O coeficiente de estupidez da esquerda

A estupidez é o melhor aliado do oportunismo de esquerda – a actual crise mais uma vez torna isso evidente.

Capitalismo ou morte? Numa entrevista publicada em Dezembro de 2019, o famoso marxista norte-americano David Harvey deixou claro, com uma franqueza deprimente, aquilo em que a teoria de Marx pode rapidamente degenerar, quando soberanamente ignora a crise sistémica durante décadas e consequentemente não forma um conceito adequado de crise. (1) Revolução? Uma „fantasia comunista“, já não estamos a viver no século XIX. O capital é “too big to fail”, é demasiado necessário, por isso não podemos permitir o seu colapso. Por outro lado, as coisas teriam de ser „mantidas em movimento“, pois caso contrário „quase todos morreríamos à fome“. É preciso até investir tempo para o „reanimar“, diz Harvey. Talvez se pudesse trabalhar lentamente numa reconfiguração gradual do capital, mas um „derrube revolucionário“ é algo que „não pode e não deve acontecer“ – e até se deve trabalhar activamente para garantir que isso não aconteça. Ao mesmo tempo, o marxista de cátedra observou finalmente que o capital se tinha tornado „demasiado grande, demasiado monstruoso“ para sobreviver. Estaria num „caminho suicida“.

Lá está novamente o famoso médico de esquerda no leito de doente do capitalismo suicida, vendo-se obrigado a procurar à pressa explicações para a crise sem qualquer teoria da crise digna desse nome, e só conseguindo nomear „desigualdade social“, „alterações climáticas“ e uma crítica algo chã do crescimento como factores reificados da crise que está a assumir dimensões verdadeiramente monstruosas, sem sequer suspeitar das suas causas nas contradições internas da relação de capital, que está a esbarrar nos seus limites internos e externos de desenvolvimento. Este quadro miserável torna evidente, como que sob uma lente ustória, a miséria teórica e prática de uma esquerda obstinada e realmente conservadora, que não só ignora a teoria da crise, mas também trabalha diligentemente pela sua denúncia e marginalização como „ideologia de colapso“. E, na verdade, Harvey fornece o deprimente esquema para o curso de tal degeneração ideológica – que leva ao oportunismo e ao reformismo.

A actual crise económica, desengatilhada pelas medidas de combate à pandemia, está a assumir dimensões nunca vistas desde a década de 1930. Milhões de pessoas já estão a passar fome nos EUA, embora nenhuma das „revoluções“ temidas por Harvey lá tenha ocorrido. A crise climática passou o ponto de não retorno, como a vaga de calor deste ano na Sibéria deixou claro. No entanto, a esquerda é dominada por um neoleninismo arcaico, que vê apenas interesses em acção em todo o lado e pede constantemente o cui bono, ou, consequentemente, um mero pensamento redistributivo social-democrata, no qual se procura uma distribuição „justa“ do fardo da crise – sem sequer considerar as causas da actual catástrofe, que deve apenas ser „administrada“ na administração social-democrata da crise. Isto vai até ao grande palavreado social-democrata, como „justiça climática“.

Parece francamente que a teoria da crise é particularmente marginalizada na esquerda imediatamente antes do surto de uma crise. Neste caso, as aparências também não iludem. A crise sistémica não é um acontecimento pontual, mas sim um processo histórico de crescente contradição interna do capital que se desenvolve em surtos, capital que, devido à racionalização da sua própria substância por meio da concorrência, se desfaz do trabalho criador de valor e faz surgir tanto uma humanidade economicamente supérflua como um mundo ecologicamente devastado. Os surtos cada vez mais intensos em que a crise se manifesta são assim precedidos por uma longa fase latente, em que se acumula o potencial de crise resultante da autocontradição do capital, principalmente sob a forma de montanhas crescentes de dívida ou de bolhas do mercado financeiro, que ainda permitem ao sistema uma espécie de ilusória vida zombie.

Superficialmente considerado, o capitalismo „vai funcionando“ nestas latentes fases ascendentes de formação de bolhas; não há fenómenos de crise manifestos enquanto as bolhas de acções, de dívida ou de imóveis continuarem a crescer alegremente, e a criar uma procura financiada pelo crédito para a produção de mercadorias que está a ser asfixiada pela sua própria produtividade – por isso já não há crise para a curta consciência rotineira de esquerda, tudo corre o seu curso capitalista comprovado. Pode-se voltar às boas e velhas verdades, e deixar de pensar nelas por algum tempo. Especialmente porque regiões inteiras, devastadas e abandonadas pelo capital durante estes surtos de crise, começando na periferia e chegando aos centros, são simplesmente reificadas passado algum tempo (graças ao trabalho preparatório da indústria cultural), são congeladas numa „nova normalidade“, e já não são percebidas como resultado de um processo histórico de crise. Os gregos são indigentes, os „árabes“ vivem em Estados falhados etc.

Com base nisso, esta mesquinhez da esquerda, esta falta de vontade de abandonar o amado inimigo que é o capital, pode agora ser reduzida a uma fórmula excepcionalmente adequada ao seu estúpido objecto, a um coeficiente de estupidez da esquerda, que poderia funcionar como um indicador precoce de um novo surto de crise: O grau de marginalização da teoria da crise na esquerda alemã é proporcional ao grau de desenvolvimento latente do surto de crise que se avizinha. Pouco antes da próxima crise, ninguém na cena quer ouvir falar de qualquer crise.
Não é só a estupidez que faz a grande maioria da esquerda tropeçar de modo particularmente ignorante na próxima crise, de tal maneira que a nova direita alemã, com os seus forçados planos de subversão dentro e fora do aparelho de Estado, tem agora uma „consciência de crise“ mais pronunciada (que tem de ser criada primeiro). Trata-se também dos egos ressentidos dos protagonistas no interior da cena, que não podem admitir ter dito disparates durante anos, negando o carácter fetichista e irracional da socialização capitalista, e banindo a essência do capital como sujeito automático para o reino dos mitos, para continuar a perseguir na mera superfície os famosos interesses, que só têm a sua tacanha racionalidade interna dentro do movimento fetichista e irracional do capital.

O cui bono leninista envergonha-se também na crise climática, que ameaça não só a civilização humana, mas também as bases de negócio do capital. São precisamente as elites funcionais do capital que procuram literalmente refúgio em bunkers, em ilhas isoladas ou, em perspectiva, em Marte (Musk) e na Lua (Bezos), porque elas próprias estão impotentes face à dinâmica destruidora do capital na sua capacidade global como sujeito automático – e porque os aparelhos de Estado já não estão em posição de agir como „capitalistas totais idealistas“ e assegurar a continuidade do sistema através de medidas legislativas apropriadas, uma vez que, em última análise, com uma legislação climática consistente, o movimento de acumulação entraria em colapso. Uma redução global significativa das emissões de CO2 só foi conseguida até agora à custa de uma crise económica mundial (2009), como ficou claro recentemente na sequência do „lockdown“. As novas manifestações da direita contra as medidas para a pandemia foram, a propósito, uma caricatura do neoleninismo levada à sua conclusão lógica, onde era realmente desesperada a procura dos „interesses“ concretos e dos elementos na sombra que teriam deliberadamente provocado a actual crise.

O íntimo impulso da esquerda de querer voltar às „raízes“, de se concentrar de novo na luta pela distribuição no interior do capital, constitui afinal uma reacção à diarreia da nova direita. Quer-se contrariar as simples mentiras fascistas com verdades simples sobre capitalistas omnipotentes – e interpreta-se, por exemplo, a crise de sobreacumulação resultante da crise do sistema como uma mera questão de distribuição, que será resolvida pela expropriação (leninistas) ou pelos impostos (socialistas). Mas as crescentes lutas de classes a que estas correntes se referem são apenas a expressão das crescentes lutas pela distribuição, induzidas pela crise, no decurso das quais não surge uma nova classe proletária, mas sim a produção de uma humanidade economicamente supérflua, já quase completa na periferia do sistema mundial, e que também avança nos centros. A crescente miséria no capitalismo tardio apenas reflecte as condições do capitalismo inicial.

Porque é que este movimento de crença no Estado, na sua maioria absurdo e anacrónico, é tão bem sucedido, apesar de a crise ter agora atingido um tal grau de maturidade que mesmo os seus antigos negadores já não podem evitar incorporar fragmentos da teoria da crise nas suas ideologias social-democratas ou leninistas, formando verdadeiros constructos-Frankenstein? Aqui trata-se realmente de perguntar agora pelo cui bono. A estupidez, o narcisismo e a cegueira ideológica formam uma boa base para o único movimento no interior da esquerda que tem um real interesse em marginalizar a teoria da crise: o oportunismo. As forças que vêem a esquerda como um bilhete para uma carreira na coligação vermelho-vermelho-verde, e que na realidade já estão a praticar para fazer passar razões de Estado, têm de marginalizar ou domesticar todo o „discurso da crise“ que – ao contrário do debate sobre a distribuição – simplesmente não é compatível com o negócio político em que há quem pretenda tornar-se qualquer coisa.

O que resulta de uma teoria de crise consequente? A ultrapassagem do capital como totalidade autodestrutiva é simplesmente necessária para a sobrevivência. O sujeito automático em amoque, deixado à sua fetichista dinâmica própria, completará a destruição do mundo já posta em marcha. Esta máxima da experiência de esquerda da crise não é, portanto, negociável. Não há alternativa à tentativa de transformação emancipatória do sistema. Mas como é possível vender isto nos meios de comunicação social ou na política, nas negociações de coligação ou no talk show? Com a marginalização da consciência radical da crise, o oportunismo ainda pode esperar emular o Sr. Harvey, tentando uma oportunidade como médico junto ao leito de doente do capital, o que, em última análise, equivale a tornar-se sujeito da administração da crise que se avizinha. É uma lógica de „salve-se quem puder“ em pânico, que confere ao oportunismo a sua particular brutalidade, na última grande corrida ao cargo e ao lugarzinho. Uma vez que bunkers ou ilhas privadas não estão disponíveis, procura-se refúgio nos aparelhos de Estado em erosão e asselvajamento, o que também constitui a base da fé crescente no Estado em partes da esquerda – antes dar cartas no aparelho do que ter de aguentar fora dele.

(1) Disponível em: http://democracyatwork.info/acc_global_unrest

Original Der linke Blödheitskoeffizient. Dummheit ist der beste Verbündete des linken Opportunismus – dies macht der aktuelle Krisenschub mal wider evident in: https://www.exit-online.org, 10.12.2020. Tradução de Boaventura Antunes

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