O APETITE VEM COMENDO

nd, 28.02.2022 (Tradução de Boaventura Antunes)

Quais são os objectivos de guerra da Rússia na sua invasão da Ucrânia?

Antes da invasão russa da Ucrânia, as forças armadas ocidentais estavam intrigadas com a distância que o Kremlin iria percorrer na sua última e maior aventura militar até à data. A narrativa espalhada por Moscovo no período que antecedeu o ataque, segundo a qual a população do Donbass teria de ser evacuada devido a uma iminente ofensiva ucraniana, deu origem à suspeita de que a Rússia queria ocupar o leste de língua russa do país. O reconhecimento por Moscovo das regiões separatistas de Luhansk e Donetsk, nas suas fronteiras administrativas com a Ucrânia, fez com que vários cenários parecessem prováveis: desde a limitação do ataque ao Donbass e à Ucrânia oriental, ao estabelecimento de uma ligação meridional entre a Crimeia e o Donbass ao longo do Mar Negro, até uma grande ofensiva para conquistar as áreas a leste do Dnieper.

O curso da invasão russa até agora, (1) por outro lado, aponta claramente para um maximalismo que visa derrubar o governo, para a mudança de regime em Kiev. A utilização de meios militares esmagadores no início da invasão, (2) que se destinava a paralisar o exército ucraniano à maneira das tácticas americanas de „choque e pavor“, está de acordo com um objectivo de guerra que faz lembrar a abordagem dos EUA no Iraque. Com a sua ofensiva em grande escala, a Rússia também quer assim provar que está militarmente em pé de igualdade com as grandes potências ocidentais.

Os avanços das unidades do exército russo não só tiveram lugar no Donbass e no nordeste, na região à volta de Kharkiv e Sumy, mas também a partir do sul, da Crimeia, onde as unidades do exército russo já passaram pelo Dnieper perto de Kherson numa direcção oeste após combates – com o objectivo provável de Odessa. O ataque das tropas russas da Bielorrússia, conduzido através da zona de exclusão de Chernobyl, é a indicação mais importante da desejada mudança de regime em Kiev, onde as forças especiais russas estiveram activamente envolvidas em combates de rua. A capital ucraniana, apesar dos reveses militares para as tropas russas, já é considerada em grande parte cercada. Ainda assim, parece provável que Moscovo possa contentar-se com menos do que um derrube do governo, se as tropas ucranianas conseguirem atrasar ainda mais o mal organizado esforço de invasão russa em torno de Kiev.

Até agora, a Rússia não conseguiu capturar uma única grande cidade ucraniana, e o uso excessivo de meios militares nas cidades – como durante a guerra da Chechénia – não se concretizou até agora na Ucrânia. Isto pode mudar após os reveses militares. O curso posterior das operações militares, especialmente no que diz respeito a quaisquer batalhas urbanas com grandes perdas, terá uma influência decisiva sobre os objectivos de guerra da Rússia, que se adaptará ao curso da operação. Como é sabido, é comendo que vem o apetite pela conquista imperialista – os objectivos do Kremlin dependem simplesmente do sucesso ou do fracasso da invasão russa.

É apenas contra o pano de fundo deste cálculo imperialista que a retórica contraditória do presidente russo, que na realidade apenas algumas pessoas compreensivas com Putin na Alemanha tomam à letra, adquire uma certa lógica de poder. As declarações do Kremlin servem sobretudo para manter todas as opções em aberto no decurso da corrida aos armamentos. À recusa do Ocidente em exigir a neutralidade da Ucrânia, que era o ponto central da disputa antes da guerra, sobrepõem-se exigências de „desnazificação“ da Ucrânia e do seu extenso desarmamento. A invectiva de Putin, apelidando os líderes ucranianos de „nazis“ e „drogados“ e apelando ao seu derrube, alterna-se com sinais de vontade de negociar. (3)

Assim, após um longo esticar da corda, o Kremlin concordou em negociar com Kiev em Gomel, Bielorrússia. O objectivo mínimo russo, que é impedir a Ucrânia de aderir à NATO, (4) parece na realidade ser realizável. Numa entrevista com o jornal russo Kommersant, publicada a 26 de Fevereiro, Wendy Sherman, Secretária de Estado Adjunta dos EUA, deixou claro que Washington apoiaria a neutralidade ucraniana. Washington „alinhará com qualquer solução“ que a Ucrânia decida adoptar a este respeito, disse Sherman.

Dependendo do curso da guerra, Moscovo tem uma escolha de opções que podem ser realizadas em diferentes variações: a anexação de grandes partes da Ucrânia oriental, predominantemente de língua russa; o estabelecimento de entidades estatais fictícias segundo o modelo das „repúblicas populares“ de Donbass; a instalação de um regime pró-russo; ou mesmo a secessão da Ucrânia ocidental, onde as forças nacionalistas e de direita são de facto fortes.

Os objectivos concretos da guerra do Kremlin estão assim em movimento, dependendo da evolução militar na Ucrânia e da situação política na Rússia. Os reveses das tropas russas perto de Kiev e Kharkiv contrastam com o rápido avanço na russófila Donbass e no sudeste da Ucrânia, onde o Dnieper já foi alcançado e foi conquistada uma ligação terrestre entre a Crimeia e Donbass – com Mariupol cercada. Se não for encontrada uma solução diplomática nos próximos dias, Putin, que está encostado à parede tanto a nível interno como a nível geopolítico, terá de tomar uma decisão tendo em conta os crescentes reveses militares: ou uma escalada militar, até ao confronto nuclear com o Ocidente, a fim de impor uma mudança de regime com toda a brutalidade, ou aceitar o risco de perder o poder em caso de derrota.

No entanto, surge outro paralelo entre a tentativa russa da mudança de regime na Ucrânia e a invasão do Iraque pelos EUA: como é sabido, os EUA conseguiram ganhar rapidamente a guerra contra o decrépito exército iraquiano, mas perderam a paz numa longa guerra civil, ao não serem capazes de reverter o colapso do Estado iraquiano. O exército ucraniano, que alcançou êxitos espectaculares em batalhas urbanas, não tem qualquer hipótese contra a máquina militar russa em combates abertos fora das áreas urbanas, mas uma guerra de guerrilha prolongada, como seria provável em particular numa Ucrânia ocidental ocupada, empurraria a Rússia para o limite das suas capacidades militares e financeiras muito mais rapidamente do que no caso dos EUA.

A invasão de Putin à Ucrânia pretendia também demonstrar a nova força militar da Rússia – a este respeito a guerra já está perdida para Moscovo – mas é sobretudo um sintoma da fraqueza económica e geopolítica de Moscovo. A Rússia, que está cada vez mais atrás dos centros ocidentais em termos económicos e funciona no mercado mundial principalmente como fornecedor de matérias-primas, não está em posição de impedir a Ucrânia de entrar no campo ocidental por outros meios que não os militares. Os objectivos de guerra dos imperialistas no Kremlin – pois é o que Putin é, tal como os seus concorrentes ocidentais – também revelarão nas próximas semanas se Moscovo está consciente desta sua própria fraqueza.

Original “Der Appetit kommt beim Essen. Welche Kriegsziele verfolgt Russland bei seiner Invasion der Ukraine?” in “Neues Deutschland” 28.02.2022. Tradução de Boaventura Antunes

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