O grande massacre global das obrigações

Os alicerces da esfera financeira do capitalismo tardio estão a desmoronar-se com os mercados de obrigações dos países centrais

Tomasz Konicz 17.10.2026

Monótonos, enfadonhos, mortalmente aborrecidos – assim foram durante décadas os mercados obrigacionistas dos centros do sistema mundial. Quando era necessário aplicar capital de forma segura, quando os fundos de pensões tinham de garantir um rendimento certo, ainda que baixo, quando as seguradoras queriam aplicar os seus fundos, o dinheiro fluía para as obrigações do Tesouro dos EUA, para os títulos do Tesouro japonês ou para as obrigações alemãs, que eram consideradas a base estável do sistema financeiro mundial, o betão, a espinha dorsal da financeirização neoliberal do capitalismo nas últimas décadas. Todas as ondas de crise na periferia ou semiperiferia consolidaram ainda mais essa base, uma vez que os mercados obrigacionistas dos centros assumiam então a sua função de «porto seguro» e apresentavam taxas de juro particularmente baixas (como, por exemplo, a RFA durante a crise do euro). Por isso era normalmente mais emocionante ver a relva crescer do que observar esses mercados obrigacionistas.

Como é sabido, já não é assim. O maravilhoso mundo dos mercados obrigacionistas é actualmente muito mais emocionante do que gostaria a maioria dos responsáveis do Estado e do sector financeiro. Para entender por que razão o alicerce do sistema financeiro mundial – os mercados obrigacionistas nos seus centros – está agora a desmoronar-se tão rapidamente, é necessário esclarecer primeiro por que razão isso não aconteceu durante décadas. O que é realmente interessante nos mercados obrigacionistas dos países centrais, que eram considerados um refúgio de estabilidade e de monotonia em termos de política financeira, é o facto de, durante décadas, a carga dos juros dos Estados centrais ter vindo a diminuir. Nas décadas neoliberais da globalização, em que a dívida pública aumentou fortemente, as taxas de juro das obrigações baixaram – o que aliás contradiz a sabedoria convencional dos manuais sobre o comportamento do mercado. Um endividamento mais elevado acarreta um maior risco de incumprimento, o que teria de conduzir a taxas de juro mais elevadas.

No entanto, foi precisamente isso que não aconteceu.1 As taxas de juro de referência baixaram,2 a inflação manteve-se baixa3 – e consequentemente as taxas de juro das obrigações continuaram a diminuir. As taxas de juro das obrigações e os seus preços encontram-se numa relação inversa – a descida das taxas de juro é consequência do aumento dos preços das obrigações, ou seja, de uma procura crescente de obrigações na era desta economia de bolhas financeiras globais. Isto é claramente verificável empiricamente.

Em 1990, os EUA apresentavam um endividamento de 51 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), que subiu para 91 por cento no final de 2010, na sequência do rebentamento da bolha imobiliária de 2008. No quarto trimestre de 2019, na véspera da pandemia, Washington estava já endividada em 105 por cento do produto económico. Ao mesmo tempo, a taxa de juro das obrigações do Tesouro dos EUA a dez anos desceu de 8 por cento em 1990, passando por cerca de 3,5 por cento em 2010, para apenas 1,8 por cento no final de 2019.4 Esta situação é ainda mais acentuada no caso do Japão, que permaneceu em estagnação durante décadas,5 cuja dívida pública, devido a inúmeros programas de estímulo económico, subiu de 50% do PIB em 1990, passando por 160% em 2010, até atingir uns impressionantes 215% no ano da pandemia, 2020. A obrigação japonesa a dez anos6 era negociada em 1990 com uma taxa de juro de pouco menos de 7 por cento, que em 2010 era de apenas 1,3 por cento, para em 2020, no país da deflação, passar mesmo a valores negativos (-0,15 por cento).

A neoliberal taxa de juro zero

Tóquio acumulou uma gigantesca montanha de dívida – e ao mesmo tempo o Japão recebeu repetidamente dinheiro para contrair mais dívida. A solução para este enigma, que a curto prazo também se manifestou no mercado de obrigações alemão,7 reside na financeirização do capitalismo, que se impôs em resposta ao período de estagflação da década de 70, a par do neoliberalismo (Thatcher, Reagan).8 As décadas neoliberais (1980-2020) caracterizaram-se pelo vertiginoso crescimento no contexto da globalização da esfera financeira, que se tornou o motor económico de um sistema mundial que funcionava cada vez mais a crédito, por meio da formação de bolhas cada vez mais especulativas.

No neoliberalismo, não só a dívida pública, como toda a montanha de dívida global cresceu mais rapidamente do que o produto económico, o que equivale a um aumento correspondente da procura.9 Esta economia de défice global concretizou-se através de bolhas especulativas regionais e mais tarde globais, que aumentaram em dimensão e duração – ao mesmo tempo que desestabilizavam cada vez mais o sistema: desde a especulação «dot-com» com acções da Internet (2000), passando pela bolha imobiliária (2008/09), até à grande bolha de liquidez (2009-2020). Isto simplesmente reflecte, de forma empiricamente verificável, o limite interno do capital, que, mediado pela concorrência, se despoja da sua substância – o trabalho gerador de valor – e só conseguiu prolongar a sua existência fictícia, semelhante à de um «zombie», através da geração de procura financiada pelo crédito no âmbito desta economia de défice global.

Ao boom na fase ascendente de uma bolha seguiu-se o colapso, que teve de ser compensado por medidas estatais de crise (resgates, pacotes de estímulo, compras de obrigações etc.) e transformado numa nova formação de bolha (o aumento da dívida pública nos centros deve-se, em grande parte, precisamente a estas dispendiosas medidas de crise). À medida que a dimensão da formação da bolha aumentava, também aumentavam as suas potenciais distorções, o que levou a uma escalada total das reacções estatais à crise após o seu rebentamento. Decisivas para a actual constelação de crise foram as medidas de resgate estatais após o rebentamento da bolha imobiliária em 2007/08, quando, além de pacotes de estímulo económico e reduções das taxas de juro, foram também lançados gigantescos programas de compra de títulos.

Os bancos centrais começaram por adquirir títulos hipotecários, passando em breve à compra de obrigações do Estado. E, como referido, nesta longa fase de política monetária extremamente expansionista, com quase 12 anos de duração (2008-2020), não se registou inflação significativa nos centros. A liquidez gerada pelos bancos centrais fluiu para a esfera financeira, criando ali uma inflação dos preços dos mercados financeiros, ou seja, uma bolha de liquidez. Foi uma espécie de capitalismo dos bancos centrais impulsionado pelos mercados financeiros, que, embora tenha feito inchar os balanços dos bancos centrais,10 permitiu-lhes intervir rapidamente em caso de turbulências nos mercados financeiros – o que possibilitou aos Estados contrair empréstimos a juros baixos, o que atingiu dimensões absurdas, especialmente no Japão.

De volta à estagflação

Esta alquimia dos mercados financeiros do capitalismo tardio, que aliás também promoveu a formação de uma ideologia neokeynesiana na esquerda,11 foi assim levada ao extremo pelos bancos centrais através das referidas compras de obrigações – até um balanço total de quase nove biliões de dólares, no caso da Reserva Federal americana12 em 2020. Com o agravamento da crise provocado pela pandemia, com os estrangulamentos no abastecimento e os problemas nas cadeias de produção, a inflação regressou, o que deu início à grande reviravolta na política monetária: Depois de a inflação ter atingido por vezes taxas de dois dígitos, os bancos centrais (primeiro a Reserva Federal e o BCE em meados de 2022, e o Banco do Japão apenas com dois anos de atraso, em março de 2024) tiveram de aumentar as taxas de juro de referência. Com isso, a era do dinheiro barato foi inevitavelmente abandonada pela política monetária e a política burguesa de crise viu-se obrigada a um novo equilíbrio delicado, em que a política económica e o combate à inflação entram em conflito: Concretamente isto é evidente à luz dos desacordos entre a Fed e a Casa Branca relativamente às taxas de juro de referência, que foram aumentadas em meados de setembro devido às crescentes pressões inflacionistas.13

O fim desta bolha de liquidez deixou assim Estados endividados e bancos centrais com balanços inflacionados, cuja capacidade de acção se viu severamente limitada. De facto, o período de estagflação dos anos 70 regressou num nível de crise mais elevado, após mais de quatro décadas de adiamento neoliberal da crise.14 Consequentemente, os Estados centrais sofrem já desde 2021/22 com taxas de juro elevadas, embora estas tenham subido apenas lentamente até 2025 e, numa comparação histórica, nem pareçam assim tão elevadas – mantiveram-se ao nível do início do século XXI. O que, porém, agravou inevitavelmente a situação foi a circunstância descrita no início: o facto de o endividamento destes países, em relação ao produto económico, ser muito superior ao de há 25 anos.

E não foi por acaso que o Japão, com a sua dívida pública superior a 200 por cento do PIB, constituiu o gatilho da crise dos mercados obrigacionistas que agora se desenrola. A gigantesca dívida pública do Japão é consequência de inúmeros programas de estímulo keynesianos, com os quais Tóquio tentou, em grande parte sem sucesso, ultrapassar a prolongada estagnação deflacionária no país, que se consolidou nas «décadas perdidas» após o rebentamento das grandes bolhas imobiliárias japonesas no início dos anos 90. Por vezes estes programas keynesianos de estímulo económico assumiram traços tragicómicos – como, por exemplo, quando o governo lançou um programa de incentivo ao consumo de álcool entre os jovens japoneses, com o objetivo de, numa política clássica orientada para a procura, apoiar o sector do álcool em declínio e revitalizar as receitas fiscais em queda.15

O Japão como catalisador da crise

O actual governo de direita do Japão, liderado pela primeira-ministra Sanae Takaichi, pretende dar continuidade a esses efémeros e eufóricos surtos de crescimento económico, estimulando o consumo de massas e o sector do armamento por meio de programas de estímulo económico e reduções do imposto sobre o consumo, mas desta vez Tóquio enfrenta a ameaça de uma crise orçamental, uma vez que o contexto macroeconómico global se transformou na actual fase de crise, caracterizada por tendências estagflacionistas.16 As taxas de juro também estão a subir em Tóquio, pelo que o serviço da dívida já se tornou a segunda maior rubrica orçamental, enquanto o anunciado aumento do défice desvaloriza constantemente a moeda japonesa. A fraqueza do iene, que na verdade favorece as exportações, alimenta ainda mais a inflação, uma vez que o Japão depende de importações de matérias-primas cujos preços não param de subir. Takaichi encontra-se assim num beco sem saída de crise estagflacionária, em que teria de implementar medidas que se excluem mutuamente, que ao mesmo tempo que apoiem a economia e contenham a inflação.

Durante longos períodos, esta acumulação da dívida japonesa – precisamente devido à política expansionista de taxas de juro zero dos bancos centrais na fase final da globalização – decorreu sem problemas: grande parte da dívida pública japonesa é detida por investidores nacionais (mais de 80 por cento), o que tem um efeito estabilizador, especialmente em fases de crise. Além disso, o Japão conseguiu – à semelhança da República Federal da Alemanha – apresentar uma balança comercial positiva durante longos períodos, o que equivale na prática a uma exportação de dívida e à obtenção de um excedente económico. Devido aos baixos níveis de juros no mercado interno e à estagnação económica, o capital japonês em busca de investimento fluiu cada vez mais para o estrangeiro, o que fez com que o Japão se tornasse um dos mais importantes investidores globais. O Japão até substituiu a China como o maior comprador de obrigações do Tesouro dos EUA.

A Bloombergg estima17 que os investimentos japoneses no estrangeiro ascendem a cerca de cinco biliões de dólares. A isto acrescem as chamadas carry trades, nas quais investidores estrangeiros contraem empréstimos em ienes a taxas de juro baixas para depois investirem esse capital em mercados com taxas de juro mais elevadas. A dimensão destas apostas especulativas no iene, que dependem em grande medida da evolução cambial, não é exactamente quantificável, mas ascende a biliões. A Bloomberg estima o volume actual das carry trades japonesas em 1,1 biliões de dólares. A crise do Japão é assim de certa forma a crise do sistema financeiro do capitalismo tardio. Se as taxas de juro subirem no Japão, as finanças públicas de Tóquio entram em dificuldades; nesse caso, o capital japonês é retirado do estrangeiro devido ao desaparecimento do diferencial de taxas de juro, o que desestabiliza ainda mais os mercados estrangeiros.

E isto aplica-se sobretudo aos EUA, que dependem fortemente dos afluxos de capital para financiar o défice. Precisamente por isso, precisamente porque o Japão detém T-Bonds no valor nominal de 1,2 biliões de dólares (as reservas de obrigações dos EUA da China, por outro lado, ascendem apenas a pouco mais de 620 mil milhões),18 Washington, em conjunto com Tóquio, interveio em agosto19 no mercado cambial para apoiar o iene. Isto aconteceu no interesse próprio de Washington, para impedir que o mercado de obrigações dos EUA fosse afectado pelas saídas de capital do país. Entretanto – a menos que as aparências actuais enganem – estes esforços de estabilização podem ser considerados um fracasso. Isto também porque outros factores agravaram ainda mais a inflação e, consequentemente, a crise dos mercados de obrigações.

Factores geopolíticos que agravam a crise

Só tendo em conta esta situação instável dos mercados obrigacionistas nos centros do sistema mundial – que já se delineava em 2022 e que transitou para um modo de crise latente com o Japão no seu centro no início de 2026 – é que se entende o impacto enorme dos factores «externos» na fragilização e na deterioração dos alicerces do sistema financeiro mundial. Para além da escalada da guerra na Ucrânia, no decurso da qual as refinarias russas estão a sofrer danos cada vez maiores (palavra-chave: preços do gasóleo), é a guerra no Irão que contribui para a inflação e, consequentemente, para a desestabilização dos instáveis mercados obrigacionistas. O capitalismo tardio produziu, de facto, guerras na periferia em abundância nas últimas décadas – estas só conseguem neste momento abalar de tal forma os mercados obrigacionistas dos centros porque estes já se encontram no modo de crise descrito.

No entanto, estes conflitos geopolíticos e militares, que actualmente são frequentemente apontados como causa da inflação e da crise das obrigações, estão eles próprios intimamente entrelaçados com o processo de crise sistémica que – após o fim da financeirização do capitalismo – reanima de certo modo a estagflação dos anos 70 num nível de crise mais elevado. Isto aplica-se, em particular, à guerra no Irão, que representa a tentativa catastróficamente falhada da administração Trump de substituir a hegemonia norte-americana em declínio por um sistema imperial. A posição precária do dólar como moeda de referência mundial – que se tornou evidente, o mais tardar, durante os conflitos em torno da Gronelândia, quando as vendas de obrigações europeias provocaram quedas nas cotações dos títulos do Tesouro americanos – deveria ser reforçada através da expansão militar contra países petrolíferos recalcitrantes. A posição do dólar como moeda do petróleo seria assim reforçada – por meio da força bruta das armas. O ataque contra a Venezuela foi um sucesso total, depois de os gangues locais terem alinhado com Washington e terem de facto entregue o chefe de Estado recalcitrante, Maduro.

Também a guerra contra o Irão se seguiu a esta lógica imperialista do dólar do petróleo, que visa na prática neutralizar os «postos de abastecimento» geopolíticos da China (e não às manipulações de Netanyahu, como alucinam os anti-semitas pós-esquerdistas, desde os Democratic Socialists of America até ao Die Linke), guerra que se transformou numa catástrofe geopolítica que conduz à intensificação da crise das obrigações e à liquidação definitiva dos vestígios da hegemonia dos EUA. O bloqueio dos estreitos de Ormuz e Bab al-Mandab não está só a impulsionar os preços do petróleo para níveis cada vez mais elevados, o que se traduz, por sua vez, numa pressão inflacionária geral mais elevada devido aos custos mais elevados de transporte e produção. A isto juntam-se os estrangulamentos no abastecimento de fertilizantes, que, o mais tardar no próximo ano, conduzirão a um aumento maciço dos preços dos alimentos, a uma crise de fome na periferia e à consequente onda de desestabilização política, tal como se manifestou, por exemplo, na «Primavera Árabe».

Os crescentes conflitos militares funcionam assim como aceleradores da crise – mas não são a causa da mesma. Mesmo um fim rápido – improvável – das guerras na Ucrânia e no Irão apenas atenuaria, no máximo, a pressão inflacionária, pelas razões acima descritas. Para além do enorme sobreendividamento do sistema mundial, que na prática equivaleu a um adiamento da crise, torna-se cada vez mais evidente o limite externo do capital – que impõe limites rígidos à sua compulsão de valorização sem limites, sob a forma da crise climática e da crescente escassez de recursos. As perturbações ecológicas prejudicam cada vez mais o processo de valorização; isto faz também com que os custos dos fenómenos meteorológicos extremos disparem – e realmente caberia aos aparelhos estatais sobreendividados a responsabilidade pela sua eliminação ou mitigação.

Inflação – veio para ficar

O que nos leva às consequências dramáticas da crise dos mercados obrigacionistas dos centros financeiros – é como se o antigo betão sobre o qual o castelo de cartas financeiro global tinha sido erguido estivesse a desmoronar-se. O aumento das taxas de juro das obrigações acaba inevitavelmente por se reflectir em toda a economia, o que pode conduzir, de um modo geral, a um arrefecimento da conjuntura e, a longo prazo, a uma recessão. Por outro lado, existe simplesmente o risco de contágio no seio da instável esfera financeira, especialmente inflacionada nos EUA, que se assemelha a uma «gigantesca torre de Jenga», como a revista Fortune descreveu.20 O aumento das taxas de juro deverá conduzir a saídas de capital dos mercados bolsistas (o boom prolongado das acções na era neoliberal deveu-se, em grande parte, às taxas de juro baixas), o que poderá provocar um colapso justamente nos Estados Unidos. A bolha da IA, o principal motor da economia dos EUA, será assim desestabilizada, uma vez que agora também os gigantes da TI, que se endividam rapidamente, terão de suportar empréstimos muito mais caros. O aumento das taxas de juro também ameaça as estratégias de crise keynesianas de direita, nas quais as despesas públicas destinadas à indústria do armamento sustentam a economia – não só no Japão, mas também na RFA.

Em resumo: a crise dos mercados obrigacionistas desestabiliza o sistema financeiro mundial, enquanto a subida das taxas de juro restringe ainda mais a margem de manobra da política estatal (e, já agora, isto talvez pudesse também curar uma parte da «pós-esquerda» regressiva do seu infantil fetiche do Estado – ainda se pode sonhar). Mas o que é decisivo é o simples facto de que, até agora, o Estado sempre funcionou como a última âncora de salvação do capitalismo tardio em todas as grandes crises (bolha das dotcom, bolha imobiliária, pandemia). E fê-lo em escala cada vez maior: desde a política de taxas de juro zero, passando por programas de estímulo económico na ordem dos biliões, até ao absurdo «capitalismo dos bancos centrais» na fase final da globalização, com as suas gigantescas aquisições de títulos e obrigações do Estado.21 Tudo isto só foi possível porque a inflação se manteve baixa. E isto nunca mais voltará a acontecer. A inflação, na era da estagflação que agora regressa definitivamente, já não desaparecerá – nela anuncia-se o endgame da crise do sistema capitalista, a desvalorização do valor. Não na periferia ou na semiperiferia, como nas últimas décadas, mas precisamente nos centros.

Agora é a nossa vez. O serviço da enorme dívida americana constitui, entretanto, a maior rubrica orçamental – mesmo acima das despesas militares. No Japão, o serviço da dívida tornou-se a segunda maior rubrica orçamental. Na Europa, os diferenciais de taxas de juro crescentes alimentam as habituais forças centrífugas, que deverão voltar a pôr em risco a zona euro. Os mercados obrigacionistas dos centros assemelham-se cada vez mais aos da semiperiferia, dos «países emergentes», e já não funcionam como «portos seguros» em tempos de crise – precisamente porque a dinâmica da crise atinge agora de pleno os centros. Em janeiro de 2026 a obrigação norte-americana a 10 anos rendia 4,2 por cento; agora caminha para os 5,5 por cento – o que conduzirá com certeza a saídas de capital dos mercados bolsistas. A obrigação japonesa correspondente registava, no final de setembro, mais de três por cento. Este é o valor mais elevado desde 1996, altura em que a dívida de Tóquio, em relação ao produto económico, correspondia a cerca de um terço do valor actual. A obrigação francesa a dez anos atingiu 4,8 por cento, o valor mais elevado desde 2008, o que fez com que o spread em relação à obrigação federal alemã – que, com 3,6 por cento, também registou um novo máximo de longa data – atingisse mais de um ponto percentual. A divisão na Europa está de volta – Merz já anunciou disputas acirradas em torno do orçamento da UE.22

O que é decisivo, porém, é a restrição severa que daí advém às possibilidades de intervenção estatal em momentos de crise. É recomendável pensar nestas questões de forma contextualizada. A bolha da IA, que assumiu dimensões muito maiores do que a bolha das TI no início do século XXI, acabará inevitavelmente por rebentar (este boom é sustentado por especulações sobre um novo regime de acumulação através de investimentos privados absurdos).23 E o Estado vê-se impedido de recorrer a muitas medidas de crise comprovadas, se não quiser deixar que a dinâmica inflacionária fique totalmente fora de controlo. As reduções das taxas de juro e a impressão de dinheiro através de «flexibilizações quantitativas» conduzirão, desta vez, directamente à desvalorização da moeda e à desvalorização do capital na sua forma de equivalente geral do valor. Os regimes de austeridade em fases de crise, por outro lado, desvalorizam o capital nas suas formas constante e variável: instalações de produção e máquinas paralisadas, trabalhadores assalariados excedentários. Restam apenas diferentes caminhos na crise.

À crítica do valor cabe o mérito histórico de ter decifrado o enigma do capital e de ter identificado as suas contradições internas decisivas. No entanto, aquilo em que a crítica do valor tem de falhar – uma vez que depende das acções dos intervenientes na gestão da crise – é o horizonte temporal exacto em que a crise devora o sistema mundial por etapas. Robert Kurz, no seu livro «O Colapso da Modernização», já no início dos anos 90 descreveu com perspicácia, de forma quase profética, a actual constelação da crise24 – mas o seu horizonte temporal na altura abrangia anos, não décadas. Por isso é aconselhável, de um modo geral, ter cautela em relação a previsões concretas sobre a crise. No entanto, se nada for enganador e se não forem inventadas novas formas de adiar a crise, desta vez parece realmente provável que se verifique uma ruptura socioeconómica total. Resta apenas o betão frágil, a fundação rachada do sistema financeiro mundial. Com o próximo impacto da crise, é muito provável que esta se desmorone.

Financio a minha actividade jornalística principalmente através de donativos. Se os meus textos lhe agradam, pode contribuir – seja através do Patreon, do Substack ou por transferência bancária directa, mediante acordo por e-mail:
https://www.patreon.com/user?u=57464083
https://konicz.substack.com

1 https://fred.stlouisfed.org/series/gfdegdq188S
2 https://fred.stlouisfed.org/series/DFF
3 https://fred.stlouisfed.org/series/FPCPITOTLZGUSA
4 https://fred.stlouisfed.org/graph/?g=1ICIo
5 https://fred.stlouisfed.org/series/DEBTTLJPA188A
6 https://fred.stlouisfed.org/series/IRLTLT01JPM156N
7 https://www.spiegel.de/wirtschaft/unternehmen/bundesleihen-haben-jetzt-alle-erstmals-negative-zinsen-auch-30-jaehrige-anleihe-a-1280247.html
8 https://www.konicz.info/2021/11/16/zurueck-zur-stagflation/. Em português: https://www.konicz.info/2021/11/18/de-volta-a-estagflacao/
9 https://www.imf.org/en/blogs/articles/2025/09/17/global-debt-remains-above-235-of-world-gdp
10 https://fred.stlouisfed.org/series/WALCL
11 https://jungle.world/artikel/2023/03/fahren-auf-sicht
12 https://fred.stlouisfed.org/series/WALCL
13 https://www.nytimes.com/2026/09/16/business/economy/trump-fed-interest-rates.html
14 https://www.konicz.info/2021/11/16/zurueck-zur-stagflation/. Em português: https://www.konicz.info/2021/11/18/de-volta-a-estagflacao/
15 https://www.ft.com/content/d660b8f9-7ef9-4b94-9cb4-fa20f7a9f725#comments-anchor
16 https://www.konicz.info/2021/11/16/zurueck-zur-stagflation/. Em português: https://www.konicz.info/2021/11/18/de-volta-a-estagflacao/
17 https://www.bloomberg.com/news/features/2026-01-25/japan-bond-market-crash-raises-alarm-for-global-interest-rates
18 https://www.msn.com/en-us/money/economy/mohamed-el-erian-sounds-alarm-as-china-s-us-treasury-share-hits-15-year-low-at-7/ar-AA1WrD2j
19 https://www.manager-magazin.de/finanzen/boerse/yen-japan-und-usa-intervenieren-gemeinsam-gegen-waehrungsschwaeche-a-50d5a2ee-af20-45fa-9816-c44d51fffee8
20 https://fortune.com/2026/08/15/scott-bessent-dollar-yen-carry-trade-global-finance-jenga-tower-fed-rates-bank-of-japan/
21 https://fred.stlouisfed.org/series/WALCL
22 https://de.euronews.com/2026/09/29/merz-und-funf-weitere-eu-regierungschefs-fordern-haushaltskurzungen-um-hunderte-milliarden
23 https://www.thetimes.com/business/companies-markets/article/ai-boom-bubble-wall-street-9g9pxmbv5
24 https://edition-tiamat.de/media/pages/books/der-kollaps-der-modernisierung/822f2bd6f2-1693845001/kurz-kollaps-seite-1-17.pdf. Em português: http://www.obeco-online.org/rkurz74.htm

Original “Das große globale Bondmassaker” in konicz.info, 17.10.2026. Tradução de Boaventura Antunes

Nach oben scrollen