Canibais do Capital

O potencial disruptivo do desenvolvimento da IA já se manifesta claramente na crescente instabilidade dos mercados financeiros nos EUA

Tomasz Konicz, 23.03.2026

Os mercados financeiros estão actualmente a ser impulsionados – além da guerra no Irão – por duas grandes preocupações relacionadas com a ascensão do sector da IA: por um lado, o receio de que o potencial de produtividade dos Large Language Models (LLM) e dos agentes de IA tenha sido sobrestimado e os seus custos subestimados no contexto da habitual formação de bolhas especulativas. A construção demorada da infraestrutura, a sua rápida obsolescência e os custos operacionais muito elevados – o cálculo económico sóbrio destes factores ganha lentamente peso na análise de um sector em que ainda nenhuma grande startup opera de forma rentável. Por outro lado, cresce o receio das consequências da revolução da IA, caso esta venha a impor-se mesmo que apenas parcialmente. Que sectores económicos ou modelos de negócio serão engolidos pela nova forma de organização, em grande parte automatizada?
A Anthropic e a Open AI não geram lucros, acumulam enormes prejuízos, apesar de já terem derretido centenas de milhares de milhões de dólares. Essas injecções de capital terão de prolongar-se por muito tempo: a Anthropic planeia tornar-se rentável a partir de 2028, a Open AI a partir de 2030. O sector encontra-se ainda na sua fase de expansão, na qual o número de utilizadores dos serviços deve crescer o mais rapidamente possível, mesmo com elevadas perdas financeiras, para depois reduzir os custos operacionais e aumentar os preços para os utilizadores. Segundo estimativas, mesmo as assinaturas de IA existentes acumulam perdas enormes, como no caso da assinatura Claude AI da Anthropic, com um preço de cerca de 200 dólares, mas custos operacionais estimados em 5 000 dólares por unidade. O cálculo dos investidores é que os avanços tecnológicos e os efeitos de escala tornarão este modelo de negócio rentável.
Contudo, ao contrário de anteriores avanços tecnológicos no sector das TI, a utilização em massa dos LLM e agentes de IA não gera efeitos de escala correspondentes, uma vez que o seu consumo energético representa um factor de custo demasiado pesado. Além disso, a dispendiosa construção da infraestrutura para uma utilização generalizada da IA está a avançar a passos lentos. Apesar dos bons resultados operacionais, o grupo de TI Oracle é considerado o proverbial canário na mina da indústria da IA: a empresa está altamente endividada e assumiu compromissos contratuais onerosos no valor de mais de 500 mil milhões de dólares – sobretudo para novos centros de dados.
Entretanto multiplicam-se as notícias sobre projectos cancelados: a Oracle e a OpenAI desistiram da expansão do seu principal centro de dados no Texas, enquanto a Oracle pretende eliminar 30 000 postos de trabalho para angariar fundos para a expansão contínua, uma vez que os bancos norte-americanos estão a restringir o financiamento. Os centros de dados da Microsoft pretendem rescindir os contratos de arrendamento com a OpenAI. A Nvidia relativizou recentemente o seu compromisso de investir 100 mil milhões na OpenAI. Entretanto os custos económicos e políticos dos centros de dados aumentam. No ano passado foram abandonados 25 projetos nos EUA; segundo estimativas, a conclusão de cerca de metade dos centros previstos para 2026 a nível mundial está atrasada, o que é devastador devido à rápida obsolescência no sector. A Oracle está a utilizar chips da Nvidia da geração Blackwell, que em breve ficarão obsoletos. O grupo está a construir «centros de dados de ontem com as dívidas de amanhã», ironizaram os media norte-americanos.
A ascensão do sector da IA desestabiliza ainda mais os fundos de capital privado, já de si em dificuldades. Trata-se menos de investimentos directos em IA – como os impulsionados pela Blue Owl Capital ou pela Softbank – e mais de possíveis efeitos de canibalização dentro das suas carteiras. O seu modelo de negócio consistia frequentemente em adquirir empresas de software e orientá-las para a maximização do lucro. A gigante do sector, a Blackstone, está actualmente a negociar com a Anthropic uma joint venture que visa integrar o seu modelo de IA, o Claude, no portfólio da empresa. O objectivo é automatizar processos de negócio e aumentar a produtividade.
É precisamente aí que reside o risco. Muitas das soluções de Software-as-a-Service (SaaS), que se tornaram o padrão de TI nas empresas na última década – e cuja ascensão foi impulsionada pelos próprios fundos de capital privado –, podem tornar-se obsoletas devido à IA generativa. Especialmente preocupados ficariam fundos de investimento concorrentes, como o Thoma Bravo ou o Vista Equity Partners, que se especializaram na aquisição desses fornecedores. Os fundos enfrentam assim um dilema: se apostarem consistentemente na IA, arriscam a «canibalização» dos seus próprios mercados. Se não o fizerem, correm o risco de ficar para trás na concorrência de mercado, como noticiou recentemente o canal de economia norte-americano CNBC.
Os fundos que popularizaram o princípio SaaS poderiam assim tornar-se eles próprios o acelerador de um verdadeiro apocalipse do software, que se está a antecipar na queda das cotações de muitas acções de TI. Ao mesmo tempo o sector das sociedades de financiamento e investimento em geral está a entrar em dificuldades: os bancos estão a financiar aquisições de empresas com mais cautela e pesos pesados como a Blackrock tiveram de limitar temporariamente os pagamentos de fundos individuais, depois de os investidores terem retirado capital de forma intensificada. Os investidores privados têm sido os principais impulsionadores do boom da IA. Se o mercado arrefecer, o sector sentirá imediatamente as consequências – tanto através de falências como de histórias de sucesso canibais.

Original “Kapitale Kannibalen” in konicz.info. Antes publicado em Jungle World, 19.03.2026. Tradução de Boaventura Antunes
https://jungle.world/artikel/2026/12/kapitale-kannibalen

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