MPERIALISMO DE CRISE E IDEOLOGIA DE CRISE

Trolls de Putin e da Nato: Como os restos da esquerda alemã estão a ser triturados entre as frentes da guerra pela Ucrânia

Tomasz Konicz, 26.04.2022 – Tradução de Boaventura Antunes

A esquerda alemã parece que vai ser mais uma vítima da invasão russa da Ucrânia. Grande parte do que é comummente atribuído a este campo político já em desintegração1 está a tomar partido nesta guerra imperialista, desviando-se assim para o oportunismo, a regressão, o belicismo e a ideologia da nova direita. Deste modo, porém, na esquerda apenas se reproduz o frente-a-frente deste conflito, sem perceber as suas causas – e só isso poderia levar a conclusões adequadas para uma prática emancipatória neste conflito.

Por um lado, é preciso mencionar neste contexto o famigerado espectro castanho-avermelhado dos trolls de Putin pós-esquerda, que com o início da guerra estão a tornar-se abertamente reconhecíveis como forças reaccionárias. Durante muito tempo, a Rússia e em particular o líder autoritário Putin funcionaram como o símbolo central de identificação da frente transversal alemã,2 como uma charneira ideológica entre uma esquerda ortodoxa em regressão e a nova direita em ascensão.3 Estes produtos de decadência da velha esquerda, à deriva no campo da nova direita, com a sua figura de proa Sahra Wagenknecht, que têm seus megafones em órgãos como Telepolis, Nachdenkseiten e Rubikon, sofreram de facto a sua derrota histórica logo no início da guerra.

Quase todos os expoentes deste espectro – que antes da eclosão da guerra estavam em actividade juntos com forças de direita, sobretudo no delirante movimento dos pensadores transversais4 – excluíram um ataque da Rússia à Ucrânia. Aqui foi ridículo o aparecimento de Sahra Wagenknecht pouco antes do início da guerra, quando a esquerdista favorita da direita alemã, mesmo antes da queda das primeiras bombas, afirmou firmemente que a Rússia não iria travar uma guerra na Ucrânia, uma vez que isso não seria do interesse de Moscovo.5

Harald Neuber, a sátira real amiga do bullying que detém o posto de „editor-chefe“ no portal de frente transversal Telepolis, agiu de forma ainda mais estúpida. Pouco antes da guerra, Neuber apelou aos seus leitores para que simplesmente relaxassem,6 usando frases pseudo-intelectuais („multicamadas“, „complexo“, „divergências de interesse“) para explicar os preparativos da guerra, que estavam em pleno andamento, como uma mera campanha mediática, cujo alvo principal era a „Alemanha“, que deveria „aproximar-se dos seus aliados da NATO“ – para poder propagar este disparate teve de servir-se de um sociólogo ucraniano como fonte. (No caso de Neuber, coloca-se de qualquer modo a questão de saber se não se trata simplesmente de uma figura ridícula, cómica, ou se aqui a mania das grandezas não contrasta simplesmente com a incapacidade intelectual de compreender e classificar até os contextos mais simples. Isto já não parece dar nas vistas quando temos por fundo a brutalização crescente da sociedade por causa da crise, sociedade em que tais figuras são totalmente absorvidas,).

Já releva de ignorância e obtusidade confundir os preparativos objectivamente avançados da guerra com a sua reflexão nos media, para pouco antes do início da guerra imaginar uma campanha mediática anti-russa e anti-alemã, mas esta atitude parece apenas revelar a megalomania que prevalece no campo dos trolls de Putin, que a partilham com o seu ídolo – afinal de contas, Neuber trabalha como editor-chefe na indústria mediática, e depois tudo só pode girar à sua volta e à volta dos media. Uma pequena dica, de passagem: há que entrar em pânico assim que o Sr. Neuber aconselhar os seus leitores a relaxar. E o que é o putinesco show de horrores na Telepolis fica claro nas entrevistas que Neuber realizou com Dieter Dehm, uma excrescência da frente transversal de Hanover devota de Putin – e que mais parecia um spot publicitário das vacinas russas („Sputnik V foi ignorada e denegrida“).7

Telepolis – A „quinta coluna“ imperialista de Moscovo?

É precisamente o constructo de frente transversal8 Telepolis, financiada pela editora Heise, que parece provar a impossibilidade de puro pacifismo e luta pela paz nesta guerra. Neuber vem do pior atoleiro parlamentar do espectro de frente transversal do chamado „Partido da Esquerda“; como membro do Bundestag, por exemplo, foi contratado para actuar como dador de deixas em entrevistas com Sahra Wagenknecht, que foram depois publicadas na „Weltnetz“ de Dieter Dehm. Neuber vem assim da facção hardcore dos trolls de Putin no Partido da Esquerda. Pouco antes do início da guerra, por exemplo, o chefe da Telepolis amigo do bulling9 entrevistou o compreensivo-com-Putin do Partido da Esquerda Andrej Hunko,10 que, após uma visita a Moscovo, explicou aos leitores da Telepolis que ninguém em Moscovo previa uma guerra, que os seus „interlocutores“ russos consideravam as reportagens dos media ocidentais sobre a guerra iminente como mero „ruído“ – e que a posição alemã sobre esta questão „não era soberana“ (reproduzindo assim um padrão comum de argumentação da nova direita, propagado por Jürgen Elsässer, por exemplo).

Após um breve momento de choque com o surto da guerra, este espectro castanho-avermelhado – ao qual os sentimentos de vergonha são aparentemente estranhos, mesmo após o maior disparate da própria tirada – continua simplesmente onde tinha ficado: Muitos textos dão a impressão de apenas querer aproximar-se dos interesses do Kremlin na sua guerra de agressão contra a Ucrânia. Quanto mais tempo dura a guerra, mais claramente a linha do jornal assume as características da propaganda pró-russa:11 critica-se o fornecimento de armas pesadas à Ucrânia,12 bem como os esforços de armamento de Berlim13 e as consequentes sanções que abrangem as importações de gás natural russo.14 Sob o pretexto da crítica ideológica, pretende-se que seja abrandado o amplo consenso sobre a solidariedade com a Ucrânia.15 O mesmo objectivo parece ser perseguido pelos artigos que abordam o nacionalismo e o fascismo ucranianos.16 Exige-se o fim da „lógica de escalada“,17 como se não fosse claro quem começou a guerra.

E, segundo a Telepolis, isso realmente não parece ser claro, uma vez que muitos textos agora culpam abertamente „o Ocidente“ pela invasão russa da Ucrânia.18 Então quem é o culpado da guerra de conquista imperialista do Kremlin sobre a Ucrânia? O grande Satã EUA19, claro! Pouco depois do início da guerra, Neuber encontrou interlocutores a condizer, que serviam o desenfreado anti-americanismo neste meio de frente transversal.20 As primeiras insinuações21 de que os EUA lucram com a guerra de agressão da Rússia há muito que se tornaram num anti-americanismo aberto.22 A linha do jornal, que está a tornar-se cada vez mais clara à medida que a guerra avança, dá assim origem à suspeita de que a Telepolis, depois de ter sido desviada23 pela facção castanha-avermelhada de frente transversal do Partido de Esquerda, degenerou agora numa empresa de propaganda não oficial do Kremlin, a quinta coluna do imperialismo russo.

Nem boi nem burro podem parar o luxemburgismo do putinismo em seu curso!

Entretanto a Telepolis está também a fazer abertamente a propaganda anti-ucraniana de Putin. O método utilizado neste meio pós-esquerda é bastante simples: eles procuram umas citações antigas e poeirentas de ícones da esquerda para legitimar a actual reivindicação imperialista de Moscovo sobre Ucrânia. Em meados de Abril, apareceu uma elaboração bizarra, tentando justificar as tiradas anti-ucranianas e anticomunistas de Putin no início da guerra, pretendendo „prová-las“ com citações antigas de Rosa Luxemburgo.24

Putin, cada vez mais orientado para o modelo imperial da Rússia czarista, acompanhou como é sabido a invasão da Ucrânia com acusações selvagens contra Lenine e os bolcheviques, que teriam „criado“ a Ucrânia em primeiro lugar – à custa da Rússia – com a sua política de nacionalidades. Os territórios da Ucrânia oriental e meridional, que foram incorporados na República Soviética ucraniana pelos bolcheviques, deveriam ser reafectados à Rússia, passados cerca de 100 anos. E é precisamente este expansionismo imperialista de Putin que se legitima com o texto. A fim de confirmar esta argumentação de Putin, são desenterradas citações antigas de Luxemburgo, que também criticava a política de nacionalidades de Lenine. A citação seguinte, escrita em reacção à revolução russa no final da Primeira Guerra Mundial, foi utilizada para caracterizar o nacionalismo ucraniano neste contexto.

„O nacionalismo ucraniano na Rússia era bastante diferente, digamos, do nacionalismo checo, polaco ou finlandês, nada mais que uma simples peculiaridade, uma tolice de algumas dezenas de inteligências pequeno-burguesas, sem a mais pequena raiz nas condições económicas, políticas ou espirituais do país, sem qualquer tradição histórica, uma vez que a Ucrânia nunca tinha formado uma nação ou um Estado, nem qualquer cultura nacional, excepto os poemas românticos reaccionários de Shevchenko. Formalmente é como se, numa bela manhã, aqueles que vinham da costa do Mar do Norte quisessem fundar uma nova nação e Estado alemão chapado na Fritz Reuter. E esta farsa ridícula de alguns professores e estudantes universitários foi artificialmente empolada como um factor político por Lenine e camaradas, através da sua agitação doutrinária com o „direito à autodeterminação etc.“. Deram importância à farsa inicial, até que a farsa se tornou a mais sangrenta seriedade: nomeadamente, não um movimento nacional sério, para o qual ainda não existem raízes, mas o cartaz e a bandeira da contra-revolução! Deste ovo sem gema saíram as baionetas alemãs em Brest“.

O luxemburgismo do putinismo assim criado ad hoc, que de facto serve para legitimar uma guerra de agressão, também nega implicitamente à nação ucraniana o direito à existência – inteiramente na linha de Putin, que vê a Ucrânia como uma „nação irmã“ e parte de facto da Rússia (uma espécie de Baviera russa). Isto é putinismo descarado, no meio de uma assassina guerra de agressão russa, financiado pela maior editora de TI da Alemanha. Enquanto a exumação de valas comuns continua em muitas partes do norte da Ucrânia, a Telepolis dá livre curso ao ressentimento anti-ucraniano, com evidente abuso de anacrónicas citações literalmente centenárias de Luxemburgo. Este meio da frente transversal,25 que sonha com uma aliança imperial germano-russa, odeia abertamente a Europa intermédia do Leste europeu, que se atravessa literalmente no caminho deste eixo geopolítico.

Como se disse, o reaccionário imperialista Putin – que está a trabalhar na restauração do império russo – é assim justificado no seu impulso expansionista, ao negar-se implicitamente o direito à existência da nação ucraniana, cujo nacionalismo estaria „sempre dependente do apoio dos Estados imperialistas mais agressivos contra a União Soviética ou contra a Rússia“. O que aqui rasteja, vindo dos produtos de decomposição do velho anti-imperialismo de esquerda, é um alternativo imperialismo alemão aberto à direita, que usa textos antigos da teoria da esquerda como mina para justificar o actual imperialismo de crise do Kremlin26 (e para zombar um pouco da identidade ucraniana, quando o país está a ser invadido por uma guerra de agressão). Resta saber quais os textos antigos da esquerda que este meio de frente transversal desenterrará para legitimar, por exemplo, a intenção da Rússia de conquistar a Transnístria.27

Já se vai assim longe na balbúrdia da Telepolis amiga do bulling e castanha-avermelhada, sendo que este portal foi purgado da crítica radical28 e é financiado pela editora Heise. E isto não é realmente por acaso. Em Hanôver, capital do pântano da Baixa Saxónia, sede da editora Heise, e residência de Dieter Dehm compreensivo-com-Putin, desenvolveu-se obviamente uma ligação regular ao Kremlin – tendo no topo o antigo chanceler do Hartz IV, Gerhard Schröder, que como “Gerd” do gás e amigo de Putin acumulou milhões nos conselhos de supervisão russos . O FAZ relatou doações generosas que trouxeram políticos pró-Rússia do SPD para o parlamento estatal e para posições influentes.29 Poder-se-ia certamente especular sobre até que ponto a conexão da frente transversal, financiada pela editora Heise, faz parte desta rede.

O cálculo da frente transversal: estupidez, esquecimento e efeitos de habituação

Desde que o público se habituou lentamente às imagens inicialmente perturbadoras da Ucrânia e os relatos de crimes de guerra quase deixaram de provocar protestos, Neuber & Cª parecem agora não ter inibições: Estão a ser publicados textos30 que apelam com relativa abertura à capitulação da Ucrânia e se esforçam por estabelecer pontos de contacto ideológicos entre o movimento de coligação radical de direita dos pensadores transversais31 e o movimento pela paz. Quanto mais tempo durar a guerra, maior será o entorpecimento do público – e maiores serão as probabilidades de estes produtos de decomposição de uma esquerda regressiva com tons castanhos serem capazes de vender a sua estupidez reaccionária e imperialista. Especialmente porque o seu constrangimento no início da guerra está agora a ser esquecido. Qualquer disparate dito por um Harald Neuber (o homem dos media que pensava que os preparativos para a guerra eram uma campanha mediática) é apenas a antecipação das suas excreções mentais vindouras!

Telepolis é apenas um exemplo particularmente gritante deste espectro de uma pós-esquerda regressiva, que tem os seus megafones em folhas anti-imperialistas ortodoxas como o Junge Welt e no espectro de frente transversal de Nachdenkseiten a Rubikon – e ocasionalmente toma a palavra em folhas como o ND, o Freitag e o Berliner Zeitung. Muitas vezes estes são antigos „anti-imperialistas“ que agora actuam de facto como imperialistas. E, na verdade, antigos „anti-imps“ serem mutantes em propagandistas do imperialismo é apenas consequente na esquerda alemã, na qual os sociais-democratas fizeram passar os maiores cortes sociais da história do pós-guerra com Hartz IV, e em que o partido pacifista dos Verdes permitiu que se travassem guerras de agressão contra o direito internacional, como o ataque à Jugoslávia (1999).

O momento trágico de um constructo de frente transversal como a Telepolis, em que uma editora de TI financia uma balbúrdia castanha-avermelhada32 de trolls de Putin vindos dos escombros do „Partido de Esquerda“ entretanto em aberta decomposição33 , é apenas que parece tornar impossível qualquer crítica séria à actual política de guerra do Ocidente e da RFA.

Um movimento de paz radical, que também reflicta sobre as causas sistémicas desta guerra imperialista e que as aborde numa práxis transformacional, é simplesmente necessário para a sobrevivência.34 Evidentemente, a perigosa lógica de escalada35 desta guerra com a potência nuclear Rússia tem de ser quebrada: as entregas de armas ocidentais, a atitude intransigente da NATO no período que antecedeu a guerra, o papel da extrema direita ucraniana, a duplicidade de critérios do Ocidente, a histeria de guerra nos media com o seu retrato unilateral dos acontecimentos da guerra – tudo isto ofereceria uma oportunidade de mobilização com base em pontos de partida concretos, para uma rejeição geral da guerra manifestada num grande movimento pela paz. E, ao mesmo tempo, isto parece ser impossível, uma vez que é água para os moinhos da pós-esquerda putiniana, que está a acastanhar na sua decadência e parece agir como uma quinta coluna do imperialismo russo – e, de facto, age como sua empresa de propaganda.

E há também o simples facto de a Rússia ter iniciado a guerra, o que faz com que o velho pacifismo não dê em nada. Mesmo que se justifique a questão de saber se a invasão de Putin não foi realmente provocada,36 o facto é que se trata de uma guerra de agressão russa – e a Ucrânia tem todo o direito do mundo de combater esta guerra de conquista. E aqui não há mas nem meio mas. Um pseudo-pacifismo que se encaixa perfeitamente na narrativa de Putin,37 propagado por um meio que, pouco antes da eclosão da guerra, ainda estava a debitar obedientemente a narrativa do Kremlin durante as visitas a Moscovo, está assim objectivamente integrado nas finalidades da guerra imperialista russa. Este putinismo, que instrumentaliza o pacifismo, tem a sua casa política nas partes de uma esquerda regressiva que se deslocaram para a direita,38 que já participaram na formação de tendências de frente transversal durante a crise dos refugiados39 em 2015 e durante a pandemia.40,41

A frente transversal em torno de Wagenkencht, Telepolis, Rubikon e Nachdenkseiten é assim uma espécie de „droga de entrada“ no mundo louco da nova direita. O seu sucesso baseia-se em embalar a ideologia da direita na retórica da esquerda. Objectivamente, a frente transversal funciona como uma correia de transmissão reaccionária, por um lado trazendo ideias de direita para os meios de esquerda, e por outro lado fornecendo à nova direita material humano sempre novo e iludido. O facto de muitos esquerdistas em regressão estarem subjectivamente activos neste espectro por outras razões, tais como „apanhar as pessoas onde elas estão“, não altera a função objectiva das estruturas de frente transversal. Assim, o que é decisivo não é o que estas forças pós-esquerdistas querem, mas o que está objectivamente a ocorrer em termos sociais.

As forças activas nesta „franja de direita“ da esquerda, que já em 2014 estavam a espalhar mitos conspiratórios juntamente com cidadãos-do-Reich e vulgares nazis no movimento delirante das „Vigílias pela Paz“,42 a fim de funcionarem eficazmente como aquecedor de fluxo aberto à direita para os Pegida, estão a aparecer cada vez mais claramente como propagandistas da guerra predatória de Putin na Ucrânia. A retórica de esquerda e os clássicos da esquerda servem aqui apenas como uma mina para a propaganda. A propósito, as „vigílias“ castanhas-avermelhadas, em que, desde Dehm a Elsässer, tudo vai dar em alucinar o mundo como uma eterna conspiração mundial, são agora reinterpretadas postumamente por Neuber na Telepolis como parte do movimento pela paz43 (o seu antigo patrão, o deputado da esquerda Heike Hänsel, já apoiava este movimento de frente transversal em 2014). Esta tentativa estalinista de reinterpretar o passado recente é na realidade apenas consequente.

Belicismo liberal de esquerda

Este meio castanho-avermelhado, que faz todos os esforços por dar razão a posteriori ao discurso burguês da Guerra Fria sobre o totalitarismo, é apenas uma das zonas de transição ideológica em que a esquerda alemã cega pela crise se está a desintegrar, a entrar em dissolução e a aproximar-se de facto da nova direita. Outros processos de erosão estão a ocorrer no espectro da esquerda liberal, ou seja, onde a influência do Partido dos Verdes equilibra a do Partido da Esquerda, e onde as pessoas gostam de se dar rótulos como „emancipatório“. Aqui prevalece um absurdo belicismo agarrado à NATO, que estiliza a guerra na Ucrânia como uma luta entre a liberdade e o despotismo – e não recua sequer perante a apologia do fascismo ucraniano.

A percepção selectiva do conflito por parte deste meio de esquerda liberal, que em tempos se considerou particularmente crítico e esclarecido, há muito que assumiu características orwellianas – estes contextos juntam-se assim à frente transversal de Putin, que já há anos se habituou ao duplipensar do capitalismo tardio, no qual factos e contextos indesejáveis são simplesmente excluídos. Pode-se argumentar que a guerra está a conduzir à brutalização e regressão desta classe média „de esquerda“ a tal ponto que, na sua cegueira, está a espalhar narrativas tão grosseiras e simplesmente infantis como as dos na Alemanha compreensivos-com-Putin na Telepolis e na Nachdenkseiten & Cª – embora do outro lado da frente.

A base do belicismo da esquerda liberal, que descobriu o seu amor pela NATO desde o início da guerra, é a visão absurda de que a guerra pela Ucrânia é um combate de sistemas, em que a democracia e a ditadura estão numa luta fatídica. Gosta-se de invocar os direitos humanos e os valores ocidentais, percebidos em processo de dissolução, e que é preciso defender, como a única coisa que se interpõe entre a democracia e a barbárie asiática de Putin. Independentemente do facto de a democracia burguesa, juntamente com os direitos humanos já capitalistamente deformados, estar em erosão nos centros ocidentais já há décadas, esta imagem de uma luta titânica entre ditadura e democracia só pode ser mantida escamoteando outras partes da realidade.

Não se trata apenas da implementação no exército ucraniano44 e no aparelho de segurança45 de nazis e extremistas de direita de todos os quadrantes, que começou muito antes do início da guerra46 e foi forçada pelo Presidente Zelensky em reacção aos seus esforços de pacificação falhados.47 São também ignoradas as tendências autoritárias48 do regime de Zelensky antes do início da guerra, que mandou prender políticos da oposição pró-russa e proibir estações de televisão russas.49. A guerra civil na Ucrânia, que começou com o pogrom de Odessa51 e foi travada por ambos os lados com grande brutalidade e torturas em massa50 , é interpretada no Ocidente, na melhor das hipóteses, como uma intervenção russa, enquanto sobretudo os jornais liberais trataram o pogrom perpetrado pelos nazis ucranianos contra manifestantes pró-russos em 2014 (que foi o sinal para a guerra civil) como uma catástrofe incendiária, uma espécie de acidente.52

Puerilmente para a guerra nuclear?

A dupla moral orwelliana do centro liberal brutalizado assemelha-se entretanto ao duplipensar orwelliano comum nos círculos leais a Putin, desde a AfD até à franja castanha do Partido da Esquerda (onde Putin será sempre o estadista genial, mesmo sendo responsável por tantos desastres sangrentos). Assim, a Turquia, país da NATO, que com o apoio alemão está a proceder à limpeza étnica da população curda no norte da Síria,53 pode actualmente travar a sua guerra de agressão contra os curdos do Iraque violando o direito internacional, em grande parte sem contestação do Ocidente, ao mesmo tempo que a guerra de agressão russa é publicamente condenada. A questão da co-responsabilidade do Ocidente pela guerra de agressão russa, que foi obviamente favorecida pela posição dura da NATO nas vésperas, é tornada tabu através de uma campanha de denúncia histérica que atribui todas as vozes críticas ao campo do imperialismo putinista de direita (e também aqui são evidentes os paralelos com o putinismo). Tentativas de tematizar a dupla moral são frequentemente descritas como whataboutism, o que pode ser verdade nas discussões na Internet entre os trolls da NATO e os de Putin, mas ao mesmo tempo torna impossível perceber todos os aspectos de uma questão complexa que contradizem a respectiva narrativa ideológica.

Assim tomam o lugar da crítica padrões infantis de legitimação, puro revisionismo histórico e fascistóide apologética nazi. A óbvia recusa do Ocidente em oferecer à Rússia garantias de segurança e neutralidade na Ucrânia no período que antecedeu a guerra,54 que pelo menos proporcionou ao Kremlin um casus belli propagandístico, é de bom grado legitimada com comparações com a autojustificação dos violadores (Teria Putin atacado a Ucrânia mesmo que tivessem sido concedidas garantias de segurança? Nunca saberemos). A Ucrânia é então a mulher atraente, a entrada na Nato a minissaia e a Rússia o violador.55 E tais infantilidades, que transformam os Estados em seres humanos e conseguem instrumentalizar belicistamente tanto as vítimas da guerra como as vítimas da violação, circulam em massa nas redes sociais entre uma classe média arrogantemente ignorante, à qual são alheios os contextos e concepções geopolíticos mais simples, como o das esferas de influência.56 Igualmente idiota e ao mesmo tempo perigosa é a discussão sobre uma guerra nuclear „limitada“,57 que foi conduzida intensivamente sobretudo na fase inicial da invasão russa – e na qual a simples lógica de escalada nuclear foi escamoteada.

Entretanto, a guerra fez cair até as últimas inibições, com os esquerdistas belicistas a moverem-se para minimizar ou banalizar as maquinações actuais da extrema-direita na Ucrânia, bem como os seus modelos fascistas da Segunda Guerra Mundial. Autores que publicam na Konkret ou na Jungle World estão subitamente a agir compreensivamente com os nazis, como já antes os trolls de Putin na Alemanha da frente transversal e da nova direita, que também fazem o seu melhor para negar ou minimizar a fascização da Rússia. Do mesmo modo, chamar à invasão russa uma guerra de extermínio é uma intolerável minimização da guerra de extermínio travada pela Alemanha nazi no Leste.58 É uma ponte para o fascismo na Ucrânia ou na Rússia, reunindo ironicamente os descendentes dos perpetradores e os seus colaboradores ucranianos.

Estes trolls da NATO, que têm os seus órgãos mais importantes da esquerda liberal no Taz59 ou no Zeit,60 mas também escrevem em muitas publicações de esquerda, constituem, numa percepção unilateral do conflito, em certa medida a imagem no espelho dos trolls de Putin – ainda que, especialmente no choque inicial da eclosão da guerra, esta distorção ideológica dos acontecimentos da guerra parecesse menos gritante, uma vez que a Rússia é de facto o agressor neste conflito. O agudo frente-a-frente destes dois campos, que no pântano das cenas reflecte simplesmente a constelação imperialista de guerra na Ucrânia e a divisão das elites funcionais alemãs em atlantistas e eurasiáticos, também abafa à partida qualquer discussão diferenciada sobre a guerra. Cada campo pode acusar as opiniões dissidentes de fornecer munições propagandísticas ao outro lado. Poder-se-ia assim argumentar que a brutalização da nova direita e da frente transversal, induzida pela crise, como resultado da guerra, está a alastrar a grandes partes da classe média. O famigerado fórum Telepolis, outrora o maior poço de trolls da Internet em língua alemã, está agora em toda a parte.

Contudo, na sua maioria, as facções hostis de trolls da NATO e de Putin não estão simplesmente a espalhar algumas mentiras propagandísticas; é antes a percepção unilateral do conflito que caracteriza a percepção de cada lado. Ironicamente, uma percepção complementar das narrativas ideológicas hostis leva a uma aproximação da realidade deste conflito imperialista, que transformou a Ucrânia num campo de batalha sangrento entre os blocos de poder da Oceânia (EUA e UE) e da Eurásia (Rússia e China). A Rússia é um poder oligárquico de Estado e imperialista a caminho do fascismo – usando as velhas insígnias da União Soviética apenas como folclore imperial. Ao mesmo tempo, o Ocidente imperialista está a fazer o seu melhor para se expandir no espaço pós-soviético e para deixar o Kremlin „esgotar-se até ao fim“ no pântano ucraniano para que marchou na sua megalomania imperial.

Dois blocos imperialistas, instáveis devido à crise, estão a lutar pela supremacia no espaço pós-soviético, pelo que a esquerda dificilmente está em posição de formular um ponto de vista crítico, que ficasse fora desta constelação de conflito e pudesse também reflectir criticamente sobre ela. Poder-se-á perguntar se a maioria de tudo o que ainda se vê como „esquerda“ no mundo de língua alemã não se atribui entretanto a um destes dois campos e não é absorvido nesta frente imperialista.61 Assim, uma grande parte da esquerda como força política independente está a evaporar-se na actual guerra neo-imperialista, o que poderá possivelmente marcar o beco sem saída final dos esforços políticos de esquerda imanentes ao sistema.

A única saída para a autodissolução da esquerda neste impasse é a referida reflexão sobre as causas sistémicas da guerra, que não devem ser localizadas numa alegada „irracionalidade“ de Putin nem numa sinistra conspiração americana, mas sim na crise evidente do sistema mundial do capitalismo tardio, que leva os monstros estatais apodrecidos à expansão externa, a fim de fugirem às crescentes contradições e distorções internas. No caso do Kremlin, que teve de abater no seu quintal imperial revoltas na Bielorrússia e no Cazaquistão há poucos meses, esta dinâmica de expansão imperialista induzida pela crise é tão evidente62 como no caso da Turquia islamo-fascista de Erdogan. Mas a crise também está a chegar até ao pescoço do Ocidente, que está a pressionar com toda a sua força no espaço pós-soviético e não quis dar a Moscovo quaisquer garantias de segurança ou neutralidade na Ucrânia: Sob a forma de crescentes montanhas de dívidas, da dinâmica inflacionista que já acelerava antes da guerra,63 e do crescente estrangulamento da oferta.64 É um imperialismo de crise, entendido como luta pela supremacia num sistema mundial em desintegração, que desde Fevereiro entrou na fase quente do confronto militar aberto. Tudo isto se assemelha a uma luta sobre o Titanic ameaçadora para a civilização.

Uma práxis de esquerda progressiva, uma política verdadeiramente emancipatória só seria possível se o processo de crise fosse finalmente entendido como a sua máxima.

A histeria que acompanha a guerra entre o público ocidental deve-se precisamente ao presságio de que este impacto – em contraste com as guerras de ordenamento mundial no Sul global desde a Somália, ao Afeganistão, ao Iraque – já não passará sem deixar rasto nos centros, especialmente na Alemanha. Este choque afectará também a classe média alemã, que reagirá a ele com medo instintivo, com ódio, com brutalização e com uma aceitação rapidamente crescente do uso da violência (seja como trolls de Putin ou da Nato). Uma práxis de esquerda avançada, uma práxis verdadeiramente progressiva só seria possível se fosse finalmente entendida como sua máxima a ultrapassagem desta crise, a luta por uma transformação emancipatória do sistema.

Só então seria possível um movimento radical antiguerra indo às raízes do imperialismo de crise, que já não poderia ser instrumentalizado pela frente de Putin em torno da Telepolis & Cª. Em reacção à crise sistémica do capital, que ameaça encontrar o seu ponto de fuga numa grande guerra ameaçadora da civilização, o movimento antiguerra teria de se ver a si próprio como um movimento de transformação anticapitalista – isto em oposição ao oportunismo dos Verdes e ao pré-fascismo putinista da AfD a Wagenknecht, da Nachdenkseiten à Telepolis.

Transformando-se a crise em guerra, não há alternativa à transformação do sistema, uma vez que o capital está a enfrentar os seus limites de desenvolvimento internos e externos, tanto económica como ecologicamente – a única questão é se o processo de transformação pode ser influenciado numa direcção emancipatória. Pois a maior ilusão, actualmente difundida por círculos de reflexão e peritos geopolíticos no contexto da guerra na Ucrânia, é a suposição de uma ordem pós-guerra, por que se poderia combater no decurso da guerra e que poderia ser estabelecida após o seu fim.

Notas

1 https://www.nd-aktuell.de/…/1068957.alles-alte-ist…
2 https://www.heise.de/…/Querfront-als-Symptom-3952540…
3 https://www.heise.de/…/Putin-unser-der-du-bist-im-Kreml…
4 https://www.heise.de/…/Die-Verbrechen-des-Bill-Gates…
5 https://www.spiegel.de/…/krieg-in-der-ukraine-sahra…
6 https://www.heise.de/…/Russland-Nato-Krise-Entspannt…
7 https://www.heise.de/…/Sputnik-V-wurde-ignoriert-und…
8 http://www.konicz.info/?p=4518
9 http://www.konicz.info/?p=4352
10 https://www.heise.de/…/In-Russland-halten-viele-die…
11 https://www.heise.de/…/im-Grunde-ein-Krieg-zwischen-den…
12 https://www.heise.de/…/Scharfe-Rezession-in-Deutschland…
13 https://www.heise.de/…/Ruesten-gegen-Russland…
14 https://www.heise.de/…/Scharfe-Rezession-in-Deutschland…
15 https://www.heise.de/…/Solidaritaet-als-Ideologie-Die…
16 https://www.heise.de/…/Das-Tragische-am-Bandera-Kult…
17 https://www.heise.de/…/Schwere-Waffen-fuer-die-Ukraine…
18 https://www.heise.de/…/Die-Ukraine-Krise-als-umgekehrte…
19 https://www.heise.de/…/im-Grunde-ein-Krieg-zwischen-den…
20 https://www.heise.de/…/Ukraine-Krise-USA-und-Nato…
21 https://www.heise.de/…/Wie-Kriege-Volkswirtschaften…
22 https://www.heise.de/…/Die-USA-beherrschen-die…
23 http://www.konicz.info/?p=4352
24 https://www.heise.de/…/War-Lenin-schuld-6669705.html…
25 https://www.heise.de/…/Putin-unser-der-du-bist-im-Kreml…
26 https://www.xn--untergrund-blttle-2qb.ch/…/russland…
27 https://www.diepresse.com/…/will-moskau-bis-nach…
28 http://www.konicz.info/?p=4518
29 https://www.faz.net/…/spd-und-russland-die-hannover…
30 https://www.heise.de/…/Egoismus-als-Solidaritaet…
31 https://www.heise.de/…/Die-Corona-Proteste-sind-eine…
32 http://www.konicz.info/?p=4355
33 https://www.diepresse.com/…/ruecktritt-hennig-wellsows…
34 https://www.akweb.de/…/ukraine-droht-atomkrieg-eine…/
35 http://www.konicz.info/?p=4850
36 https://www.msnbc.com/…/russia-s-ukraine-invasion-may…
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Original “Krisenimperialismus und Krisenideologie” in: konicz.info, 26.04.2022. Publicado em untergrund-blättle, 28.04.2022. Tradução de Boaventura Antunes
http://www.konicz.info/?p=4868

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