Primeira avaliação das consequências económicas da guerra no Irão
Tomasz Konicz, 09.03.2026
Numa perspectiva puramente militar, o Irão não tem qualquer hipótese de sobreviver à guerra contra a máquina militar dos EUA, que está altamente equipada com sistemas de IA.1 A única opção para o enfraquecido regime dos Mulás, que só conseguiu manter-se no poder através de uma onda de repressão assassina em massa, é aumentar os custos da guerra, numa estratégia de escalada económica que conduzirá, não só a nível regional, mas também global, a uma tal convulsão económica que Washington se sentirá obrigado a cancelar a guerra.
Trata-se de uma verdadeira distopia, provocada pela escalada da crise global do capitalismo, que há muito tempo tomou conta dos centros de poder.2 Não é apenas de uma questão ideológica, pois as ideologias da desgraça com conotações religiosas são virulentas de ambos os lados (xiismo de Estado e evangelismo), mas é também de uma questão económica. Os islamofascistas3 de Teerão estão de facto a travar uma guerra económica contra a economia de guerra, organizada pelos fascistas4 de inspiração evangélica5 da Casa Branca através da agressão imperialista. Este conflito aparentemente apocalítico, que está a ser travado por elementos evangélico-fascistas no seio do exército dos EUA literalmente em nome do Armagedão,7 pode de facto desencadear a próxima crise global, uma vez que o potencial de crise já está suficientemente presente nos centros do sistema mundial.8
A guerra económica do Irão
O regime de Teerão não tem mais nada a perder, está em jogo a sua existência, que só pode ser assegurada através de uma enorme convulsão económica global. A interrupção do fluxo de combustíveis fósseis da região, que já foi em grande parte concretizada através do bloqueio do Estreito de Ormuz (cerca de 20% do abastecimento mundial), é fulcral. Além disso, o Irão atacou directamente os despotismos do Golfo, a fim de paralisar a sua produção de petróleo e/ou gás e destruir o turismo de influenciadores e de oligarcas na região. Este objectivo também foi amplamente atingido. Para os despotismos árabes do Golfo – que à partida eram favoráveis ao ataque dos EUA9 – a guerra contra o Irão representa um desastre económico.
Não só as receitas economicamente essenciais dos Estados petrolíferos do Golfo estão a desmoronar-se, como a sua estratégia de diversificação, o turismo de classe alta, poderá ter sofrido um golpe fatal com a guerra. Com estes ataques, o Irão pretende fazer escalar as tensões entre Washington e os seus aliados regionais, sendo os ataques iranianos formalmente legitimados pelas bases militares dos EUA na região. É de esperar que os despotismos do Golfo façam pressão para uma rápida cessação das hostilidades.
Do terramoto do mercado à estagflação
As ondas de choque globais durante a primeira semana de guerra podem ser facilmente identificadas na queda das bolsas. Entre 28 de Fevereiro e 7 de Março, os principais índices de todas as regiões centrais caíram 4,4% (Dow Jones), mais de 5,7% (Nikkei do Japão) e mais ainda os da Europa, o Dax e o Euro Stoxx 50 (menos 6% e 7,4%, respectivamente). Curiosamente, as quedas das bolsas reflectem, na realidade, as diferentes seguranças de abastecimento de combustíveis fósseis das respectivas regiões económicas: Os Estados Unidos, que produzem o seu próprio gás e petróleo, são muito menos vulneráveis às consequências do bloqueio energético do que a Europa ou o Japão. A dependência dos Estados Unidos em relação ao petróleo do Golfo nunca foi tão baixa como nas vésperas da guerra do Irão.10 O Irão declarou ainda que autorizará a passagem de petroleiros chineses pelo Estreito de Ormuz, o que se reflectiu também – por enquanto – em perdas de cotações ligeiras inferiores a um ponto percentual na bolsa de Xangai.11
O factor central da crise é evidentemente o preço do petróleo (WTI), que disparou,12 passando de 71 dólares no início de Março para mais de 90 dólares em 6 de Março, ou seja, um aumento de mais de 25% numa semana de negociações. O preço do gás na Europa poderá duplicar para 74 euros/MWh se a guerra durar mais de um mês. Um bloqueio do Estreito de Ormuz que se prolongasse por vários meses teria como consequência preços do gás superiores a 100 euros na UE.13 O Qatar, o mais importante exportador de gás da região, abastece sobretudo a Ásia, em primeiro lugar a China. O corte do abastecimento de combustíveis fósseis é evidentemente um objectivo estratégico da ofensiva imperialista americana, que atacou dois “postos de abastecimento” da República Popular, a Venezuela14 e o Irão.15 Entretanto, Israel e os EUA bombardeiam abertamente as infra-estruturas energéticas do Irão,16 estando também a ser considerados ataques contra o terminal de carga iraniano no Golfo,17 o que reduziria as exportações iranianas para a China.
Quais seriam as consequências de um choque de preços? Em termos económicos, existe a ameaça de um novo regresso da manifesta estagflação que caracterizou o último surto de crise desencadeado pela pandemia18 – por outras palavras, uma queda económica ou mesmo uma recessão que seria acompanhada por um rápido aumento dos preços e uma onda geral de inflação. A subida em flecha dos preços dos combustíveis fósseis não só provoca o aumento do preço da gasolina ou do aquecimento, como também provocará uma nova vaga de inflação geral se a guerra no Golfo não durar semanas, mas sim meses. Isto levaria simplesmente a uma queda da procura e a um abrandamento geral da valorização de capital na produção de mercadorias – o que se manifestaria economicamente como estagnação ou mesmo recessão. Após o fim da economia de bolhas financeiras global, o sistema mundial capitalista tardio encontra-se, de qualquer forma, numa era de estagflação, que é o precursor da inevitável desvalorização do valor (ver: De volta à estagflação).19
Metal nu – a economia de guerra fascista de Trump
Os preços dos combustíveis fósseis estão a subir globalmente. No entanto, como indicado, nem todas as regiões são afectadas na mesma medida. Os Estados Unidos são largamente auto-suficientes,20 e os choques de preços seriam amortecidos. Na Europa, no Japão e na Coreia, por outro lado, a dinâmica estagflacionista teria pleno efeito. A China, cuja segurança energética é posta em causa pelas guerras americanas, é, de qualquer modo, o alvo indirecto dos ataques americanos (no caso de Israel, o objectivo da guerra é de facto o derrube do islamofascismo iraniano, que fez da erradicação do Estado judeu a sua doutrina de Estado. As tensões entre Washington e Telavive são susceptíveis de se manifestarem aqui no decurso da guerra).
Os fascistas na Casa Branca21 estão na defensiva a nível interno, estão encostados à parede e procuram saídas para não irem parar à prisão se forem afastados do cargo. Economicamente, o proteccionismo de Trump não parece estar a funcionar.22 Pelo contrário, o desemprego nos EUA aumentou de forma surpreendentemente acentuada, enquanto a inflação permanece teimosamente perto dos três por cento.23 Até agora, o proteccionismo de Trump não trouxe quaisquer retornos económicos, ao mesmo tempo que acelerou o declínio do dólar americano como moeda de reserva mundial. À semelhança dos anos de crise da estagflação no final dos anos 70 e início dos anos 80, na véspera da era neoliberal, as fascistas – bem, digamos – as “elites funcionais” na Casa Branca estão à procura de um novo modo autoritário de dominação, agora que o neoliberalismo se esgotou. Internamente, a guerra do Irão poderia ser usada para manipular as eleições americanas em Novembro, em caso de escalada militar, alertaram media americanos24 que ainda não são controlados por oligarcas de direita amantes de Trump.25
Dívida elevada, dólar em declínio, pauperização generalizada, aumento do desemprego: É esta instabilidade induzida pela crise que torna tão perigosos os EUA de Trump, que estão a fazer um verdadeiro amoque do imperialismo de crise; a situação geopolítica global está lentamente a assumir uma tonalidade pré-apocalíptica. Entretanto Trump especula sobre os próximos alvos da máquina de guerra dos EUA: Cuba está no topo da lista de alvos.26 O que está agora a emergir como resposta de Washington à crise é uma economia de guerra permanente, que possa levar à mitigação das consequências da crise nos EUA à custa de países estrangeiros.
Não se trata aqui dos efeitos económicos dos programas de armamento keynesianos que um complexo militar-industrial produz. Trata-se de custos economicamente improdutivos que não contribuem para uma maior valorização do capital e que dificilmente podem ser suportados em tempos de elevado endividamento nacional. Crucial para o entendimento da situação actual é a rápida subida do dólar americano após o início da guerra, que registou a 6 de Março o “ganho semanal mais acentuado” em mais de um ano, como notaram os media americanos.27 A guerra desencadeada pelos EUA criou a procura de um “porto seguro” nos mercados financeiros globais, fazendo com que os capitais fluam cada vez mais para a zona do dólar.
E isto representa uma mudança de tendência, uma vez que o proteccionismo de Trump levou os EUA a perderem o seu estatuto de “porto seguro”. Em meados de 2025, as revistas económicas ainda discutiam as implicações desta reviravolta.28 Eis o pano de fundo: este foi o melhor indicador de que o dólar estava a começar a perder a sua posição como moeda de reserva mundial, que tinha permitido a Washington contrair empréstimos muito baratos. As taxas de juro sobem normalmente em tempos de crise, mas, graças ao domínio do dólar, os Estados Unidos puderam registar taxas de juro baixas precisamente nessas fases, o que permitiu lançar rapidamente programas de armamento ou de estímulo económico etc. O declínio do dólar reflectiu-se num aumento da carga de juros sobre o orçamento dos EUA, o que tornou previsível uma crise orçamental.29
A guerra e a bolha de IA
Os ataques dos Estados Unidos a países hostis produtores de petróleo têm, portanto, como objectivo não só minar o abastecimento energético da China, mas também fortalecer o dólar americano. Durante a hegemonia americana na era da globalização neoliberal, foram precisamente os défices comerciais dos Estados Unidos que mantiveram o dólar como moeda de reserva. Agora, na tradição fascista, é suposto ser o aço e o ferro que continuam a soldar os Estados Unidos como centro dos mercados financeiros mundiais, como local de entrada de fluxos de capital para efeitos de financiamento do défice. O metal nu: todo o foco suave da hegemonia dos EUA nas últimas décadas já está desgastado após apenas um ano de Trump. A máquina militar de Washington, repleta de sistemas de IA verdadeiramente incomparáveis a nível mundial, bombardeará as crises, se necessário, para financiar o défice de Washington. O único lugar seguro para o capital, onde estaria razoavelmente protegido das maquinações militares dos fascistas na Casa Branca, seria o mercado financeiro dos EUA. As entradas de capital seriam de facto militarmente reguladas, ao mesmo tempo que o fornecimento de recursos aos concorrentes imperialistas seria dificultado.
Mas mesmo esta “economia de guerra”, que procura impor o domínio da zona do dólar através da força militar, parece impotente face ao abalo que se avizinha na esfera financeira, que já se está a tornar bastante evidente. A gigantesca bolha da IA,30 que foi o motor essencial da economia americana, está agora a dar sinais claros de crise. Vários dos espectaculares acordos de investimento que alimentaram a corrida ao ouro no sector da IA foram revogados há alguns dias: O espetacular acordo entre a OpenAI e a Nvidia, que deveria envolver a fabulosa soma de 100 mil milhões de dólares, foi agora reduzido para 20 mil milhões,31 se é que chegará a ser concretizado. Cortes de investimento semelhantes estão ocorrendo actualmente entre a OpenAI e a Oracle, onde a construção planeada de data centers inteiros está sendo abandonada.32 A Blue Owl, um dos mais importantes investidores no sector da IA, anulou igualmente um acordo de investimento de 10 mil milhões de dólares com a Oracle – o gigante informático já anunciou o despedimento de 30 000 empregados.33
A situação tensa no sector do investimento privado tornou-se evidente no início de Março, quando a empresa de investimento BlackRock teve de limitar o pagamento aos seus investidores pela primeira vez na sua história, uma vez que estes queriam retirar o seu capital em massa, excedendo assim o limite habitual de cinco por cento.34 Um “assalto de investidores” semelhante tinha ocorrido anteriormente na concorrente BlackStone, onde o limite foi simplesmente aumentado para sete por cento. A BlackRock ainda estava a injectar dezenas de milhares de milhões no sector da IA no Outono de 2025, enquanto o CEO Larry Flink tentava acalmar os receios de formação de uma bolha.35
O rebentamento desta bolha devastaria a sociedade já empobrecida dos Estados Unidos. Os biliões que estão actualmente a ser gastos no Golfo teriam de ser utilizados para apoiar a economia dos EUA e os aliados oligárquicos de Trump no sector das TI após o rebentamento desta bolha, uma vez que o choque socioeconómico iminente poderia ser tão destrutivo como uma guerra total. Não é possível travar tantas guerras no quadro da economia de guerra dos EUA para absorver o impacto que se avizinha através de entradas de capital.
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1 https://www.konicz.info/2026/03/06/time-to-ki-kill/. Em Português: https://www.konicz.info/2026/03/06/ia-killing-time/
2 https://www.konicz.info/2026/03/01/krieg-als-krisenkatalysator/. Em Português: https://www.konicz.info/2026/03/02/a-guerra-como-catalisador-de-crises/
3 https://www.kritiknetz.de/images/stories/texte/Islamischer_Staat.pdf
4 https://x.com/AntiTrumpCanada/status/2029188769769730131
5 https://x.com/Scavino47/status/2029661050174328878
6 https://www.konicz.info/2026/01/11/die-herrschaft-der-terror-clowns/. Em Português: https://www.konicz.info/2026/01/13/o-reinado-dos-palhacos-do-terror/
7 https://www.military.com/daily-news/2026/03/03/military-officers-accused-of-framing-iran-war-biblical-mandate.html
8 https://www.konicz.info/2026/02/19/zentren-vor-kernschmelze/. Em Português: https://www.konicz.info/2026/02/21/os-centros-a-beira-da-fusao-nuclear/
9 https://www.washingtonpost.com/politics/2026/02/28/trump-iran-decision-saudi-arabia-israel/
10 https://x.com/KobeissiLetter/status/2030281639352303755
11 Alle Daten gelten für den Zeitraum 26.02. – 06.02.2026. Quelle: https://www.finanzen.net/indizes
12 https://www.finanzen.net/rohstoffe/oelpreis/chart
13 https://www.tagesschau.de/wirtschaft/energie/gaspreis-hormus-gasspeicher-iran-krieg-100.html
14 https://www.konicz.info/2026/01/11/die-herrschaft-der-terror-clowns/. Em Português: https://www.konicz.info/2026/01/13/o-reinado-dos-palhacos-do-terror/
15 https://www.konicz.info/2026/03/01/krieg-als-krisenkatalysator/. Em Português: https://www.konicz.info/2026/03/02/a-guerra-como-catalisador-de-crises/
16 https://www.bbc.com/news/videos/c7vj9redqz2o
17 https://www.eenews.net/articles/the-oil-island-that-could-break-iran/
18 https://www.konicz.info/2021/11/16/zurueck-zur-stagflation/. Em Português: https://www.konicz.info/2021/11/18/de-volta-a-estagflacao/
19 https://www.konicz.info/2021/11/16/zurueck-zur-stagflation/. Em Português: https://www.konicz.info/2021/11/18/de-volta-a-estagflacao/
20 https://usafacts.org/articles/is-the-us-energy-independent/
21 https://www.konicz.info/2026/01/11/die-herrschaft-der-terror-clowns/. Em Português: https://www.konicz.info/2026/01/13/o-reinado-dos-palhacos-do-terror/
22 https://jungle.world/inhalt/2026/10
23 https://www.reuters.com/business/fed-rate-cut-bets-rise-after-weak-jobs-data-2026-03-06/
24 https://eu.usatoday.com/story/opinion/columnist/2026/03/04/trump-iran-war-federalize-midterm-elections/88961977007/
25 https://www.konicz.info/2026/03/04/neue-oligarchische-realitaet/. Em Português: https://www.konicz.info/2026/03/05/a-nova-realidade-oligarquica/
26 https://edition.cnn.com/2026/03/06/politics/trump-cuba-marco-rubio-fall
27 https://www.cnbc.com/2026/03/06/dollar-set-for-steepest-weekly-gain-in-a-year-as-iran-crisis-boosts-haven-bid.html
28 https://fortune.com/2025/04/11/us-dollar-losing-safe-haven-status-investor-response/
29 https://www.konicz.info/2026/02/19/zentren-vor-kernschmelze/. Em Português: https://www.konicz.info/2026/02/21/os-centros-a-beira-da-fusao-nuclear/
30 https://www.konicz.info/2025/11/09/die-kuenstliche-intelligenzblase/. Em Português: https://www.konicz.info/2025/11/10/a-bolha-da-inteligencia-artificial/
31 https://futurism.com/artificial-intelligence/nvidia-100-billion-deal-openai-fallen-apart
32 https://www.ft.com/content/2fa83bbf-abf2-43f1-b2f0-84a1391150b9
33 https://www.livemint.com/companies/news/oracle-layoffs-tech-giant-to-slash-30-000-jobs-as-banks-pull-out-from-financing-ai-data-centres-11769996619410.html
34 https://www.reuters.com/business/blackrock-limits-withdrawals-private-credit-fund-redemptions-mount-2026-03-06/
35 https://fortune.com/2025/10/15/blackrocks-40-billion-deal-highlights-the-unstoppable-ai-data-center-gold-rush-as-ceo-larry-fink-pushes-back-on-ai-bubble-fears/
Original “Kriegswirtschaft vs. Wirtschaftskrieg” in konicz.info, 08.03.2026. Tradução de Boaventura Antunes
https://www.konicz.info/2026/03/08/kriegswirtschaft-vs-wirtschaftskrieg/