O preço do fertilizante artificial

O bloqueio do Estreito de Ormuz, a explosão dos preços dos fertilizantes e as alterações climáticas ameaçam desencadear uma crise alimentar mundial. A agricultura do capitalismo tardio depende existencialmente dos combustíveis fósseis e produz não só alimentos, mas simultaneamente as condições da sua própria desestabilização

Tomasz Konicz, 22.06.2026

À primeira vista parece absurdo, mas os habitantes do sistema mundial do capitalismo tardio alimentam-se de certo modo de combustíveis fósseis. Sem os fertilizantes artificiais, que ocupam um lugar central na indústria agrícola, pelo menos desde a chamada «Revolução Verde» na segunda metade do século XX, os rendimentos globais das colheitas – que aumentaram significativamente desde então – sofreriam uma queda acentuada. A maioria dos cientistas concorda que sem fertilizantes artificiais não seria possível alimentar mais de 40 por cento da população mundial.

Três componentes são indispensáveis nos fertilizantes minerais: azoto, fósforo e potássio. Os fertilizantes azotados baseiam-se no amoníaco, obtido a partir do gás natural através do processo Haber-Bosch, que consome muita energia e é responsável por cerca de 3% das emissões globais de CO2. O enxofre, necessário para o processamento da rocha fosfática e do qual depende a produção de fertilizantes fosfatados, é um subproduto da exploração de petróleo e gás. A produção de fertilizantes minerais está assim ligada à exploração de combustíveis fósseis. Cerca de 50 por cento dos custos de produção dos alimentos devem-se actualmente ao consumo de energia da indústria agrícola altamente automatizada. Por isso o aumento dos preços do petróleo faz também subir os custos de produção e distribuição dos alimentos – por exemplo, devido ao aumento do preço do gasóleo.

Os países do Golfo, que agora sofrem com o bloqueio do Estreito de Ormuz, conseguiram nas últimas décadas, no âmbito da sua estratégia de diversificação, tornar-se um importante centro de produção de fertilizantes artificiais e dos seus pré-produtos, bem como um importante centro de transbordo de bens essenciais para a indústria agrícola. Nesta chamada integração vertical, os países produtores de matérias-primas procuram dominar a maior parte possível da cadeia de produção industrial. Com sucesso: cerca de 43 por cento de um dos fertilizantes azotados mais comuns, a ureia, é exportado através do Estreito de Ormuz. Os Estados do Golfo eram, além disso, responsáveis por cerca de 45 por cento das exportações globais de enxofre. Cerca de 30% da produção de amoníaco ocorre na região, sobretudo na Arábia Saudita e no Omã. No total, a região agora bloqueada produz cerca de um quinto de todo o fertilizante utilizado a nível mundial.

De acordo com o Financial Times de Abril, está assim a desenrolar-se actualmente uma crise alimentar global que dificilmente poderá ser atenuada – mesmo que o Estreito de Ormuz fosse reaberto imediatamente. Por um lado, as capacidades de produção nos locais concorrentes da indústria de fertilizantes – como na Rússia e na Bielorrússia – não são suficientemente grandes para compensar estas enormes perdas. A construção de novas instalações de produção levaria anos. A aproximação entre os EUA e a Bielorrússia em Março, que foi acompanhada pela libertação de prisioneiros e pela redução das sanções norte-americanas, visava precisamente promover a produção e a exportação de fertilizantes bielorrussos, a fim de atenuar esta crise de abastecimento.

No entanto, o factor decisivo da crise reside no simples facto de a produção alimentar ser um sector económico sazonal. A época da sementeira e da correspondente aplicação de fertilizantes já chegou ou já passou em muitas regiões do mundo. E em muitas regiões empobrecidas da periferia ou semiperiferia do sistema mundial, os produtores agrícolas simplesmente não têm capacidade para suportar o aumento dos preços dos fertilizantes. Estes dispararam em meados de Abril entre 20% e até 49% no caso da ureia, em comparação com o período imediatamente anterior ao bloqueio do Estreito de Ormuz. Isto significa que será utilizado simplesmente menos fertilizante, o que conduzirá inevitavelmente a uma queda nos rendimentos esperados das colheitas. Quanto mais pobre for a região, maiores serão as perdas nas colheitas.

Particularmente afectada é a África Subsariana, onde os agricultores com poucos recursos financeiros mal conseguem adquirir fertilizantes suficientes para otimizar os seus rendimentos. Os aumentos de preço dos fertilizantes conduzem aqui quase automaticamente a uma redução do seu consumo e, consequentemente, a uma queda nos rendimentos. A nível regional, a dependência dos países da África Oriental – Quénia, Somália e Tanzânia – em relação aos fornecimentos de fertilizantes provenientes da região do Golfo é particularmente elevada, tendo os custos de transporte aumentado até 300 por cento no preço final.

O Sudão, uma entidade pós-estatal devastada, constitui, por outro lado, o epicentro da crise de fome que se avizinha, embora devido à guerra civil: cerca de 21 milhões de pessoas estão lá ameaçadas por insegurança alimentar aguda e cerca de 375 000 habitantes estão a morrer de fome. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, o número de pessoas em situação de extrema pobreza que sofrem de fome aguda poderá aumentar este ano em 45 milhões, atingindo o valor recorde de 363 milhões, devido à guerra com o Irão e ao bloqueio do Estreito de Ormuz. Milhares de milhões de pessoas deverão ser afectadas por um agravamento da situação alimentar, como por exemplo o aumento da desnutrição.

Na semiperiferia do sistema mundial capitalista, a Índia e o Brasil são os países que mais sofrem com a redução das exportações de fertilizantes provocada pela guerra: mais de metade dos fertilizantes importados pela Índia era até agora transportada através do Estreito de Ormuz; no caso do Brasil – um dos principais produtores agrícolas a nível mundial —, essa percentagem era de 45 por cento antes do início da guerra. A Austrália importava até 70% dos seus fertilizantes da região do Golfo. No caso da Índia, o país mais populoso do mundo, a situação é particularmente dramática: a produção nacional de fertilizantes depende em grande medida do gás natural, que actualmente não pode ser transportado pelo Estreito de Ormuz nos frágeis navios-tanque de gás liquefeito, nos quais ataques ou minas marítimas provocariam explosões gigantescas. O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, apelou aos seus compatriotas, no início de Maio, para que reduzissem o consumo de óleo alimentar, o uso de combustíveis fósseis e a utilização de fertilizantes. Dependências semelhantes do gás do Golfo existem também na produção de fertilizantes no Paquistão ou no Bangladesh.

Nos centros do sistema mundial, a situação parece à primeira vista menos dramática: caso o bloqueio se prolongue até ao Verão, estima-se, segundo o Financial Times, que a inflação dos preços dos alimentos nos EUA, que já está estimada em cerca de quatro por cento, possa atingir «valores de dois dígitos». Algo semelhante deverá acontecer na UE. O sector agrícola norte-americano, essencial para a alimentação mundial – cujos trabalhadores, desde que sejam cidadãos norte-americanos, fazem parte do eleitorado-chave de Donald Trump —, já sofre com as guerras comerciais e de direitos aduaneiros do seu presidente de extrema-direita e, agora, também com os aumentos dos preços dos combustíveis e dos fertilizantes na sequência da guerra com o Irão. Só este primeiro factor levou, em 2025, a um aumento de 46 por cento nas falências de explorações agrícolas, em comparação com o ano anterior. Em 2024, os EUA eram o maior exportador de produtos agrícolas, à frente do Brasil, e são líderes no cultivo de milho e soja.

Além disso há ainda o aquecimento global

Estas consequências geopolíticas da crise estão interligadas com a crise climática provocada pelo capitalismo, que tem consequências que minam cada vez mais os fundamentos ecológicos do processo de civilização, apesar de ser agora amplamente ignorada. Entretanto estão a ser batidos em série recordes históricos de temperaturas máximas ou da duração de períodos de seca, como aconteceu recentemente em Março nos EUA, sem que isso seja sequer notado de forma significativa pela opinião pública. A fetichista compulsão de valorização do capital, que arrasta consigo o eterno clamor por crescimento e postos de trabalho, há muito que se impôs na opinião pública face às restrições físicas reais da crise climática – desde Trump até ao Partido da Esquerda.

Os aumentos dos preços dos alimentos nos últimos anos já foram impulsionados, na sua origem, por fenómenos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes e prolongados, como secas e chuvas torrenciais, que são característicos da crise climática manifesta: São afectados o cacau em África e na América do Sul, o azeite na Europa, os legumes no oeste dos EUA, o arroz no Japão, as cebolas e as batatas na Índia – os fenómenos climáticos extremos têm-se multiplicado na última meia década.

Neste contexto os Estados Unidos encontram-se actualmente numa seca primaveril sem precedentes na história, que abateu cerca de 60 por cento da área agrícola útil. O sudeste dos EUA foi particularmente afectado, sobretudo o Alabama, a Geórgia e a Flórida, onde os agricultores, devido aos elevados custos do gasóleo e dos fertilizantes, chegaram a suspender a sementeira, assim como o Centro-Oeste, cuja área de cultivo de trigo, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA, deverá este ano diminuir para o valor mais baixo desde 1919, com a consequente redução da colheita. No Kansas e no Oklahoma mais de 40% da área de cultivo de trigo encontra-se assim em «mau ou muito mau estado».

Na UE, após anos de secas prolongadas, a situação não é muito melhor: quase metade das áreas de cultivo está ameaçada pela seca, e mais de 17% encontram-se mesmo em situação de seca aguda. Quase todos os Estados-Membros da UE, bem como o sudeste do Reino Unido, estão afectados em maior ou menor grau. Após uma escassez histórica de chuva em Março e Abril, a Polónia surge como um foco de seca, onde os rendimentos das colheitas deverão sofrer uma forte queda devido à baixa humidade do solo. O mesmo se aplica ao leste da Alemanha, ao sudeste da Europa, à Espanha e à França. De facto a Europa encontra-se numa fase prolongada de seca – a crise climática é uma realidade.

Em Abril, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) alertou que os períodos de «calor extremo», cada vez mais frequentes, estavam a levar o sistema alimentar global à beira do colapso. Além disso prevêem-se novos choques climáticos a curto e médio prazo. De acordo com as previsões científicas, o fenómeno El Niño deste ano poderá revelar-se particularmente intenso. Neste contexto, as massas de água no Pacífico oriental aquecem a um ritmo acima da média, o que pode provocar secas nos países ribeirinhos do Pacífico ocidental, na África do Sul ou na região amazónica, enquanto na América Latina ocidental pode causar inundações – com as consequências que daí advêm para os rendimentos das colheitas. A seca extrema em muitas regiões do mundo já levou a que os incêndios florestais devorem uma área florestal cada vez maior de ano para ano.

A longo prazo, a Corrente do Golfo, que se encontra a enfraquecer e faz parte da Circulação de Reversão Meridional do Atlântico (Atlantic Meridional Overturning Circulation, AMOC), deverá constituir um dos factores de crise climática mais graves na Europa e na América do Norte. Estudos científicos confirmaram a velha regra da ciência climática, segundo a qual as previsões mais pessimistas são, na maioria das vezes, as que melhor reflectem a realidade climática. A Corrente do Golfo transporta águas quentes das Caraíbas para o Atlântico Norte, onde estas descem lentamente e fluem de volta para sul, como numa escada rolante, o que confere à Europa o seu clima relativamente ameno – em comparação com a mesma latitude, por exemplo, na Sibéria. O derretimento da calote glaciar da Gronelândia ameaça enfraquecer esta circulação, que já se encontra a enfraquecer e que se baseia nas diferenças de densidade entre a água salgada e a água doce, devido ao aporte de água doce; segundo estudos, tal poderá ocorrer já no final deste século. No entanto, o factor de incerteza é elevado. As consequências seriam fortes perturbações climáticas, como a queda da temperatura e a desertificação – especialmente na Europa Ocidental –, às quais o sistema agrícola tardocapitalista, já em declínio, dificilmente conseguiria adaptar-se.

Capital versus Clima

O capital, na sua ilimitada compulsão de valorização, não é apenas a causa da crise climática, como se torna evidente pelo aumento das emissões de CO2, que acompanha quase paralelamente o crescimento económico global. O aumento da produtividade da máquina de capital agrícola não conduz, de forma alguma, à preservação dos solos e recursos agrícolas remanescentes, mas sim à construção de um sistema agrícola não só ecologicamente devastador, como também prejudicial à saúde, que reagiu, por exemplo, à explosão das rendas de milho com a invenção e disseminação do xarope de milho com alto teor de frutose (HFCS), um concentrado de açúcar que substituiu o açúcar comum na produção alimentar e que é considerado um dos responsáveis pela epidemia de obesidade nos EUA.

A orientação da produção alimentar com base no objectivo irracional e autotélico de obter os rendimentos mais elevados possíveis torna o sector agrícola cada vez mais instável e vulnerável a crises: monoculturas, esgotamento dos solos, baixa variabilidade genética da população de animais de criação e a erradicação quase total da população de insetos em muitas regiões agrícolas de cultivo intensivo são as consequências.

A crise climática é, em dois aspetos, uma crise climática capitalista: o capital causa e agrava as consequências sociais da sua crise ecológica. Todos estes factores acima referidos aumentam a vulnerabilidade do sistema às crises, o que na verdade torna necessária uma rápida mudança de rumo. Até mesmo o Financial Times reconheceu isto, tendo-se pronunciado a favor de uma reviravolta rumo a uma agricultura sustentável, na qual as monoculturas seriam substituídas por rotações de culturas. Seria igualmente necessário um maior recurso a fertilizantes naturais, bem como dar prioridade à «saúde do solo» em detrimento de aumentos de rendimento a curto prazo. A isto acrescentar-se-ia a necessária remissão generalizada da dívida para todos os países da periferia, que serão particularmente afectados pela crise alimentar que se avizinha.

A probabilidade de tal reorientação reformista num capitalismo em fase terminal – que, não só na Alemanha, reage à sua crise manifesta com um recurso cada vez maior à ilusão do crescimento baseado nos combustíveis fósseis – ficou bem patente na mais recente grande reforma agrícola da UE de 2020, que, apesar de algumas concessões ecológicas marginais, manteve os fundamentos da agricultura até então: 25 por cento dos subsídios agrícolas da UE foram condicionados à participação dos agricultores em medidas climáticas, tendo sido deixada aos Estados-Membros, em grande medida, liberdade para definir o que entendem por «programas climáticos». Isto é, sem dúvida, menos do que uma gota no oceano: segundo a Agência Federal Alemã do Ambiente, as emissões na agricultura da UE diminuíram mais lentamente (menos 25% entre 1990 e 2023) do que a média da sociedade em geral (menos 36% no mesmo período). A nível global as emissões de CO2 continuam a aumentar.

Original “Der Preis des Kunstdüngers” in konicz.info, 21.06.2026. Antes publicado em Jungle World, 2026/22. Tradução de Boaventura Antunes

https://jungle.world/artikel/2026/22/blockade-strasse-von-hormuz-weltweite-nahrungskrise-der-preis-des-kunstduengers
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