A UCRÂNIA NOS TRILHOS DA RÚSSIA

Tomasz Konicz, 20.03.2022

Com proibições de partidos e detenções de jornalistas, Kiev parece estar a caminhar para uma instável ditadura de guerra

O Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky proibiu por decreto muitos partidos de oposição de esquerda ou pró-Rússia na Ucrânia na madrugada de 20 de Março. Segundo fontes pró-russas1, o maior partido da oposição parlamentar, a „Plataforma da Oposição – pela Vida“ pró-russa, que obteve cerca de 13% dos votos nas últimas eleições parlamentares, especialmente no leste do país, é também afectada por esta proibição de partidos. Além deste, há uma série de pequenos partidos de esquerda.

Zelensky justificou a proibição dos partidos com a invasão russa da Ucrânia e os „laços políticos“ que estes grupos e partidos teriam com a Rússia. Os seguintes partidos são afectados pelas proibições (grafia de acordo com a fonte): „Opposition Platform – For Life“, „Shariy Party“, „Nashi“, „Opposition Bloc“, „Left Opposition“, „Union of Left Forces“, „State“, „Progressive Socialist Party of Ukraine“, „Socialist Party of Ukraine“, „Socialists“, „Volodymyr Saldo Bloc“. Os partidos de esquerda acima mencionados são agora tão ilegais como o Partido Comunista da Ucrânia, que já foi forçado à ilegalidade de facto pouco tempo depois do derrube pró-ocidental do governo em 2014. 2

Além disso, o jornalista, blogger e físico Yuri Tkachev foi detido em Odessa pelos famigerados serviços secretos ucranianos SBU. Tkachev tem criticado repetidamente o actual governo nos seus comentários sobre a guerra. Os SBU atrairam recentemente a atenção no início de Março com a execução de um membro da delegação ucraniana às negociações de cessar-fogo, Denys Kireev, que foi acusado de traição.3 Kireev esteve envolvido na primeira ronda de negociações russo-ucranianas em Gomel, Bielorrússia, e alguns dias mais tarde foi morto a tiro pelos SBU quando foi detido.

As proibições não afectam nenhum dos partidos ou milícias de direita ou extrema-direita que se diz terem uma influência crescente4 no aparelho militar e de segurança ucraniano.5 Este poder crescente da extrema-direita dentro do Estado ucraniano evidenciou-se pela última vez em Dezembro de 2021, quando o Presidente Zelensky condecorou um membro líder da organização nazi „Pravy Sektor“ (Sector de Direita), Dmytro Kotsyubail, com a ordem estatal „Herói da Ucrânia“.6 O Sector de Direita foi alegadamente fundamental no pogrom de Odessa de 2014, no qual dezenas de participantes num protesto continuado pró-russo foram mortos por nazis e forças de segurança ucranianas. Centenas de pessoas ficaram feridas no pogrom.7

A repressão domesticamente significativa contra o maior partido pró-russo da Ucrânia, a „Plataforma da Oposição“, começou ainda antes da guerra.8 Durante muitos anos, o espectro político da Ucrânia foi largamente determinado por redes oligárquicas que financiavam „os seus“ partidos ou políticos – e que eram pró-ocidentais ou pró-russos na orientação. O oligarca por detrás da plataforma da oposição pró-russa, Viktor Medvedchuk, que era amigo de Putin, foi preso e colocado sob prisão domiciliária em Maio de 2021. Anteriormente, em Fevereiro de 2021, foram proibidos três canais de televisão em língua russa que Medvedchuk teria alegadamente controlado.9

O actual Presidente ucraniano Zelensky, que fez uma campanha eleitoral anti-corrupção, foi por sua vez apoiado pelo oligarca Ihor Kolomojskyj, que foi um dos financiadores das milícias de direita e de extrema-direita10 – como o famigerado Regimento Azov – após o derrube pró-ocidental em 2014. 11 As proibições e detenções de políticos pró-russos e de estações de televisão são assim, por um lado, uma expressão das habituais lutas oligárquicas e, por outro, uma consequência da ocidentalização geopolítica da Ucrânia, na qual as forças pró-russas foram eliminadas. O Atlantic Council, por exemplo, saudou as proibições das estações de televisão russas na Ucrânia como uma „decisão corajosa“ do presidente ucraniano.12

Contudo, a formação autoritária do Estado ucraniano – e isto foi característico do processo de crise capitalista em muitos países da periferia – anda de mãos dadas com o seu asselvajamento induzido pela crise. As milícias financiadas por Kolomojskyj, por exemplo em Mariupol, têm um elevado grau de autonomia. A região próxima da linha da frente no Donbass foi praticamente considerada o seu território, onde o controlo do poder do Estado central era pouco eficaz e onde estas milícias também exerceram repressão contra as forças dissidentes pró-russas ou simplesmente liberais – por exemplo, durante uma manifestação por ocasião do Dia da Mulher.

No início da sua presidência, Zelensky não conseguiu controlar estas milícias nazis no Leste e persuadi-las a dissolverem-se, de modo a serem mais tarde incorporadas no aparelho de Estado. Sendo formalmente parte do Estado ucraniano, estas forças de extrema-direita parecem estar a contribuir para a erosão do Estado ucraniano que começou depois de 2014, quando as milícias financiadas por oligarcas começaram a aparecer em todo o lado na sequência da queda do governo e da guerra civil.13 E parece que estas milícias fanáticas do combate conseguiram agora acumular influência suficiente para que uma grande parte do espectro político da Ucrânia fosse banida. Quanto mais tempo durar a guerra, mais esta interacção de mobilização autoritária do Estado e erosão interna do Estado progredirá na Ucrânia, tal como se desenrolou anteriormente em Estados periféricos como a Síria, Líbia ou Iraque.

Assim, a Ucrânia está a caminho de uma instável ditadura de guerra, dominada por tendências internas de erosão, o que torna óbvios os paralelos com a situação política na Rússia. As novas leis draconianas sobre os media14 e a repressão decretadas pelo Kremlin no início da guerra, que tornam as meras críticas à guerra puníveis com pesadas penas de prisão15 – têm um carácter pós-democrático. Os ataques públicos de Putin contra os traidores do povo e uma „quinta coluna“ liberal equiparada a vermes, as suas exigências de uma „limpeza“ da Rússia da „sujeira“ das forças da oposição – esta retórica brutal já é fascistóide. Claro que foi escolhida deliberadamente para encobrir o desastre militar do exército russo nas fases iniciais da guerra.

A formação autoritária, que por esta altura provavelmente já deve ser designada simplesmente ditatorial, em que se espalha uma absurda propaganda de guerra e tréguas,16 é acompanhada por tensões crescentes no seio do „poder vertical“ russo, ou seja, o aparelho de Estado russo dominado por oligarquias estatais e redes mafiosas. Entretanto, os principais chefes dos serviços secretos russos FSB estão sob prisão domiciliária – diz-se que por terem fornecido ao Kremlin informações erradas sobre a situação na Ucrânia.17 Sempre a favor de Putin, diz-se que os diferentes camaradas dos serviços secretos se superaram uns aos outros ao fornecerem ao governante do Kremlin as informações que ele queria ouvir antes da guerra: que a Ucrânia não ofereceria qualquer resistência significativa.

Além disso, a Rússia, que é militarmente muito superior à Ucrânia e cujo exército regular sofreu graves derrotas devido à falta de motivação e de organização, tem de contar com actores pós-estatais para alcançar rapidamente o sucesso militar. As milícias nazis ucranianas em Mariupol estão actualmente a ser combatidas pelas tropas mercenárias do homem forte checheno Kadyrov,18 que são apenas formalmente parte das forças russas, quando na realidade actuam como um exército privado de um senhor da guerra integrado na Federação Russa. Milícias e tropas mercenárias, actores militares característicos da estrutura anómica da violência em muitos Estados falhados da periferia, constituem assim as formações mais poderosas da guerra na Ucrânia, que corre o risco de transformar-se numa segunda Síria. Característicos neste contexto são também os esforços de ambos os lados para mobilizar o maior número possível de voluntários ou mercenários de todo o mundo para o seu esforço de guerra. Na sua função de acelerador da crise, a guerra está assim a conduzir a uma convergência de condições na Rússia e na Ucrânia.

1 https://twitter.com/RWApodcast/status/1505354622969524225
2 https://en.interfax.com.ua/news/general/215171.html
3 https://en.interfax.com.ua/news/general/807707.html
4 https://www.belltower.news/militaerorden-centuria-und…/
5 https://www.illiberalism.org/far-right-group-made-its…/
6 https://pravyysektor.info/…/dmytro-kocyubaylo-geroy…
7 https://www.lto.de/…/2014-odessa-42-tote-buergerkreig…/
8 https://consortiumnews.com/…/how-zelensky-made-peace…/
9 https://www.dw.com/…/ukraine-zelenskiy-bans…/a-56438505
10 https://consortiumnews.com/…/how-zelensky-made-peace…/
11 https://www.kyivpost.com/…/reactions-in-ukraine-to…
12 https://www.atlanticcouncil.org/…/analysis-ukraine…/
13 https://www.streifzuege.org/…/oligarchie-und…/
14 https://www.tagesschau.de/…/russland-gesetz-fakenews…
15 https://de.euronews.com/…/kritik-an-russischen…
16 https://twitter.com/martin_camera/status/1504187727897636869
17 https://meduza.io/…/2022/03/11/from-bad-intel-to-worse
18 https://twitter.com/200_zoka/status/1504821084721405957

Financio o meu trabalho jornalístico em grande parte através de donativos. Se gostar dos meus textos, é bem-vindo a contribuir – quer através de Patreon, quer por transferência bancária directa após consulta via e-mail: https://www.patreon.com/user?u=57464083

Original „Ukraine auf Russlands Spuren” in: www.konicz.info, 20.03.2022. Tradução de Boaventura Antunes

Ukraine auf Russlands Spuren

Die Kommentarfunktion zu diesem Beitrag wurde deaktiviert.