise letal do capital, a luta por uma alternativa sistémica pela qual valha a pena viver é a única coisa sensata, mediana e moderada a fazer. O progresso só pode ser realizado para além do capital. Mais uma vez: isto não é necessário devido à vontade dos sujeitos ou aos humores e sensibilidades da população, mas porque o capital, enquanto totalidade fetichista global, se está a decompor em si próprio.

Falsa imediatidade

E precisamente por esta razão é importante evitar, na medida do possível, que este processo de transformação objectivamente em curso se transforme numa ilusão ideológica e numa barbárie fascista, através da difusão de uma adequada consciência de crise. Talvez a consciência de uma alternativa viável ao colapso do clima e do capital só possa desenvolver-se amplamente num movimento de luta. Não faltam confrontos, insurreições e lutas na crise sistémica acelerada. Na Europa, para além dos protestos sobre o clima, são muitas vezes as lutas defensivas antifascistas ou laborais e sócio-políticas que servem de pontos focais de mobilização de massas oposicionistas – na sua maioria sem desenvolver uma perspectiva de transformação.

Estes movimentos ficam muitas vezes presos na falsa imediatidade das suas exigências directas; por exemplo, querem uma melhor redistribuição da riqueza capitalista abstracta em vez de a quererem abolir. O empobrecimento crescente leva a exigências de mais Estado social, a inflação é enfrentada com exigências para a sua contenção através de subsídios e preços máximos. Estas exigências imediatamente “plausíveis” são necessariamente ridicularizadas pela realidade da crise. A situação é semelhante quando se discutem medidas para combater a crise climática – tais como o imposto sobre o CO2, o boicote de voos, a renúncia à carne ou os automóveis eléctricos – que, tendo em conta a dramática aceleração das alterações climáticas e as medidas que são realmente necessárias, mostram uma desproporção quase desencorajadora.

O teórico da crise Robert Kurz19 já no início do século XXI abordou esta contradição entre as lutas sociais imanentes ao sistema e as consequências sociais da crise sistémica:

“A crítica do valor não é simplesmente contra as lutas sociais imanentes ao capitalismo. Estas são um ponto de partida necessário. No entanto, a questão é saber em que sentido se desenvolvem tais lutas. Aqui a fundamentação desempenha um papel importante. Os sindicatos habituaram-se a apresentar as suas exigências não como decorrendo das necessidades dos seus membros, mas como contribuição para o melhor funcionamento do sistema. Assim, diz-se que seriam necessários salários mais altos para fortalecer a conjuntura económica, e que eles seriam possíveis porque o capital tem altos lucros. Mas, logo que a valorização do capital obviamente emperra, esta atitude leva a render-se voluntariamente à cogestão da crise, no “superior interesse” da economia da empresa, das leis do mercado, da nação etc. Esta falsa consciência existe não apenas entre os profissionais dos sindicatos, mas também nas chamadas bases. Se as trabalhadoras e trabalhadores assalariados se identificam com a sua própria função no capitalismo e exigem aquilo que precisam apenas em nome dessa função, tornam-se eles próprios “máscaras de carácter” (Marx) de um determinado componente do capital, nomeadamente a força de trabalho. Assim, eles reconhecem que apenas têm direito à vida se conseguirem produzir mais-valia. Daqui decorre uma concorrência acirrada entre as diversas categorias de trabalhadoras e trabalhadores assalariados e uma ideologia de exclusão social darwinista. Isto é particularmente evidente na luta defensiva pela conservação dos postos de trabalho, que não tem qualquer perspectiva para além disso. Aqui muitas vezes concorrem entre si pela sobrevivência até os empregados das diferentes empresas do mesmo grupo. Portanto, é essencialmente simpático, e de resto também mais realista, que os trabalhadores franceses tenham ameaçado fazer explodir as fábricas para forçarem a obtenção de uma indemnização de despedimento razoável. Estas novas formas de luta não são defensivas nem positivas, mas poderão ser combinadas com outras reivindicações, como por exemplo a melhoria do rendimento dos desempregados. Na medida em que de tais lutas sociais surja um movimento social, também este, com a experiência dos seus limites práticos, se confrontará com as questões de uma nova “crítica categorial” ao fim em si fetichista do capital e das suas formas sociais. A concretização desta perspectiva avançada é a tarefa da nossa elaboração teórica, que não existe num Além abstracto, mas se entende como momento do debate social”.

Tendo em conta a dinâmica muito avançada da crise, parece contraproducente iniciar agora uma crítica fundamental que vise construir um “novo” movimento transformador e emancipatório. Os movimentos emancipatórios terão de trabalhar com o que ainda existe, tendo em conta o tempo que urge, tendo em conta as janelas de oportunidade que se fecham. Retirar para a torre de marfim da “doutrina pura” a fim de trabalhar para uma “difusão” gradual de uma consciência de crise adequada dentro da esquerda não é uma estratégia viável. Em vez disso, a única opção é usar a crise para tentar trazer a consciência de crise adequada directamente para as lutas actuais. Como disse, tem de se dizer às pessoas assustadas – com base na teoria da crise – o que está em causa, para que os movimentos de protesto possam desenvolver-se numa direcção emancipatória.

Na realidade, as chances não são más, uma vez que mesmo contextos de esquerda ideologicamente cegos – por exemplo, do espectro próximo dos verdes, de esquerda-liberal20 ou marxista tradicional – dificilmente podem ignorar as consequências da crise. A crise é simultaneamente inimiga e amiga do movimento progressista: constringe cada vez mais os espaços do discurso social, provoca o pânico e o aumento das ilusões de extrema-direita; mas ao mesmo tempo obriga todas as forças sociais que ainda não perderam a cabeça a enfrentar a necessidade inegável de uma ultrapassagem fundamental da socialização do capital em colapso.

A tentativa de trazer às actuais disputas e conflitos sociais uma consciência de crise correspondente ao processo objectivo de crise acaba por se resumir à luta contra a falsa imediatidade que caracteriza estas disputas. A falsa imediatidade é a tendência dos movimentos sociais para persistirem inconscientemente em formas de pensamento que correspondem às condições e contradições sociais contra as quais são efectivamente dirigidos.

As pessoas apanhadas nos crescentes conflitos relacionados com a crise não são precisamente apanhadas por um “automatismo revolucionário” que as dotasse de uma consciência anti-capitalista da crise. Muito pelo contrário. Ao fixar-se em objectivos concretos, aparentemente realizáveis dentro do existente, a lógica sistémica deste é reforçada, mesmo na luta de oposição. A luta pelo encerramento da extracção de lenhite, contra a inflação e contra a erosão social, por um salário mais elevado ou contra cortes salariais, a luta de moinhos de vento da esquerda desamparada e social-democratizada contra o desmantelamento, que avança alegremente, da democracia e do bem-estar social – solidificam as estruturas sociais e as formas de socialização capitalistas correspondentes em que e por cuja vontade a luta tem lugar: O trabalho, a democracia burguesa juntamente com os “direitos civis” capitalistamente castrados,21 o Estado como “Estado social” tornam-se assim pressupostos quase naturais da sociedade humana, mesmo dentro do movimento enredado em lutas sociais.

Os objectivos imediatos que são perseguidos dentro do sistema são assim “errados”, conduzem à formação da referida falsa imediatidade, uma vez que, em primeiro lugar, não rompem com a lógica do sistema em crise, mas pelo contrário, cimentam-na, e uma vez que, em segundo lugar, devem ser conquistados dentro de uma socialização do capital em colapso, de modo que a sua realização é completamente ilusória. Após o inevitável fracasso das grandes lutas sociais em tempos de crise – por exemplo, no Sul da Europa após a eclosão da crise do euro – a demissão e a apatia instalaram-se, pois a estes movimentos faltava uma perspectiva transformativa de maior alcance, que só poderia surgir de uma consciência de crise adequada ao processo de crise. As forças envolvidas no aumento dos protestos sociais relacionados com a crise não querem, na sua maioria, alcançar nada mais do que aquilo que postulam: Luta contra a extracção de lignite, por empregos, por salários mais elevados, contra cortes sociais e destruição de empregos, contra a constante erosão dos “direitos civis” etc.

Parece absurdo: na crise, a esquerda luta para manter as formas capitalistas de socialização que estão em erosão devido à crise. E ao mesmo tempo não há alternativa realista a estas mesmas lutas, uma vez que na sua maioria são formas mais ou menos abertas de simples luta pela existência. No capitalismo, a reprodução da própria força de trabalho só é possível através de trabalho assalariado – próprio ou explorado. O estabelecimento de salários de fome abaixo do nível de subsistência está também a progredir nos centros. A perda do posto de trabalho é cada vez mais acompanhada por uma queda num pauperismo que ameaça a vida. A luta contra o desmantelamento da democracia e o fascismo omnipresente da Europa é necessária para manter os espaços de manobra da política emancipatória abertos o mais tempo possível. Enquanto a relação de capital continuar a existir como a totalidade social descrita, as forças oposicionistas estão também acorrentadas às suas formas de socialização.

Isto não significa, contudo, que estas forças tenham de exigir a luta sócio-ecológica apenas nestas formas, e muito menos percebê-la apenas nestas formas. Assim, é de facto decisivo com que consciência são conduzidos os actuais protestos e lutas, mesmo que o seu curso concreto no início não difira muito das lutas reformista imanentes ao sistema. O confronto com a ideologia de crise, a crítica truncada do capitalismo e a falsa imediatidade visam, em última análise, elevar o processo de transformação a “consciência política” dos movimentos sociais, a fim de primeiro compreender como tal a luta de transformação inconscientemente conduzida e de a moldar conscientemente em conformidade.

O foco, o objectivo de lutas assim conscientemente conduzidas, aparentemente imanentes ao sistema (luta pelo clima, luta salarial, protesto antifascista, manifestações contra o desmantelamento da democracia, lutas defensivas contra cortes sociais) muda assim que são permeadas por uma consciência transformativa; quando são assim compreendidas e propagadas como uma fase inicial da luta de transformação, que já está em fúria na periferia com toda a sua brutalidade assassina maciça. Para ficar com o exemplo dos protestos sociais: Em vez de simplesmente postular que os ricos devem pagar, teria de ficar claro que os ricos têm de pagar pela transformação – desde que o dinheiro ainda tenha valor e faça algum sentido fazer esta exigência. O caminho torna-se o objectivo: a auto-organização das pessoas nos movimentos de oposição correspondentes já teria assim de ser levada a cabo pelo esforço de formar momentos de uma socialização pós-capitalista.

Mas para além das medidas de redistribuição e de expropriação, também se colocará a questão: Como podem os cuidados de saúde, alimentação, habitação etc. ser organizados sem os correspondentes recursos financeiros ou posto de trabalho rentáveis? O mais tardar quando a inflação desvaloriza o dinheiro e tudo ameaça ser fechado ou reduzido devido à falta de rentabilidade, a organização da reprodução social segundo outros critérios que não os capitalistas está na ordem do dia. Não de acordo com o lema “Como podem ser financiadas as pensões?” mas “Como se pode organizar a riqueza material e social para que os idosos possam viver com dignidade?” Não “Como podem ser criados postos de trabalho?” mas “Como é que as pessoas e os recursos terão de ser mobilizados e o que terá de ser feito para que a alimentação, a habitação, a saúde etc., possam ser realizados” (e não a nível de Hartz IV, bairro de lata ou gulag). Ou a esquerda se envolve a este nível, ou tem de participar na implementação de soluções imanentes ao sistema, o que não será mais do que colocar os idosos em gulags de baixo custo ou abatê-los imediatamente de uma forma “socialmente aceitável”.

As exigências e formas de organização em resistência contra a iminente catástrofe climática, contra as imposições da administração da crise, têm portanto de conter já formas germinais de socialização pós-capitalista. O esforço para moldar os movimentos de oposição imanentes ao sistema, em primeiro lugar como espaços discursivos abertos, deveria ser central para isto. O discurso da crise, que já não é possível ao nível da sociedade no seu conjunto (e que é sabotado pelo Partido de Esquerda por cálculo oportunista),22 pelo menos tem de ser conduzido na oposição. Além disso, no entendimento sobre estratégias e formas de protesto, já aparece o desejado processo pós-capitalista de entendimento sobre a reprodução da sociedade como um todo. Os espaços discursivos terão assim de ser mantidos abertos o máximo de tempo possível, mesmo perante uma repressão crescente. O processo aberto de discussão, a organização e coordenação da resistência transformativa, poderão funcionar como forma prévia do auto-entendimento global consciente da sociedade mundial relativamente à sua reprodução.

De resto é por isso que é tão necessária a luta democrática para manter as liberdades democráticas burguesas residuais durante tanto tempo quanto possível, a fim de poder influenciar o processo de transformação em formas de conflito não-militar durante tanto tempo quanto possível. Além disso, a necessidade da transição entre a luta democrática e os confrontos militares militantes é difícil de avaliar; depende do grau de fascização e das tendências para a desintegração do Estado em questão e da sua sociedade. Contudo, uma tal luta armada, que pode ser imposta às forças emancipatórias no decurso da crise, representa também uma derrota. A estrutura aberta do discurso, o início da autogestão, que poderia formar as formas germinais das futuras sociedades, ameaça ceder lugar às necessidades da organização militar. Depois as prescrições da prática leninista tornam-se, de facto, inevitáveis – e há então a ameaça de uma “sovietização” autoritária das alternativas pós-capitalistas.

“O movimento real que supera o actual estado de coisas.”

Em última análise, é necessário compreender as várias lutas e movimentos sociais como momentos parciais da única luta transformativa que se desenrola globalmente. O mundo está assim há muito tempo numa transformação do sistema, só que não é percebida como tal pela esquerda cega à crise. Como já foi explicado várias vezes: este processo de transformação, que está a decorrer cegamente, está em princípio aberto, não está predeterminado, e é por isso que o resultado desta transformação do sistema (caso seja concluído sem um holocausto nuclear) está também absolutamente em aberto. Mais ainda, uma vez que o sistema está em convulsão, uma vez que o tecido social outrora cimentado está em movimento, uma vez que as estruturas sociais anteriormente sólidas estão de certa forma a tornar-se fluidas, as acções colectivas têm uma influência muito maior na formação do futuro do que em períodos de tempo em que o capitalismo parecia estável. Contudo, estas maiores possibilidades de intervenção, que são oferecidas às forças emancipatórias na actual crise sistémica, têm janelas de tempo estreitas que podem depois também fechar-se irreversivelmente.

Isto é óbvio no caso das alterações climáticas com os seus pontos de viragem, mas o desenrolar da crise social também não é linear – não é um desenvolvimento gradual. Dentro do processo de transformação há momentos ou situações decisivas de ruptura em que o curso da crise é determinado. Assim que um tal ponto culminante do desenvolvimento interno das contradições tenha sido ultrapassado sem implicar consequências catastróficas (guerra nuclear, colapso ecológico de regiões inteiras etc.), o processo de crise prossegue na linha determinada neste momento decisivo – a revisão de uma tal decisão através de intervenções parece depois dificilmente exequível.

“Eles não sabem, mas fazem-no”. Esta famosa citação de Karl Marx, que resume o processo fetichista de reprodução social global sob o capitalismo, também caracteriza adequadamente o processo de dissolução do sistema mundial capitalista agora em pleno andamento. O sistema mundial já se encontra numa fase de convulsões caóticas, em que a direcção e o resultado deste processo não podem ser previstos – simplesmente porque está a ser moldado (inconscientemente, por agora) pelas acções dos sujeitos na luta de transformação em curso. Uma vez que não existe um “sujeito revolucionário”, o factor decisivo é precisamente se o carácter da crise se reflecte na população em amplitude suficiente para atravessar também aqui os pontos de viragem correspondentes.

A emancipação e a barbárie aparecem assim simultaneamente na plena luta global de transformação: Por um lado, a brutal concorrência de crise capitalista tardia funde-se numa luta de transformação pós-capitalista, sobrepõe-se parcialmente a ela, ambos os momentos de crise por vezes interagem, em que a ideologia de crise capitalista tardia, sujeita a constantes metamorfoses, tenta racionalizar este processo de dissolução. Ao mesmo tempo, insurreições e protestos em massa contra a falta de perspectiva do capitalismo tardio estão a irromper cada vez mais frequentemente, por vezes de forma completamente inesperada, um movimento ambiental e climático global está a formar-se, insurreições espontâneas estão a irromper em países como o Irão etc. Quando os pontos de ruptura social são transpostos, as revoltas podem irromper como vindas do nada. À medida que a intensidade da crise aumenta, estas contradições e conflitos intensificar-se-ão, as incontáveis lutas transformar-se-ão num confronto global que poderá muito bem desembocar numa guerra nuclear.

Isto aplica-se ao imperialismo de crise dos monstros estatais capitalistas tardios em erosão,23 bem como aos múltiplos conflitos nas sociedades em crise que estão a ganhar intensidade. No entanto, é importante evitar uma “hierarquização” das lutas em contradições principais da luta de classes e outras contradições secundárias. Os conflitos de luta de classes em lutas salariais ou protestos sociais só em pé de igualdade com outras lutas sociais (antifascismo, luta climática, anti-militarismo, feminismo, defesa da democracia, autodeterminação sexual etc.) podem servir um movimento transformador, para ultrapassar a sua falsa imediatidade no decurso dos conflitos da maneira acima indicada – a fim de transformar as lutas sociais, protestos ou lutas de redistribuição em momentos de luta transformadora, trazendo uma consciência de crise radical.

Assim que os diferentes movimentos forem entendidos como momentos parciais de uma luta por uma transformação emancipatória do sistema, a emergente e destrutiva “concorrência de movimentos” – por exemplo, entre o movimento climático e o movimento social – que está a ser promovida pelas partes reaccionárias do Partido de Esquerda, em particular, também poderia ser minimizada.24 A propósito, com a sua “campanha social”, o Partido da Esquerda procura precisamente o oposto de um movimento de transformação emancipatória: com demagogia social, pretende-se desviar os movimentos sociais para, com uma gestão repressiva do movimento e da crise, evitar a emergência de uma consciência de crise radical no movimento.25 Esta demagogia social oportunista e aberta à direita, que chafurda numa caricaturalmente óbvia e falsa imediatidade apesar da escalada da crise sistémica, tem de ser contrariada em toda a práxis pela necessidade de sobrevivência colectiva de uma transformação emancipatória do sistema.

As coisas não continuarão a ser como são. Esta percepção do Elogio da Dialéctica de Brecht26 poderia elevar-se para se tornar a máxima de acção de um movimento de transformação emancipatória, que primeiro terá de aprender a influenciar o processo de transformação. Levanta-se sempre a questão de quais as estruturas políticas, quais as configurações sociais de poder que devem prevalecer durante a próxima vaga de crises. O processo de crise que se desenrola nas costas dos sujeitos pode de facto deparar-se com sociedades capitalistas tardias estruturadas de forma muito diferente. Podem ser oligárquicas, pré-fascistas ou burguesas-democráticas, mais igualitárias ou corporativas, nacionalistas ou cosmopolitas, seculares ou religiosas-fascistas.

Assim, trata-se em última análise de pensar em processos, em desenvolvimentos, de perceber as estruturas sociais existentes como estando em estado de decadência, de localizar as contradições decisivas e, antecipando os enormes choques futuros, criar as melhores condições sociais, a posição de partida ideal para a transformação emancipatória, o que só pode acontecer em cooperação com forças sociais significativas. A dificuldade de uma tal política de aliança consiste agora em localizar forças correspondentes que dirijam o processo de transformação numa direcção emancipatória, bem como em trazer a consciência de crise radical acima descrita para estes movimentos.

Na verdade, é apenas o movimento fetichista e cego do sujeito automático da valorização sem limites do capital que, quando passa o seu limite interno, se transforma na ameaça de autodestruição ecológica e de lutas sociais crescentes – em perspectiva, uma guerra civil nuclear e mundial. A socialização pelo valor do capitalismo tardio desintegra-se, mas o fetichismo social – a rendição impotente dos sujeitos à dinâmica social que eles próprios inconscientemente produzem – continua em voga. Os actores, especialmente os da esquerda alemã, estão a cambalear sem um conceito para a iminente guerra civil mundial como ponto de fuga dos conflitos transformativos incipientes.

Existe, portanto, o “movimento real que supera o actual estado de coisas”, que o jovem Marx constatou juntamente com Engels na sua obra inicial “A Ideologia Alemã “27 e imaginou como um movimento progressista, mas não é um automatismo de civilização que levará a humanidade ao comunismo. Marx, através de cuja obra na sua totalidade decorre toda a divisão entre a crença ultrapassada no progresso e a importante crítica categorial, expressou aqui o fetichismo do capital, sucumbindo ao mesmo tempo à crença no progresso eterno, ao espírito do mundo hegeliano. O verdadeiro movimento que abala os fundamentos do capitalismo tardio é o do processo de valorização do capital a decorrer cegamente sobre a sociedade, que está a morrer em si mesmo. É o fetichismo de que Marx já suspeitava nessa altura.

Consequentemente, apesar de todas as evidências, é necessário lutar para formar este movimento de transformação inelutável, que certamente abolirá o estado actual e que ainda está aberto no seu curso e resultado, num movimento de acção consciente, em luta de transformação. A transformação do sistema é inevitável, é importante orientá-la numa direcção progressista e emancipatória – na luta contra as forças da barbárie que o capital está a exsudar novamente na sua crise.

Se existe um campo de luta que deve ter prioridade na actual fase de crise, é um antifascismo que luta pela construção de alianças o mais amplas possível, uma vez que o fascismo como forma de crise abertamente terrorista da dominação capitalista já está claramente a emergir. A frente transversal, que há muito se espalha pela esquerda alemã,28 a nova direita, que está profundamente entrelaçada com o aparelho estatal alemão,29 e o pré-fascismo, que está em ascensão,30 já estão bater com os cascos impacientes para responder à crise do capital com um novo mergulho na barbárie.

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Notas

1 http://www.mlwerke.de/me/me03/me03_009.htm

2 https://konkret-magazin.shop/texte/konkret-texte-shop/66/tomasz-konicz-kapitalkollaps

3 https://www.xn--untergrund-blttle-2qb.ch/wirtschaft/theorie/stagflation-inflationsrate-6794.html

4 https://www.akweb.de/ausgaben/642/kapitalismus-und-klimakatastrophe-zu-effizient-fuer-diese-welt/

5 https://www.mandelbaum.at/buecher/tomasz-konicz/klimakiller-kapital/

6 https://www.akweb.de/bewegung/die-klimabewegung-braucht-antikapitalistische-leitplanken-fuer-ihre-kommenden-aktionen/

7 https://www.konicz.info/2022/10/06/opportunismus-in-der-krise/. Em português: https://www.facebook.com/profile/100000527627650/search/?q=oportunismo%20na%20crise

8 https://www.konicz.info/2022/10/06/opportunismus-in-der-krise/. Em português: https://www.facebook.com/profile/100000527627650/search/?q=oportunismo%20na%20crise

9 https://www.konicz.info/2022/10/02/die-subjektlose-herrschaft-des-kapitals-2/

10 https://www.konicz.info/2022/06/25/schuldenberge-im-klimawandel/

11 https://www.konicz.info/2022/07/22/schuldenberge-in-bewegung/. Em português: https://www.facebook.com/profile/100000527627650/search/?q=montanhas%20de%20d%C3%ADvidas

12 https://www.konicz.info/2022/09/03/the-walking-debt/. Em português: https://www.facebook.com/profile/100000527627650/search/?q=The%20walking%20debt

13 link: Opportunismus in der Krise. Em português: https://www.facebook.com/profile/100000527627650/search/?q=OPORTUNISMO%20NA%20CRISE

14 https://www.konicz.info/2021/09/20/telepolis-eine-rotbraune-inside-story/

15 https://www.konicz.info/2019/04/27/die-subjektlose-herrschaft-des-kapitals/

16 https://www.konicz.info/2019/08/30/der-alte-todesdrang-der-neuen-rechten/

17 Ver: Roswitha Scholz, Der Wert ist der Mann, https://exit-online.org/textanz1.php?tabelle=autoren&index=38&posnr=25&backtext1=text1.php. Em português: http://www.obeco-online.org/rst1.htm

18 https://www.rnd.de/politik/eritrea-das-nordkorea-afrikas-diktator-mischt-in-tigray-konflikt-mit-UFEFDYU3TZHRJNBTV776QRFO3I.html

19 https://exit-online.org/textanz1.php?tabelle=autoren&index=37&posnr=449&backtext1=text1.php. Em português: http://www.obeco-online.org/rkurz363.htm

20 https://www.deutschlandfunk.de/ulrike-herrmann-sieht-kapitalismus-am-ende-100.html

21 Através do que, no essencial, o ser humano deve ser reconhecido como um sujeito capaz de utilizar o capital, pelo que o reconhecimento cessa se a capacidade de valorização faltar – claramente visível no caso dos refugiados. Siehe: https://exit-online.org/textanz1.php?tabelle=autoren&index=20&posnr=554&backtext1=text1.php

22 https://www.konicz.info/2022/10/06/opportunismus-in-der-krise/. Em português: https://www.facebook.com/profile/100000527627650/search/?q=OPORTUNISMO%20NA%20CRISE

23 https://www.konicz.info/2022/06/23/was-ist-krisenimperialismus/

24 https://www.facebook.com/photo/?fbid=5047254132045984&set=a.1916895028415259

25 https://www.konicz.info/2022/10/06/opportunismus-in-der-krise/. Em português: https://www.facebook.com/profile/100000527627650/search/?q=OPORTUNISMO%20NA%20CRISE

26 https://www.deutschelyrik.de/lob-der-dialektik-1934.html

27„O comunismo não é para nós um estado de coisas que deva ser estabelecido, um ideal pelo qual a realidade terá de se regular. Chamamos comunismo ao movimento real que supera o actual estado de coisas. As condições deste movimento resultam dos pressupostos actualmente existentes.“ Fonte: http://www.mlwerke.de/me/me03/me03_009.htm

28 https://www.konicz.info/category/querfront/

29 https://www.konicz.info/2019/04/01/braun-von-ksk-bis-usk/

30 https://www.tagesschau.de/inland/niedersachsen-afd-101.html

Original “Emanzipation in der Krise”. Publicado em konicz.info, 12.10.2022. Publicado em untergrund-blättle.ch, 24.10.2022. Tradução de Boaventura Antunes

http://www.obeco-online.org/

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