Notas sobre o retorno apalhaçado do imperialismo norte-americano nu e cru no fim dos tempos do capital
Tomasz Konicz,, 13.01.2026
«Vivemos num mundo, no mundo real, Jake, que é governado pela força, que é governado pelo poder… Estas são as férreas leis do mundo desde o início dos tempos.»
Stephen Miller1
Após cerca de uma hora, o teatro imperialista absurdo que a administração Trump encenou a 3 de Janeiro, por ocasião da sua agressão bem-sucedida contra a Venezuela,2 acabou por se desmoronar. O discurso de Trump sobre o petróleo que agora seria explorado, sobre não tolerar concorrência no quintal dos EUA, tudo isso poderia ainda sustentar a narrativa fascista da Casa Branca, segundo a qual os EUA teriam de subjugar novamente o «seu» hemisfério ocidental por meio do simples uso da força militar. Mas essa performance perdeu toda a consistência, derivou para o psicadélico irracional, quando o presidente, que há muito parece uma sátira real do «Grande Ditador» de Charlie Chaplin, foi questionado sobre os motivos do perdão a Juan Orlando Hernandez, ex-presidente de Honduras, que cumpria uma longa pena de prisão por tráfico de droga.3
O apalhaçado show de terror de Trump
Hernandez foi tratado injustamente e «perseguido» por Joe Biden, tal como «um homem chamado Trump», disse Trump. Isso torna o traficante de droga da América Central e o presidente dos EUA praticamente companheiros de destino. «Eu, eu, eu» – de repente, durante alguns minutos, tudo volta a girar em torno de Donald Trump e da grande injustiça que lhe foi infligida com a sua derrota eleitoral. Ninguém ri, todos permanecem sérios e profissionais – e quanto mais a cobertura dos media se distancia desta conferência de imprensa grotesca, mais séria parece a palhaçada que ali foi encenada. Os mass-media conseguem «profissionalizar» essa apresentação, encobrindo a loucura de Trump com interpretações bem-intencionadas, a CNN4 e o New York Times (NYT)5 chegam a legitimar a intervenção dos EUA em Caracas.
Mas a loucura fascista, que se revela abertamente em toda a sua irracionalidade e desejo de morte, já não se deixa intimidar – ela quer o horário nobre. Ao longo de toda a sua vida profissional, Trump surfou na grande onda do dinheiro num dos sectores mais infames e semimafiosos dos EUA, o sector da construção civil. E Trump mostra que, depois disso, só resta um coto de ser humano. A casca vazia que o capital deixa para trás, a casca narcisista do sujeito, só pode imitar a compulsão de valorização do capital, que se manifesta em pura megalomania – e é provavelmente isso que atrai os milhões de pessoas devastadas pelo capital que votam em Trump. Olham-se no espelho e vêem o seu próprio narcisismo e megalomania insatisfeitos. É tudo sobre mim, sempre – até à presidência ou até ao massacre6 (e por que não ambos?).
Trump, assim como grande parte do seu gabinete, lembra a figura da Internet do palhaço do terror, que em 2016 desencadeou uma onda de imitações, por vezes violentas.7 Os traços de caráter patogénicos e limítrofes de Trump – assim o quer o espírito do mundo obviamente sádico do capitalismo tardio – personificam o irracionalismo manifesto do capital, que, no seu colapso evidente, ameaça arrastar o processo de civilização para o abismo.8 E são precisamente esses malucos fascistas, esses palhaços do terror da extrema direita, que, como sujeitos políticos, executam esse processo objectivo de destruição.
Washington é um circo de aberrações, ridículo e repugnante (assim como Berlim etc.), que ao mesmo tempo é extremamente sério e perigoso, pois essas aberrações comandam a maior máquina militar do mundo e milhares de ogivas nucleares, incluindo sistemas de lançamento. Os palhaços do terror americanos reagem de forma mais sensível quando alguém realmente zomba deles. Isso vale tanto para o presidente dos EUA quanto para os seus milicianos de extrema direita da ICE.
Esquemas, esquemas, esquemas
A infantil ostentação imperialista de Trump concentrou-se na acção militar quase perfeita, mas o verdadeiro trabalho sujo foi aparentemente realizado com eficiência devastadora pelos serviços secretos dos EUA, provavelmente pela CIA, antes da acção. Aparentemente o chefe de Estado venezuelano Maduro foi simplesmente vendido aos EUA para evitar um conflito militar aberto – e é bastante óbvio quem traiu o presidente da Venezuela. Foram os actores governamentais que agora estão dispostos a cooperar com os EUA, como a ex-vice-presidente Delcy Rodríguez, que fez generosas doações a Trump9 e já sucedeu Maduro.10
A propósito: Maduro, que também tem uma tendência para cenas apalhaçadas à la Trump, é ele próprio um imperialista frustrado. Há dois anos ameaçou invadir a vizinha Guiana, rica em petróleo,11 para desviar a atenção da devastadora situação económica do país antes das últimas eleições. E esta é uma bem conhecida lógica de poder, que pode ter motivado a intervenção imperialista de Trump – que enfrenta inflação persistente e escândalos de pedofilia – contra Maduro.
A CIA tinha, em todo caso, um entendimento melhor das estruturas de poder da Venezuela do que os apoiantes da velha esquerda de Maduro, recrutados principalmente do espectro anti-imperialista. Os serviços secretos americanos viam um regime corrupto, formado sobre as ruínas da antiga tentativa socialista na Venezuela – e cujos governantes estavam interessados principalmente em rendimentos estáveis para os seus próprios comparsas. O «Estado» venezuelano não é um bloco monolítico, mas uma aliança facilmente quebrável de esquemas criminosos que se apoderaram do aparelho estatal em erosão para prosseguir os seus interesses particulares. Esta forma de decadência da dominação estatal, em que o Estado perde a sua função de capitalista global ideal, é característica de grande parte da periferia e semiperiferia do sistema mundial capitalista tardio. O processo de crise económica, que de certo modo deixa o aparelho estatal à deriva, na sua fase final também se estende aos centros, incluindo os EUA de Trump, que já se transformaram numa pura e simples oligarquia fascista.
Quando a CIA olha para a Venezuela, ela está, de certa forma, a olhar-se no espelho, para o futuro próximo dos EUA. Por isso, foi fácil para os serviços secretos orientarem-se na situação local e accionarem as alavancas correspondentes. É fácil entender: a pressão militar, as sanções e, por último, os actos de pirataria contra petroleiros aumentaram a pressão, ao mesmo tempo que foram enviados sinais de potencial cooperação a Caracas. O resultado militar deste trabalho de sabotagem dos serviços secretos: helicópteros militares americanos puderam voar tranquilamente até a capital da Venezuela, sequestrar o presidente, assassinar dezenas de seus guarda-costas cubanos12 e, com excepção de alguns tiros esporádicos de defesa antiaérea, transportar o chefe de Estado sem serem incomodados, enquanto as autoridades venezuelanas apelavam à calma e à ordem.
Projecto de regime em vez de mudança de regime
O que se destaca claramente aqui é um desenvolvimento da prática imperialista de crise pelos fascistas da Casa Branca, que odeiam os antigos neoconservadores e seus planos de democratização. Os EUA não estão promovendo uma mudança de regime na Venezuela; a acção poderia ser descrita mais como um projecto de regime, como a “formação” – às vezes cinética –, a modelagem de um regime de acordo com os interesses americanos. A combinação de pressão e violência visa enfraquecer as forças oposicionistas dentro do aparelho estatal, enquanto os que estão dispostos a cooperar e as redes de influência são fortalecidos com incentivos.
O conjunto poderia ser descrito como Lean Management imperialista, em que não é mais necessária uma presença militar directa no local – como na sangrenta mudança de regime dos neoconservadores no Iraque. Ataques pontuais contra grupos recalcitrantes, combinados com incentivos selectivos para os grupos que simplesmente querem enriquecer na estrutura de poder corrupta – é nisso que se resume a nova forma de agressão imperialista, que agora está a ser testada na Venezuela. A alavanca central do poder é militar: é a possibilidade de os EUA, através de actos de pirataria, impedirem a exportação de petróleo da Venezuela à vontade. A torneira do petróleo pode ser fechada se Caracas não obedecer.
Mas a nova estratégia de reforma do regime também implica que, por enquanto, não pode haver novas eleições – Washington precisa de oferecer às redes de corrupção dispostas a cooperar no aparelho estatal venezuelano uma perspectiva que permita, pelo menos, uma transição ordenada. Representantes da administração dos EUA deixaram rapidamente claro que, por enquanto, não haverá novas eleições na Venezuela. E também a história absurda de Trump, segundo a qual o presidente dos EUA negou seu apoio político à ganhadora do Prémio Nobel Machado porque ela não cedeu o prémio a seu favor, tem, portanto, uma racionalidade interna ao imperialismo de crise (essa grotesca situação está a atingir o auge, já que Machado agora quer ceder o Prémio Nobel da Paz a Trump para ter chances de se tornar presidente da Venezuela – Machado quer trocar o seu Nobel pela presidência).13
Além disso, o governo Trump está a expressar cada vez mais abertamente a sua afinidade com o fascismo vulgar. Washington quer retomar a tradição dos golpes de Estado sangrentos e fascistas da CIA durante a era da Guerra Fria na América Latina, em vez da retórica democraticamente revestida de mudança de regime, que se estabeleceu durante as guerras da ordenamento mundial ocidental a partir dos anos 90.
Regional e imperial
Entretanto debate-se abertamente quais serão os novos alvos da máquina de guerra imperialista de Washington. A agressão contra a Venezuela foi simplesmente demasiado bem-sucedida; isto é a ruína de toda a região. Washington ganhou gosto pela coisa, os fascistas na Casa Branca sentiram o gosto do sangue. Eles perceberam como o escândalo de pedofilia das elites funcionais dos EUA rapidamente passou para segundo plano. Na verdade todos os países latino-americanos que não são governados por governos de direita estão ameaçados. Trump já ameaçou a Colômbia, e o seu ministro das Relações Exteriores declarou abertamente que Havana deveria se preocupar. A presidente moderadamente esquerdista do México foi ameaçada, assim como o Panamá, cujo canal Trump quer voltar a controlar directamente.
Trump está simplesmente a concretizar a sua visão de um império pan-americano,14 como ameaçou no início do seu segundo mandato. A hegemonia global dos EUA em erosão, que Trump está a liquidar em nome de um nacionalismo antiquado, está a ser substituída pela mera dominação, pelo direito do mais forte, com base militar. As fantasias bizarras que o chefe de Estado americano exibia no início da sua presidência devem tornar-se realidade.15 Washington reivindica domínio absoluto em todo o hemisfério ocidental. Por um lado, Trump quer monopolizar amplamente o acesso dos EUA aos recursos e fontes de energia da região. Por outro lado, deve ser minimizada a influência de potências concorrentes na América Latina, especialmente da China e da Rússia.
A estreita cooperação da Venezuela com Pequim, Moscovo e Teerão deve ter contribuído para a concretização da opção militar contra Maduro. O sinal enviado a todo o hemisfério ocidental é claro: no futuro, Washington pretende, pelo menos, uma suspensão parcial da soberania dos Estados da América Central e da América Latina. Trump vê a América Latina novamente como o quintal imperial dos EUA, à semelhança da postura imperialista de Putin em relação ao espaço pós-soviético. Até agora, apenas o Brasil foi poupado às ameaças militares directas de Washington.
Mas isso pode mudar muito em breve, como ilustra o exemplo da Gronelândia. Ainda eufórica com o seu triunfo imperialista sobre Caracas, quando a maioria dos chefes de governo da UE concordou, pelo menos implicitamente, com essas agressões descaradas, Washington declarou abertamente que pretendia tomar posse da Gronelândia. Se necessário, contra a vontade da Dinamarca e da UE, se necessário com força militar. As reivindicações a este respeito das primeiras semanas do segundo mandato de Trump devem agora ser rapidamente concretizadas. Ao mesmo tempo que Bruxelas e a zona económica sul-americana Mercosul concluem o seu acordo de livre comércio após intermináveis negociações, Trump entra em rota de colisão não só com a UE, mas também com a NATO, cuja existência futura o presidente dos EUA subordina deliberadamente à tomada da ilha ártica.16
Impulso global de barbárie
O seu império pan-americano, que deve se estender literalmente da Gronelândia à Terra do Fogo, é mais importante para Trump do que a NATO, que foi um instrumento obsoleto da hegemonia americana. E a União Europeia é simplesmente o elo mais fraco na cadeia dos centros do sistema mundial agora directamente afectados pela crise global do capital. Isto aplica-se não só em termos militares, mas sobretudo devido à multiplicidade de interesses estatais dentro desta zona económica e monetária, que podem ser facilmente jogados uns contra os outros por Washington.
Uma frente europeia unida para defender a Gronelândia – tal é o absurdo da realidade do capitalismo tardio – dificilmente existirá. Sobretudo a Alemanha, antiga campeã mundial de exportações, deverá bloquear medidas de retaliação decisivas – não só militares, mas também económicas – contra os interesses dos EUA na Europa (uma confrontação militar directa pela Gronelândia é, de qualquer modo, ilusória), para não perder ainda mais quotas de mercado a oeste do Atlântico.
E enquanto não tiverem consequências significativas a temer, os fascistas na Casa Branca continuarão com essa estratégia de escalada – até porque estão cada vez mais sob pressão interna. É assim que se apresenta o fim da hegemonia dos EUA, provocado pela crise, depois de Washington deixar de estar disposta a suportar os custos dessa hegemonia. Um gigante armado até aos dentes e liderado por um fascista megalomaníaco com traços de personalidade borderline passa a impor directamente os seus interesses, enquanto os rudimentos da ordem pós-guerra são destruídos.
A primeira semana de 2026 mudou assim o mundo de forma fundamental. Em termos geopolíticos, já nada é como era antes. Não há retorno ao status quo ante. Mesmo que as instituições e estruturas criadas após a Segunda Guerra Mundial como consequência dessa era de confronto entre blocos permaneçam por enquanto, elas tornaram-se definitivamente meras farsas. O mesmo se aplica aos instrumentos institucionais da hegemonia americana em declínio: Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e NATO. A NATO, a aliança militar mais poderosa da história mundial, passou de facto à história.
No lugar das alianças e dos sistemas hegemónicos estáveis ao longo de décadas, entrará agora a política de poder nua e crua, executada por monstros estatais cada vez mais dispostos a correr riscos, em constelações voláteis e em constante mudança. A disposição de assumir riscos cada vez maiores e empreender aventuras militares resulta do processo de crise, cujas crescentes distorções internas levam as elites funcionais do capital à expansão externa. Este instável imperialismo de crise já traz em si a grande guerra.17
Devido à crise mundial do capital, que atingiu a maturidade histórica, o impulso de barbárie global que agora se inicia não é simplesmente um retorno ao imperialismo do século XVIII ou XIX, uma vez que este se expandiu militarmente numa fase histórica de expansão do capital. O actual imperialismo de crise – que se desenvolve numa fase de contracção global do capital – obriga de facto os Estados a entrar em conflito, em última instância, a entrar em guerra uns contra os outros, a fim de transferir as consequências da crise para a concorrência. O mundo capitalista tardio está realmente a tornar-se um «covil de ladrões».18 Até mesmo um social-democrata cego como o presidente federal Steinmeier encontrou uma pitada de verdade.
Em movimento rápido do imperialismo para o fascismo
O endurecimento ideológico do imperialismo para o fascismo ocorreu historicamente ao longo de várias décadas: da segunda metade do século XIX até ao fim da Primeira Guerra Mundial, a catástrofe seminal do século XX. Actualmente esse endurecimento está a ocorrer quase em movimento rápido. As ambições imperiais dos fascistas na Casa Branca são agora acompanhadas por uma retórica fascista evidente – já não são necessárias justificações. A força motriz por trás desta revelação fascista é Steven Miller,19 o chefe de gabinete adjunto de extrema-direita da Casa Branca, considerado um «conselheiro confidencial» (NYT) de Trump.20
Miller, considerado um dos arquitectos da política de deportação dos EUA e da transformação do ICE numa milícia fascista ao serviço de Trump, deu uma entrevista à CNN pouco depois do sequestro de Maduro e das ameaças à Gronelândia, na qual se recusou categoricamente a seguir a retórica liberal da mudança de regime pró-democrática.21 Miller, cuja administração está a destruir violentamente os escassos vestígios civilizacionais da ordem pós-guerra, recorreu às habituais projecções de extrema-direita, declarando que o sistema mundial capitalista tardio é caracterizado pela mera violência. Segundo Miller, que expressou abertamente o seu ódio pela ordem pós-guerra, os EUA podem, portanto, usar a violência em qualquer lugar para impor os seus interesses, porque têm os meios para isso.
Os recursos da região, as intervenções imperialistas, territórios como a Gronelândia – segundo o fascista Miller, os EUA podem reivindicar ou tomar posse de tudo isso, porque têm o poder militar para o fazer. Não se trata mais de uma questão de direito, mas de meras fontes de poder militar. E é precisamente isso – a adoração do uso da violência bruta – que é um elemento central da ideologia fascista. Na sua crise manifesta, o sistema mundial capitalista tardio está, de facto, a recuar para trás das conquistas da Paz de Westfália após o fim da Guerra dos Trinta Anos.
Steven Miller – um fascista excêntrico, um palhaço do terror que lembra a paródia de Goebbels no filme «O Grande Ditador», de Chaplin, e que não tem nada a dizer na Casa Branca? De modo nenhum. Poucos dias após a aparição de Miller na CNN, Donald Trump concedeu uma entrevista ao New York Times (NYT), na qual seguiu de facto a linha geopolítica do seu conselheiro político de extrema-direita.22 Nada impede o uso da força militar pelos Estados Unidos, declarou o presidente ao NYT, que justificou abertamente o seu ataque à Venezuela num comentário, usando as habituais frases liberais.23 Segundo o palhaço do terror da Casa Branca, só há um factor que pode influenciar a máquina militar dos EUA: «A minha própria moral, o meu próprio espírito. É a única coisa que me pode parar».
Miller e Trump concederam entrevistas aos poucos media liberais odiados que ainda restam da fascização dos EUA, nas quais confrontaram o belicismo liberal com uma retórica fascista aberta. Tornaram-nos cúmplices. O poder nu, a violência deve ser adorada, exige respeito. Todo o verniz liberal-democrático se desgastou, e o extremismo fascista do centro mostra precisamente a esse centro em decomposição, a antiga corrente neoliberal dominante, de onde ele realmente vem, onde tem a sua origem. A aprovação, por vezes abertamente expressa, da agressão imperialista de Trump contra a Venezuela deve, portanto, ser embaraçosa não só para os europeus.
Maduro ridicularizou Trump e, segundo uma das loucas histórias da Casa Branca, isso teria sido o factor decisivo para a intervenção sangrenta em Caracas. JD Vance já alertou os europeus para que «levem a sério» Trump e as suas loucas divagações sobre a Gronelândia.24 O poder fascista espalha-se ostensivamente, convidando à oposição para poder esmagá-la com toda a brutalidade. Esse é um elemento do condicionamento autoritário – o súbdito deve se ajoelhar, mesmo diante de um louco palhaço do terror. Os palhaços do terror da Casa Branca exigem bajulação permanente, querem ver bajuladores por toda a parte, por mais ridículos que pareçam – como se tivessem saído de um sonho febril induzido por drogas. Caso contrário, são dados exemplos: sejam chefes de Estado rebeldes de países periféricos altamente corruptos ou mulheres brancas da classe média americana, que agora são simplesmente abatidas pela ICE-Gestapo se não mostrarem respeito.
Imperialismo de crise em termos concretos
De onde vem toda essa loucura psicadélica? As notícias passam e a gente fica tentada a verificar se não misturaram LSD na bebida. Trump, esse palhaço do terror borderline,25 ele é um sintoma, ele é a personificação da crise mundial do capital em sua fase final, que leva à barbárie. A direita política, o fascismo, são executores concretos e subjectivos dessa tendência objectiva de crise que leva à barbárie, ao colapso da civilização.26
O fascismo não vem do espaço exterior, não é um corpo estranho, ele forma-se no centro da sociedade, é o seu extremismo desencadeado por surtos de crise.27 Encontram-se indícios disso no New York Times e na CNN, que legitimaram o ataque de Trump contra a Venezuela, encontram-se em Macron, em Starmer e no alemão Merz, que não quiseram criticar a evidente violação do direito internacional pelos EUA – até que, poucos dias depois, eles próprios se tornaram alvo.
As crescentes distorções internas, as tensões e contradições, os conflitos sociais crescentes – o que poderia ser mais óbvio do que cortar este nó górdio da crise com ataques militares contra inimigos externos? A crise está literalmente escrita na testa de todos os apoiantes de Trump, na medida em que usam os seus ridículos bonés de beisebol MAGA. A América deve voltar a ser grande, porque já não é grande para camadas cada vez maiores da população dos EUA. Por isso elegeram Trump, que lhes prometeu reverter a desindustrialização dos Estados Unidos através do proteccionismo.28
Como isso não funciona rápido o suficiente para ganhar as eleições intercalares, como a desvalorização do valor já se espalha na forma da «crise do custo de vida», como o abandono da hegemonia dos EUA ameaça a posição do dólar como moeda de reserva mundial, o que leva a uma carga de juros muito alta para o orçamento dos EUA, é preciso encontrar outros métodos para estabilizar a dominação. Trump, que na verdade ainda é um imperialista do século XX, um sujo magnata do petróleo, parece dar tanta importância à exploração directa das reservas de petróleo da Venezuela para consolidar a posição do dólar americano. Os EUA não querem mais arcar com os custos da hegemonia, que contribuíram para a desindustrialização dos EUA na economia globalizada de déficit da era neoliberal, e, ao mesmo tempo, Washington quer manter as suas vantagens, por meio do poder militar e do controle dos recursos.
O mesmo se aplica à apropriação da Gronelândia e à tentativa de anexar o Canadá – é assim que Trump, negacionista climático, reage à crise climática e de recursos, ou seja, ao limite externo do capital, que consiste na finitude dos recursos do nosso planeta, enquanto o capital é impulsionado por uma compulsão de valorização sem fim. Durante a guerra comercial contra a China, Trump percebeu que os EUA são vulneráveis nas suas cadeias de produção e no seu abastecimento de recursos – a Gronelândia deve preencher essa lacuna a médio prazo.
E, no entanto, a opção fascista não vai superar a crise. Embora seja a forma terrorista de crise da dominação capitalista, o fascismo do século XXI – apesar de todo o terror e violência – não será capaz de «ultrapassar» a crise e estabelecer relações de poder autoritárias estáveis. O fascismo do século XX também não conseguiu, tendo inevitavelmente procurado o seu refúgio autodestrutivo na guerra mundial. Mas desta vez também não existe um novo regime de acumulação capitalista, como o fordismo da segunda metade do século XX, que pudesse se impor por meio de uma guerra mundial – especialmente porque o potencial destrutivo dos aparelhos militares simplesmente ameaça a civilização e a crise climática em breve se transformará em uma catástrofe climática.
Todos os «interesses» que o fascismo agora quer impor com toda a força são apenas uma aparência enganosa, por trás da qual se desenvolve o irracionalismo destruidor do mundo do capital em sua agonia. Do dinheiro tem de se fazer dinheiro, toda a sociedade, todo o mundo é apenas material desse movimento fetichista, que só desaparecerá quando tiver destruído completamente a sociedade, que é o material desse movimento, ou quando o capital for ultrapassado de forma emancipatória.
Inerente ao sistema, só resta a queda na barbárie, acompanhada pelas palhaçadas insanas dos palhaços fascistas do terror que executam essa queda. Não há chão debaixo dos pés, tudo está em dissolução, o pânico que em breve se instalará está ao alcance das mãos, pois o próprio valor, como fundamento da sociedade capitalista do trabalho, está em dissolução. A transformação do sistema é inevitável e, até agora, é apenas o fascismo que impulsiona activamente essa transformação objectivamente iminente na direcção da barbárie. Consequentemente, não há outra alternativa para tudo o que resta da esquerda – apesar de toda a regressão e oportunismo – a não ser lutar por um processo de transformação emancipatória,29 contra o imperialismo de crise e, acima de tudo, contra o fascismo do século XXI. A luta pela transformação é inevitável.
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1 https://www.nytimes.com/2026/01/05/us/politics/stephen-miller-greenland-venezuela.html
2 https://abcnews.go.com/International/video/full-press-conference-pres-trump-venezuela-strike-maduro-128872019
3 https://www.spiegel.de/ausland/donald-trump-begnadigt-juan-orlando-hernandez-honduras-ex-praesident-freigelassen-a-e0c97aeb-bf52-4e32-b139-09037b02f358
4 https://www.youtube.com/watch?v=3tbUIJihpLM
5 https://www.nytimes.com/2026/01/05/opinion/trump-maduro-oust-raid.html
6 https://www.telepolis.de/article/Fluchtpunkt-Amok-3263142.html
7 https://www.telepolis.de/article/Das-Terrorspiel-der-Clowns-3453956.html
8 https://www.telepolis.de/article/Donald-Trump-und-die-Zeit-des-Borderliners-3462308.html?seite=all
9 https://www.msn.com/en-us/news/world/how-delcy-rodr%C3%ADguez-courted-donald-trump-and-rose-to-power-in-venezuela/ar-AA1THo68
10 https://www.nytimes.com/2026/01/04/world/americas/trump-venezuela-leader-rodriguez-machado.html
11 https://en.wikipedia.org/wiki/Guyana%E2%80%93Venezuela_crisis_(2023%E2%80%932024)
12 Maduro, que se tornou um risco comercial para a oligarquia estatal na Venezuela, não podia mais confiar no seu pessoal
13 https://www.nytimes.com/2026/01/09/world/americas/trump-venezuela-machado-nobel-prize.html
14 https://www.konicz.info/2025/03/15/alles-muss-in-flammen-stehen/. Português: https://www.konicz.info/2025/03/16/tudo-tem-de-ficar-em-chamas/
15 https://www.konicz.info/2025/03/15/alles-muss-in-flammen-stehen/. Português: https://www.konicz.info/2025/03/16/tudo-tem-de-ficar-em-chamas/
16 https://www.nbcnews.com/politics/congress/chris-murphy-end-nato-alliance-us-annexed-greenland-denmark-rcna253440
17 https://www.konicz.info/2022/06/23/was-ist-krisenimperialismus/. Português: https://www.konicz.info/2022/07/06/o-que-e-imperialismo-de-crise/
18 https://www.sueddeutsche.de/politik/die-welt-wird-eine-raeuberhoehle-bundespraesident-steinmeier-fordert-respekt-vor-internationalem-recht-li.3364936
19 https://www.splcenter.org/resources/extremist-files/stephen-miller/
20 https://www.nytimes.com/2026/01/06/us/politics/stephen-miller-foreign-policy.html
21 https://www.youtube.com/watch?v=kLFkQbPWWDI
22 https://www.nytimes.com/2026/01/08/world/interview-donald-trump-venezuela-ice.html
23 https://www.nytimes.com/2026/01/05/opinion/trump-maduro-oust-raid.html
24 https://www.dw.com/en/greenland-vance-warns-europe-to-take-trump-seriously/a-75442457
25 https://www.konicz.info/2016/12/16/donald-trump-und-die-zeit-des-borderliners/
26 https://www.konicz.info/2024/04/19/e-book-faschismus-im-21-jahrhundert-skizzen-der-drohenden-barbarei-epub/
27 https://www.konicz.info/2025/01/18/die-schluesseluebergabe/. Português: http://obeco-online.org/tomasz_konicz56.htm
28 https://www.konicz.info/2025/06/01/jd-vance-verstehen/. Português: https://www.konicz.info/2025/06/04/entender-jd-vance/
29 https://www.konicz.info/2022/10/12/emanzipation-in-der-krise/. Português: https://www.konicz.info/2022/11/09/emancipacao-na-crise/
Original “Die Herrschaft der Terror-Clowns” in konicz.info, 11.01.2026. Tradução de Boaventura Antunes