Perante a crise manifesta do capital, os sindicatos alemães reagem com uma cegueira ideológica aberta à direita – mas precisamos é de alternativas ao sistema
Tomasz Konicz
Ao ler a convocatória do 1º de Maio deste ano da Confederação Alemã dos Sindicatos, [https://www.dgb.de/mitmachen/erster-mai/] é difícil decidir-se entre o horror e a compaixão. A crise do sistema capitalista já atingiu em pleno a Alemanha. Não há dúvida que a situação está a ficar grave. A crise é no essencial uma crise do trabalho, que a sociedade do trabalho está a perder devido à automatização constante. As revoluções no domínio da Inteligência Artificial constituem apenas a ponta do iceberg. Mas a liderança sindical responde a esta crise do trabalho com um endurecimento da ideologia do trabalho: mantém-se a concepção ultrapassada do trabalho assalariado, apesar de o trabalho se estar a esvair na sociedade do capitalismo tardio.
A liderança sindical recusa-se, assim, a aceitar a realidade da crise: A concorrência de mercado obriga os capitalistas à racionalização e à aplicação de novas tecnologias, sob pena de falência. O capital perde assim a sua própria substância, o trabalho assalariado. Este processo de crise é irreversível, o sistema capitalista atinge os limites do seu desenvolvimento – social, económico e ecológico. E esta simples verdade é entretanto evidente. Basta dar uma vista de olhos às notícias actuais.
No entanto, a negação da realidade não fará com que desapareça este processo de crise, que conduz à barbárie. Não adianta enterrar a cabeça na areia e, numa falsa sensação de imediatismo, fingir que há trabalho suficiente para todos. A DGB recorre ao velho mito dos «gestores incompetentes» para explicar a crise do sistema. Para não ter de questionar o sistema e o trabalho, as decisões erradas dos capitalistas são responsabilizadas pela crise. Mas isto é apenas uma simples inversão da busca de bodes expiatórios, que também é praticada pela direita. Não foram os gestores nem os estrangeiros que causaram a crise do trabalho.
Esta teimosia em manter a ideologia do trabalho no meio da crise do sistema conduz a um endurecimento autoritário que se manifesta numa repressão crescente: trabalhos forçados, ameaça de morte por inanição para os desempregados, chicanas excessivas para todos aqueles que ficam de fora da sociedade do trabalho. A isto acresce o agravamento da concorrência entre locais de produção, que muitas vezes acompanha ressentimentos nacionalistas – por exemplo, nas deslocalizações para o estrangeiro motivadas pela crise. Este endurecimento abre a porta à direita, ao fascismo. Entretanto, trabalhadores e sindicalistas votam na AfD acima da média. Sem uma ruptura com a obsessão pelo trabalho, a crise do trabalho conduzirá ao fascismo, de novo ao slogan „O trabalho liberta“.
A crise do trabalho, à qual sindicatos e capitalistas se agarram, é, na verdade, uma crise de toda a sociedade capitalista. O trabalho é a substância do capital; sem a valorização do trabalho, sem lucros, todo o Estado social é de facto inviável financeiramente. É por isso que o lema da DGB, «Primeiro os nossos empregos, depois os vossos lucros», é tão absurdo – os trabalhadores (Marx designava-os como capital variável) têm de gerar lucros, caso contrário os seus empregos desaparecem. É por isso que o Estado social está gravemente ameaçado, já não é financeiramente viável.
Não basta indignar-se com os cortes iminentes e rejeitá-los com uma falsa sensação de urgência. A crise mundial do capital torna o Estado social insustentável; não é possível voltar atrás no tempo, não há regresso ao capitalismo renano do século XX. O mesmo se aplica à crise ecológica, à crise climática, causada pela compulsão de crescimento do capital. A inflação crescente e a crise alimentar em explosão não são causadas por lucros extraordinários, mas pela destruição das bases ecológicas da vida da humanidade. A escassez está a alastrar. Os controlos de preços já não ajudam, mas sim o afastamento da compulsão de crescimento capitalista sem limites num mundo finito.
O trabalho é a substância do capital, é gasto para transformar dinheiro em mais dinheiro. Os valores de uso são apenas um subproduto necessário deste processo de valorização irracional que destrói o mundo. À histeria generalizada em torno do trabalho, que se apoderou da Alemanha na crise, deve, portanto, opor-se uma crítica radical do trabalho. À crise do trabalho terá de seguir-se a ultrapassagem do trabalho, e não o endurecimento (fascista) da ideologia alemã do trabalho. Num primeiro passo, seria sensato exigir uma redução radical da jornada de trabalho, em vez de desperdiçar milhares de milhões em perseguições aos desempregados e em trabalhos forçados.
A realidade da crise do sistema capitalista tem de ser simplesmente reconhecida, para que se torne a base de uma prática transformadora. O capitalismo irá inevitavelmente desmoronar-se devido às suas contradições internas e externas. Trata-se agora de impedir a queda na barbárie fascista e de orientar a transformação inevitável numa direção progressista e emancipadora. Esta verdade incómoda mantém-se, independentemente do nível de consciência da população – o processo de crise continua inexoravelmente, mesmo que seja ocultado, reprimido ou ignorado. A Confederação Alemã do Trabalho (DGB) não está de facto sozinha na sua negação da realidade.
O desperdício cego de trabalho no mercado de trabalho, que alimenta a dinâmica fetichista e cega do capital, deve ser substituído por um entendimento consciente dos membros da sociedade. As pessoas têm de passar a moldar conscientemente o processo de reprodução da sua sociedade, ou esta sociedade irá desmoronar-se devido às contradições do capital, que se intensificam devido à crise.
É, portanto, decisiva uma consciência radical da crise, que constitua a base de um movimento de transformação emancipatório. E até mesmo um Dia do Trabalhador poderia, com uma ampla crítica ao fetiche do trabalho, contribuir para forçar essa consciência radical da crise.
Original “Die Realitätsverweigerer vom DGB” in konicz.info, 25.04.2026. Tradução de Boaventura Antunes
https://www.konicz.info/2026/04/25/die-realitaetsverweigerer-vom-dgb/