Tempo de curandeiros

Uma visão polémica dos esforços de adaptação da ideologia capitalista em tempos de crise climática manifesta.

Tomasz Konicz, Boaventura Antunes

„A ideologia não se sobrepõe ao ser social como uma camada destacável, mas mora no ponto mais íntimo do ser social“.
Adorno, Dialéctica Negativa

Perante a crise climática, a confiança da humanidade no capitalismo como o melhor de todos os mundos possíveis está a derreter-se ainda mais depressa do que os icebergues e os glaciares do Ártico. É „um resultado alarmante“ o que revelou um inquérito global abrangente sobre a confiança na ordem económica capitalista, afirmou em Janeiro de 2020 uma porta-voz da „empresa de comunicação“, Edelman. (1)
No âmbito do „Barómetro da Confiança“ anual, no qual 34 000 pessoas de 28 países são questionadas sobre a sua confiança na economia capitalista, pela primeira vez uma maioria dos inquiridos (2) expressou uma opinião predominantemente negativa sobre a economia de mercado. A Alemanha está na tendência global crítica do capitalismo. O sistema tem mais desvantagens do que vantagens – esta opinião também foi partilhada por 55% dos participantes no inquérito na Alemanha. Apenas 12% dos alemães disseram que iriam beneficiar de uma economia em crescimento.
O inquérito não esclarece o que os cidadãos alemães interrogados compreendem concretamente do capitalismo, uma vez que, ao mesmo tempo, cerca de 75% afirmaram que o seu empregador era o „parceiro mais fiável“. Para os autores do estudo, contudo, esta ambivalência não foi motivo para dispensar o aviso explícito de uma crise de legitimidade do capitalismo, uma vez que, perante a crise climática e as „mudanças tecnológicas“, as pessoas procuram respostas às „grandes questões“, segundo uma porta-voz da empresa: „No entanto, como a economia ainda não deu respostas suficientes, cada vez mais pessoas estão a questionar o próprio sistema capitalista“.
Esta crescente „procura de respostas“, que está a fazer soar sinais de alarme à empresa de comunicação Edelman, é uma reacção ao agravamento da crise sistémica sócio-ecológica, que está a ocorrer na interacção do limite interno (3) e externo (4) da capacidade de desenvolvimento do sistema mundial capitalista; por outras palavras, a incapacidade de o capital contrariar eficazmente a produção de uma humanidade economicamente supérflua e, ao mesmo tempo, a devastação ecológica do planeta.
Apesar de toda a constante propaganda ideológica, a maioria da população mundial está agora a aperceber-se de que o sistema social em que é obrigada a viver é a causa dos crescentes e simplesmente catastróficos fenómenos de crise (5) que todos os anos aumentam de intensidade (6).
Esta emergente crise de legitimidade do sistema capitalista mundial aumenta na indústria dos media a procura de novos padrões de legitimação, por novas narrativas ideológicas com as quais o sistema possa ser justificado. A crise climática manifesta, em que o capital queima continentes inteiros em nome de uma automultiplicação sem limites (7), é também a grande época de novas ideias e padrões de argumentação, com os quais se pretende legitimar a falsa totalidade, apesar de todas as catástrofes. O presente tempo de crise manifesta é, assim, também o grande tempo dos curandeiros do capitalismo.
Ousar mais capitalismo
O que poderá ainda evitar a queda na catástrofe climática que ameaça acontecer em consequência da compulsão de valorização do capital? A ideologia dominante tem uma resposta: mais capitalismo, é claro! O colunista de negócios do portal de informação alemão mais popular questionou-se assim, (8) em meados de Janeiro, se o capitalismo ainda „nos salvaria“.
Tendo em conta as ligações e os factos óbvios, já não há qualquer tentativa de desviar a atenção das causas da crise climática. Naturalmente, „a culpa é do capitalismo“, explicou o colunista Henrik Müller no seu artigo, porque sem o „desencadeamento da produtividade e a procura do lucro em partes cada vez mais vastas do globo“, a „atmosfera planetária provavelmente não teria aquecido até ao ponto“ em que agora aquece. O que fazer? A lógica ditaria que deveríamos considerar seriamente alternativas sociais para encontrar formas de transformar o sistema.
Mas um professor de jornalismo económico não é desencorajado por algo como a lógica. Assim, Müller vê o mesmo sistema que leva a humanidade à beira do abismo ecológico como a panaceia contra si próprio. O capitalismo, diz ele, é „a melhor esperança na luta contra as alterações climáticas“. Nem o „comportamento moral individual“ nem a política são capazes de salvar o clima mundial, declarou o professor, numa autocensura do pensamento característica dos jornalistas de negócios, que não estão autorizados a ver percursos de acção alternativos para além da loja de alimentos biológicos ou das urnas de voto.
Após as opções de acção terem sido implicitamente limitadas à „moralidade e altruísmo“, é agora solenemente declarado que não é „moralidade e altruísmo“ que é necessário, mas sim „a procura do lucro, a prevenção dos riscos e a regulação“. Transformar um „problema moral“ (como se o desastre dos incêndios na Austrália fosse causado por um défice moral) num „problema económico“ (que as alterações climáticas têm sido desde o início e continuam a ser). Os „mercados de capitais muito mal alinhados“, em particular, teriam aqui um papel central desempenhar, explicou Müller tendo em vista a última reunião de elite em Davos.
Mr. Blackrock, assuma o comando!
Segundo o professor, as elites iriam resolver a questão. Larry Fink, chefe da maior gestora de activos do mundo, Blackrock, escreveu uma carta. Nela, Fink adverte que todas as „empresas e países“ que „não se adaptem às necessidades dos seus participantes nem enfrentem os riscos da sustentabilidade“ seriam punidos pelos mercados financeiros com um „crescente cepticismo“ que se manifestaria em „custos de capital mais elevados“. As empresas que se tornassem „limpas“ teriam agora mais facilidade em ganhar dinheiro porque Mr. Blackrock, que gere sete biliões de dólares do dinheiro dos investidores, as recompensaria com um custo de capital mais baixo, enquanto as empresas sujas enfrentariam desvantagens competitivas. Isto conduziria à „ecologização do capitalismo“, uma vez que as empresas com bens e serviços nocivos para o ambiente se tornariam um risco („stranded assets“), disse o professor de jornalismo económico no melhor de todos os mundos possíveis.
O problema do clima está „no coração do capitalismo“, o sistema está „a mobilizar as suas defesas“. Investidores e reguladores dos mercados financeiros estão agora a exercer pressão porque a crise climática não está apenas a afectar as pessoas e a natureza, mas também – que horror! – a ameaçar a estabilidade financeira. O capitalismo é bom a adaptar-se, diz Müller. Uma vez que os capitalistas preferem investir o seu „dinheiro“ onde este produz „os retornos mais seguros possíveis“, passariam a „defender-se“ das alterações climáticas, pois elas criam „incerteza fundamental“. Viva, vai correr tudo bem. Porquê manifestar-se, organizar-se? Mr. Blackrock, que adora escrever, vai já resolver isso.
Estas observações deixam claro como funciona a ideologia. Não são mentiras chapadas, mas meias verdades, ou distorções da realidade social, que são difundidas – muitas vezes inconscientemente – para efeitos de legitimação. É claro que os capitalistas querem investir o seu dinheiro „em segurança“, mas, ao mesmo tempo, têm de alcançar os maiores retornos possíveis, se não quiserem perder-se na concorrência com outros capitalistas. Esta compulsão mediada pelo mercado para fazer do dinheiro mais dinheiro constitui a compulsão do sistema capitalista para crescer. E é precisamente a isto que o capital não se pode adaptar, nem ultrapassá-lo, sem se negar a si próprio. O capital, como relação social de produção, é precisamente dinheiro que tem de tornar-se mais dinheiro, através do investimento.
Müller apresenta assim apenas os aspectos da esfera financeira que se encaixam na sua argumentação, mas na sua apologia do capitalismo ele ignora a compulsão ao crescimento e à valorização como a essência do capital. E é precisamente contra isto, contra a obrigação inerente de se valorizar, que o capital não se pode adaptar, ou seja, não pode ultrapassá-la sem se negar a si próprio.
Isto também pode ser ilustrado de forma concreta: Os investimentos realizados pelo sector financeiro estão, em última análise, ligados à produção de mercadorias, onde a mais-valia é gerada através da valorização do trabalho assalariado. Por esta razão, as acções de muitos actores financeiros poderosos, que o jornalismo empresarial alemão estiliza como salvadores na crise climática, caracterizam-se por uma esquizofrenia gritante, como mostra o exemplo do JP Morgan. (9) Nas avaliações internas, os economistas do grande banco advertem agora que as alterações climáticas representam uma ameaça existencial para a humanidade. Então, como é que o JP Morgan se adapta realmente a esta „insegurança fundamental“ (Müller)? Será que a indústria financeira „muito repreendida“ está realmente a empurrar a economia para uma reviravolta ecológica?
Ao mesmo tempo, o banco é o maior financiador mundial de projectos de energia fóssil, de acordo com o Guardian britânico. Só desde a celebração do acordo climático de Paris, o JP Morgan forneceu às empresas petrolíferas e de gás cerca de 75 mil milhões de euros para promover os combustíveis fósseis. Enquanto os economistas do grande banco advertem literalmente para o fim da humanidade, tem de se fazer mais dinheiro com o dinheiro, através de investimentos financeiros – o que ilustra de forma flagrante a inerente dinâmica destrutiva e fetichista do capital.
A louca ideia ventilada por Müller, segundo a qual partes do capital poderiam de algum modo superar ou reverter as tendências autodestrutivas do capital, não é nova. Durante algum tempo, o sector dos seguros foi considerado um aliado natural do movimento ecológico, uma vez que era particularmente atingido pela destruição causada pelo aumento de fenómenos meteorológicos extremos, como relatou a Spiegel-Online num artigo publicado em 2007, (10) citando gestores de topo do sector dos seguros, que queriam colocar as alterações climáticas „no topo da agenda“ e defendiam „a redução das emissões de dióxido de carbono e de gases com efeito de estufa“.
Os resultados destas exigências públicas do sector dos seguros para uma protecção coerente do clima são bem conhecidos. Não só as emisões de CO2 continuaram a aumentar rapidamente em todo o mundo desde 2007, como a própria indústria seguradora continua a participar em projectos prejudiciais para o clima – precisamente porque é preciso ganhar mais dinheiro com o dinheiro. A Allianz, por exemplo, apoia a produção de carvão (11) na Polónia, um país que é um dos maiores pecadores climáticos da Europa, ao lado da Alemanha.
Em geral, a ideia de que um alto funcionário económico poderia, através de uma carta ou de uma expressão de opinião, ordenar uma reorientação fundamental da dinâmica de valorização de todo o sistema mundial capitalista, quase por decreto soberano, baseia-se numa sobrestimação absurda dos recursos do poder da casta da alta direcção, cuja subtileza de acção subjectivamente existente consiste apenas na optimização da dinâmica de acumulação objectivamente dada – com tal ideia Müller promove involuntariamente uma personificação da dominação sem sujeito do capital, que está em voga em muitas e agudas ideologias de crise (se assim fosse, o Estado burguês, no seu papel de „capitalista global ideal“, teria a função de impulsionar a reviravolta ecológica em prol da preservação do sistema).
Müller, juntamente com a crença apologética na omnipotência do capitalista, partilha assim a crítica redutora ou a suposta crítica do capitalismo, que só consegue entender o mundo capitalista tardio como uma eterna conspiração mundial. Assim, o jornalismo económico alemão parece ter uma certa tendência para uma redutora apologia do capitalismo, que reproduz como num espelho a redutora crítica do capitalismo muito generalizada, frequentemente derivando para temores de conspiração.
Projecções reformistas
A ideia de que os poderosos actores da esfera financeira irão trazer à razão a „suja“ economia dos combustíveis fósseis foi alargada numa outra variante pelo jornal Tageszeitung (taz) (12), próximo dos Verdes, na disputa sobre as negociações da Siemens com os operadores australianos de minas de carvão, segundo a qual os “investidores institucionais“ amigos do clima, como „fundos de pensões, fundos religiosos ou companhias de seguros“, que pensam a longo prazo, exigem uma mudança ecológica gradual, que até o patrão da Siemens, Joe Kaeser, já não pode ignorar.
Segundo o relatório, „por exemplo, a Axa, a Union Investment, o fundo de pensões da Igreja de Inglaterra ou a Caritas“ tinham-se unido para formar a aliança „Climate Action 100“, que gere agora um total de 35 biliões de dólares e detém „acções da Siemens, BASF, Heidelberg Cement, Daimler, BMW, Eon, RWE, VW e Thyssenkrupp“. A retirada do capital destes investidores institucionais seria „um claro sinal público, também para outras empresas que têm sujidades climáticas nas suas carteiras“, de acordo com o diário taz. Mas, ao mesmo tempo, o taz teve de admitir que estes investidores institucionais dificilmente podem retirar o seu capital, uma vez que „a ideia de tais investidores“ é precisamente „permanecer na empresa para ter uma palavra a dizer“.
Estar lá é tudo! Por conseguinte, é necessário participar para poder intervir de forma criativa, de acordo com a lógica do taz. Quase parece que os fundos de pensões com biliões em carteira estão a fazer uma passagem através instituições capitalistas que são as grandes empresas transnacionais, a fim de as transformar ainda mais ecologicamente por dentro, insistindo que „empresas como a Siemens estão a mudar gradualmente“.
Esta argumentação no Tageszeitung assemelha-se assim a uma projecção reformista. A passagem reformista através das instituições, com a qual a República Federal iria sofrer uma mudança ecológica fundamental, constitui o cerne do projecto político dos Verdes. A ideia ingénua de transformar o capitalismo através de uma participação diligente – e lucrativa –, que já se envergonhou até aos ossos na era do governo vermelho-verde Schröder-Fischer, com a sua guerra de agressão contra a Jugoslávia em violação do direito internacional e com a Agenda 2010, é aqui simplesmente projectada para a esfera económica. Os poderosos actores da economia aparecem assim ao jornalista verde de classe média como potenciais parceiros que realmente quereriam o mesmo.
Estes pontos de vista da folha caseira dos Verdes acabam por oferecer uma visão deprimente da iminente miséria da política climática oportunista de um futuro governo liderado pelos Verdes, onde as pessoas continuam, obviamente, a acreditar na poderosa boa vontade dos grandes actores dos mercados, que um governo só teria realmente de ajudar a revelar-se. Em última análise, brilha aqui uma ideologia oportunista, que, ignorando contradições e conflitos concretos, é capaz de ter alucinações de um interesse comum, de um „bem comum“, sob a forma de uma „política climática“, sacrificando todos os progressos da política climática a um almejado consenso – em forte contraste com a política de confronto de Bernie Sanders e da esquerda americana, que pretendem fazer passar o seu Green New Deal, que poderia ser apenas o primeiro passo numa transformação do sistema, numa luta explícita contra poderosos interesses do capital (embora se deva sublinhar que o Green New Deal não pode constituir um „novo modelo de acumulação“).
Mas, e os poderosos fundos de pensões, de biliões de dólares, que, segundo o taz, estavam a pensar a longo prazo, e estavam agora a tentar levar gestores de topo, como Joe Kaeser, à sanidade ecológica? Estes investidores institucionais encontram-se numa grave crise, (13) uma vez que mal conseguem cumprir as obrigações para com os seus clientes. Esta é uma consequência da política historicamente única de taxas de juro baixas, que foi imposta como apoio à economia em resposta ao último surto da crise – o rebentar da bolha imobiliária transatlântica em 2008. O dinheiro barato pode ter estimulado a economia, mas colocou as companhias de seguros e os fundos de pensões numa posição cada vez mais precária, uma vez que já não conseguem gerar nos mercados de capitais os rendimentos correspondentes ao acordado contratualmente a longo prazo. Já estão a abrir-se aqui buracos de milhares de milhões. (14)
Os fundos de pensões são, portanto, obrigados a assumir maiores riscos e a envolver-se mais nos mercados bolsistas a fim de gerar os rendimentos necessários. A título de exemplo, o Handelsblatt cita o maior fundo japonês, o Government Pension Investment Fund (GPIF), que com „activos de cerca de 1,2 biliões de euros … é um dos maiores fundos de pensões do mundo“. Devido à actual fase de baixas taxas de juro, este fundo „reduziu a sua quota de obrigações do Tesouro de cerca de 60% para 35% e aumentou a sua quota de acções de 24% para 50%“. Mais dinheiro tem de ser feito com o dinheiro, milhões de pedidos de pensões dependem disso – são os rendimentos de vastos sectores da população que dependem disso, e não apenas os lucros de um pequeno grupo de super-ricos e gestores.
Por conseguinte, é preciso muita imaginação para declarar estes debilitados „investidores institucionais“, que têm de aumentar os seus rendimentos custe o que custar, como os protagonistas do capitalismo ecológico, que rejeitariam os negócios lucrativos da Siemens com minas de carvão australianas em prol da sustentabilidade ecológica. Mas este exemplo ilustra também a interacção entre os limites internos e externos do capital, entre a crise económica e a crise ecológica: As crescentes contradições sociais e ecológicas, os crescentes „constrangimentos“, estão a estreitar cada vez mais o espaço de manobra para a protecção do clima.
As coisas boas levam tempo!
Para além da alucinação de que alguns poderosos actores do mercado de capitais – desde Blackrock, à indústria seguradora e aos gestores de fundos de pensões –, como uma espécie de Estado substituto privatizado, tornariam agora o capitalismo „verde“ por um interesse estratégico bem compreendido, o factor tempo desempenha um papel crescente na legitimação do capitalismo tardio. Através de uma percepção selectiva da crise climática em termos de tempo, certas tendências de curto prazo podem ser isoladas, tornadas absolutas ou reinterpretadas, a fim de se poder construir as correspondentes narrativas apologéticas.
O que faz uma comentadora do Süddeutsche Zeitung (15) (SZ), por exemplo, quando as crianças começam a choramingar porque não vêem progressos na luta contra a crise climática e não querem absolutamente morrer no apocalipse iminente? É preciso ter paciência com o sangue jovem e impetuoso. Afinal de contas, as coisas boas levam tempo. Em resposta às queixas da destacada activista climática Greta Thunberg, na última reunião de elite em Davos, segundo as quais „praticamente nada“ aconteceu na questão climática nos últimos meses, porque as emissões globais de gases com efeito de estufa continuaram a aumentar, o Süddeutsche Zeitung quis afinal ver „primeiros progressos“.
É evidente que a janela de oportunidade para realizar uma protecção climática ambiciosa pode estar a fechar-se, o que pode ser, „claro, particularmente frustrante para as crianças“, especialmente se considerarmos „o quanto se tem falado de protecção climática neste período desde o início das manifestações das sextas-feiras pelo futuro“. Em todo o caso, Greta não se podia queixar de „não ser ouvida“, disse como mestre escola o SZ, mesmo que essa escuta „não fosse propriamente o mesmo que actuar“.
Ainda assim, não se pode afirmar que „praticamente nada“ aconteceu, esta é uma „visão muito pessimista“ que ignora todas as „coisas notáveis“ que aconteceram nos últimos anos, „especialmente tendo em conta o pouco que aconteceu nas três décadas anteriores“. É certo que os recentes compromissos assumidos pelos Estados e pela UE com objectivos climáticos mais rigorosos não reduziram „nem um grama de CO2“, confessou o renomeado jornal, mas, por outro lado, há que ter em conta que „a protecção climática também não cai do céu“. Isto tem primeiro de ser „cuidadosamente negociado“.
O apelo à paciência baseia-se na simples restrição do horizonte temporal – e contradiz-se a si mesmo. Por um lado, o SZ finge que o problema da protecção do clima só tem estado na agenda política desde que começaram os protestos climáticos do movimento das sextas-feiras pelo futuro. Especula simplesmente com a privação de história do público do capitalismo tardio, cujo horizonte temporal é agora de apenas algumas semanas, devido à contínua irradiação sonora da indústria cultural e à incessante produção de espectáculos. Nada é mais aborrecido do que as notícias de anteontem. No que diz respeito ao jovem movimento de defesa do clima, pode argumentar-se que o seu objectivo só se torna objecto da política com a sua emergência – e, consequentemente, há que ter paciência com o processo político, com o kit de política do clima „escrupulosamente negociado“.
Reduzindo simplesmente o horizonte temporal, o desastroso resultado de longo prazo da política capitalista em matéria de clima, que não conseguiu evitar o aumento extremo das concentrações globais de CO2 e produziu assim literalmente „menos do que nada“, pode ser feito desaparecer. Mas, ao mesmo tempo, o próprio SZ lembra-nos como „pouco tinha acontecido nas três décadas anteriores“ em termos de política climática. Há trinta anos que a casta política capitalista tenta encontrar medidas eficazes de protecção do clima, numa maratona de cimeiras e negociações quase inimagináveis – e, no entanto, nenhuma protecção do clima caiu ainda do „céu“ do Olimpo político. O seu apelo à paciência é levado ad absurdum pelo próprio SZ com a referência à evidente ineficácia da política climática capitalista durante décadas. Poder-se-ia antes perguntar por que devemos esperar? Ou será que três décadas de espera paciente não são tempo suficiente?
Está tudo bem
Afinal o SZ diz aos miúdos do clima que não houve uma política climática capitalista bem sucedida nos últimos 30 anos, e que isso também não acontece neste momento – mas é preciso ser paciente, porque em breve tudo será muito melhor. Palavra de escuteiro! Aqui é de notar a dúvida e o escrúpulo, a má consciência, por assim dizer, nesta transparente apologia escrita realmente com indiferença. A margem direita da opinião publicada na Alemanha, no entanto, desconhece tais escrúpulos.
Na imprensa próxima da AfD, na editora Springer, sempre se gostou de martelar os argumentos. Os factos e os contextos podem afinal ser trabalhados até se construir a „verdade“ alternativa desejada. No caso da crise climática, a resposta, segundo o jornal Die Welt, (16) pode ser simplesmente que tudo está sob controlo. Segundo um comentário publicado no início de Janeiro, a Alemanha conseguiu um „sucesso climático“ que deu um „golpe profundo“ na „política de convicções“ verde. A „primeira redução significativa das emissões de gases com efeito de estufa na Alemanha“ não se deveu aos detalhes do „dirigismo de Estado“ ou duma „política de esquerda“, mas sim a uma „fria concepção económica“.
Ouse mais capitalismo – com isto, o jornalismo empresarial na Springer pensa ter encontrado o remédio patenteado para a crise climática. O que é que aconteceu? No ano passado, as emissões de gases com efeito de estufa na Alemanha diminuíram significativamente pela primeira vez em muito tempo (17), o que leva o Die Welt online a proclamar o fim da crise climática, sendo o comércio europeu de emissões apontado como a patenteada solução impulsionada pelo mercado para ultrapassar a crise climática.
Este relatório jubiloso da frente do clima não só reduz o horizonte temporal para um ano, a fim de ignorar o balanço miserável da política climática da Alemanha nas últimas décadas, que funcionou como um travão da política climática na UE (18), como também ignora o „modelo de negócios“ do campeão mundial de exportações que é a Alemanha, que consiste literalmente na exportação para todo o mundo de motores de alta potência de combustão de combustíveis fósseis. O tempo escasseia – assim, com base no trabalho preparatório ideológico da indústria cultural, o tempo tem de ser completamente reificado, o seu carácter processual retirado, tem de ser dividido em pequenos fragmentos isolados, a fim de erradicar qualquer consciência histórica que proporcione uma panorâmica do desastre em curso da „política climática“ capitalista.
O Süddeutsche Zeitung, com três décadas de política climática fracassada, não conseguiu abalar a sua crença no capitalismo como o melhor de todos os mundos possíveis; o mundo precisa apenas de um ano de reduções regionalmente limitadas nas emissões de gases com efeito de estufa para proclamar a vitória do capital sobre a crise climática. Este „instantâneo“ temporal, que o Welt isola aqui para fazer girar a narrativa de uma superação capitalista da crise climática, anda assim a par com um estreitamento geográfico. As emissões globais continuam a aumentar – e a luta contra a crise climática tem de ser conduzida a nível global, o que um mundo de Estados-nação cada vez mais competitivos, em plena crise do capitalismo tardio, não é capaz de fazer.
Uma indicação empírica clara de que a catástrofe climática poderia ser evitada ou, pelo menos, mitigada seria simplesmente o rápido declínio das emissões globais de gases com efeito de estufa. Uma vez que o capitalismo, com a sua compulsão para crescer e explorar, é fundamentalmente incapaz de o fazer, a „Journaille“ (Karl Kraus) [Kraus juntou aqui as palavras francesas journal e canaille – Nt. Trad.] começou a seleccionar cronológica e geograficamente, para poder construir as „narrativas“ correspondentes.
Esta percepção selectiva por parte do jornal da Springer, que ignora linhas de desenvolvimento e remove acontecimentos isolados do seu contexto, mostra claramente que a ideologia é necessariamente uma falsa consciência inerente às condições sociais. No capitalismo, a política só pode, em última análise, ser formulada a nível nacional, como deixam claro, por exemplo, os conflitos nacionais no seio da UE desde a eclosão da crise do euro. No entanto, foram precisamente os surtos de crise socioeconómica das últimas décadas que levaram ao extremo a pressão da concorrência entre sujeitos estatais, minando assim uma luta globalmente coordenada contra a crise ecológica. O que é necessário, porém, é a promoção de projectos globais, estreitamente coordenados na luta do clima, que só podem ser plenamente realizados fora do âmbito do capital e da nação, no quadro de uma transformação pós-capitalista.
Se a crise climática é demasiado dura, você é demasiado mole!
No entanto, em vez de procurar alternativas sistémicas à crise capitalista do clima, a opinião publicada contém vozes que pregam um endurecimento, por assim dizer. O teor desta narrativa é que não se deve agir fazendo frequentemente referência às dificuldades que as pessoas teriam de suportar na periferia e semiperiferia do sistema capitalista mundial.
As alterações climáticas são um „problema de luxo“, informou a Spiegel-Online (19), por exemplo num artigo em que citava pessoas da periferia que, face às distorções sociais e económicas mais graves nos seus países, prestavam pouca atenção à aceleração das alterações climáticas e, por vezes, faziam parecer que se tratava de um capricho de jovens ocidentais mimados – vozes discordantes, que certamente se encontrariam nas regiões em causa, não eram tidas em conta. Os jovens na Europa manifestar-se-iam diligentemente em prol do clima, mas tal não seria o caso em países como „Gana, Coreia do Sul, Indonésia e Nepal“, onde os protestos ocidentais eram pouco conhecidos ou eram vistos „de forma bastante crítica“, declarou a SPON.
A argumentação que aqui reluz, que também se encontra em muitas variações na rede, joga assim a miséria capitalista – por exemplo na África Ocidental, onde as alterações climáticas ocupam o „décimo lugar“ – contra a crise climática capitalista. As consequências da crise económica, a produção global de uma humanidade economicamente supérflua, devem ser utilizadas como justificação para ignorar a crise climática. Dada a abundância de crises e catástrofes da socialização capitalista, certamente não se poderia também cuidar do „problema do luxo“ do clima – essa a argumentação implícita, que pressupõe sempre uma naturalização do capitalismo. As crianças do Ocidente são simplesmente demasiado mimadas, não suficientemente rijas para que tenham ideias na cabeça, porque já não conhecem as verdadeiras dificuldades da vida – segundo a queixa reaccionária e de pessimismo cultural, que inclui sempre uma ameaça.
É uma espécie de educação para as dificuldades que aqui é pregada, em que este endurecimento crescente contra as convulsões climáticas evidentes é acompanhado por uma dessensibilização que dificulta a percepção atempada das tendências de crise social e ecológica por parte dos sujeitos afectados. Foi precisamente esta educação para a dureza – com referência às dificuldades da luta pela sobrevivência na periferia do sistema mundial do capitalismo tardio – que Adorno identificou no seu famoso ensaio „Educação após Auschwitz“ como um elemento central da realização do fascismo. Quanto mais difícil se torna a sobrevivência em grandes partes do One World capitalista em crise, mais forte se torna esta lógica de endurecimento, que depois leva a correspondentes ideologias de crise da nova direita.
A forma brutal desta argumentação, que no caso do SPON pretende pretende promover ressentimentos e acessos à página de maneira burguesmente domesticada, baseia-se em falsificações e manipulações flagrantes, que podem ser encontradas na rede e que circulam especialmente no ambiente da nova direita. Muitas vezes são utilizadas simples fotomontagens, nas quais uma Greta Thunberg a tomar o pequeno-almoço é contrastada com crianças africanas famintas, (20) a fim de estilizar a protecção climática como um „problema de luxo“ de pirralhos mimados da classe média e construir uma relação causal entre a política climática e a miséria capitalista.
Cria-se assim implicitamente a impressão de que é a própria protecção do clima que impede o capitalismo de ter o seu efeito benéfico em África. O subtexto ideológico, que exculpa a miséria capitalista na periferia, acusando o movimento climático, pode resumir-se aproximadamente da seguinte forma: Se não fossem estas mimadas crianças do clima, a economia também estaria a prosperar fortemente a sul do Sara, e as crianças em África não teriam de morrer à fome.
Aprenda a viver com o fogo!
O apelo para nos recompormos e não nos queixarmos, porque as crianças em África ficariam muito pior para já, funde-se frequentemente com todo o discurso da adaptação, em que a crise climática é definida como uma espécie de desafio darwinista ao desempenho de adaptação dos sujeitos do mercado. Basta aprender a viver com o clima em mudança, é esse o argumento, que pode estar ligado a todo o discurso neoliberal das últimas décadas, quando as crescentes exigências sociais do capitalismo tardio, induzidas pela crise, foram declaradas como leis inalteráveis da natureza, às quais todas as estratégias miseráveis de auto-optimização, autocomercialização, auto-exploração etc. têm de ser adaptadas, como se cada um fosse uma alegre empresa em nome individual.
O fetichismo social, estando à mercê da dinâmica social autonomizada do capital, que cria o sentimento omnipresente de heteronomia e produz precisamente essas estratégias neoliberais de adaptação na autogestão do perpétuo movimento da “mercadoria força de trabalho“, constitui o fundamento social desta ideologia eco-darwinista da adaptação, em que os sujeitos do mercado pretendem adaptar-se a uma dinâmica de alterações climáticas, que é na verdade a consequência da compulsão fetichista do capital ao crescimento. No entanto, sem ultrapassar o segundo, o primeiro não pode ser controlado.
Em resposta aos incêndios florestais, que se manifestam com cada vez maior intensidade, argumenta-se, por exemplo, que é preciso adaptar-se a eles, aprender a viver com o fogo (21), o que também é sensato numa perspectiva local, de curto prazo, por exemplo, tomando precauções contra os incêndios, minimizando assim os riscos etc. Esta abordagem pragmática, local ou regionalmente sensata, torna-se problemática quando é aplicada ao processo global e errático das alterações climáticas.
Agora é simplesmente uma questão de adaptação às alterações climáticas capitalistas, sobretudo através da referência à grande adaptabilidade do capital – o que corresponde a um monstruoso erro de avaliação sobre a dinâmica das alterações climáticas. As alterações climáticas são algo a que a sociedade humana acaba por ser incapaz de se adaptar – a adaptabilidade propagada nas décadas neoliberais está a tornar-se a perdição do ser humano do capitalismo tardio.
As alterações climáticas não são graduais, mas sim saltos que seriam desencadeados se os pontos de viragem climática fossem ultrapassados – e que teriam consequências desastrosas para regiões inteiras. A ilusão de adaptação a alterações graduais e quantitativas seria uma vergonha sangrenta se o sistema climático fosse submetido a uma transformação „qualitativa“ completa. Não se trata apenas de catástrofes, como a rápida subida do nível do mar, a devastação de continentes inteiros, a ameaça de fome ou a inabitabilidade de grandes regiões (22) do Sul global, todas elas já de si terríveis. Em última análise, trata-se da pura sobrevivência do ser humano como espécie, da flora e da fauna tal como as conhecemos hoje, como apontou, por exemplo, o famoso ensaio (23) „The Uninhabitable Earth”, referindo-se à acidificação dos oceanos causada pelo aumento da concentração de CO2, que acabará por destruir grande parte da vida nos oceanos, libertando quantidades gigantescas e mortíferas de ácido sulfídrico.
Tal catástrofe ocorreu há cerca de 252 milhões de anos, no final da Era Terrestre Permiana, quando cerca de 97 por cento de todos os seres vivos foram destruídos, como se afirma no ensaio acima referido:
„O ácido sulfídrico foi também o que acabou por nos custar 97% de toda a vida na Terra durante este período [extinção em massa no período permiano há 252 milhões de anos, T.K.], depois de todos os circuitos de retorno terem sido desencadeados e as correntes de circulação de um fundo oceânico aquecido terem parado – é o gás preferido do planeta para um holocausto natural. Gradualmente, as zonas mortas espalharam-se pelos oceanos, matando animais marinhos que dominaram os oceanos durante centenas de milhões de anos, e o gás que a água libertou para a atmosfera envenenou tudo em terra. Mesmo as plantas. Foram precisos milhões de anos para que os oceanos recuperassem“.
Como resultado da constante intensificação das contradições da socialização capitalista tardia, não é a razão que está a avançar no movimento histórico global, como foi uma vez postulado por Hegel, mas sim a barbárie, que teria o seu ponto final neste peido gigantesco que extinguiria quase toda a vida. Só a ultrapassagem desta falsa totalidade, que está a começar a decompor-se, dará à humanidade uma oportunidade de sobrevivência.

O livro de Tomasz Konicz Klimakiller Kapital – Wie ein Wirtschaftssystem unsere Lebensgrundlage zerstören (Capital assassino do clima – Como um sistema económico nos destrói as bases da vida) foi publicado recentemente pela Mandelbaumverlag. (24)

(1) https://www.faz.net/aktuell/wirtschaft/weltwirtschaftsforum/wirtschaft-in-deutschland-buerger-zweifeln-am-kapitalismus-16592016.html
(2) https://www.theglobeandmail.com/business/international-business/article-global-survey-finds-majority-of-people-believe-capitalism-doing-more
(3) https://www.heise.de/tp/features/Die-Krise-kurz-erklaert-3392493.html?seite=all
(4) https://www.heise.de/tp/features/Kapital-als-Klimakiller-4043735.html?seite=all
(5) https://www.heise.de/tp/features/Katastrophenkapitalismus-4563390.html
(6) https://www.heise.de/tp/features/Verbrannte-Erde-im-Murdoch-Land-4621769.html
(7) https://www.heise.de/tp/features/Arbeitsplaetze-oder-Klima-4633699.html
(8) https://www.spiegel.de/wirtschaft/soziales/kann-uns-der-kapitalismus-noch-retten-a-f70ee45b-fab3-4740-9a06-60678b5b1dcf
(9) https://www.theguardian.com/environment/2020/feb/21/jp-morgan-economists-warn-climate-crisis-threat-human-race
(10) https://www.spiegel.de/wirtschaft/klimawandel-in-der-versicherungswirtschaft-mit-den-temperaturen-steigen-die-praemien-a-464060.html
(11) https://www.zeit.de/2018/07/versicherungen-klimaschutz-allianz-kohlegeschaeft
(12) https://taz.de/Siemens-und-die-Kohlemine-Adani/!5655255
(13) https://www.handelsblatt.com/finanzen/vorsorge/altersvorsorge-sparen/institutionelle-anleger-pensionskassen-sind-in-der-japan-falle/24349076.html
(14) https://kurier.at/wirtschaft/wegen-niedrigzinsen-grosse-loecher-in-europaeischen-pensionsfonds/400706403
(15) https://www.sueddeutsche.de/wissen/thunberg-davos-klimaschutz-1.4765414
(16) https://www.welt.de/wirtschaft/plus204830102/Deutschlands-CO2-Emissionen-Marktwirtschaft-schlaegt-gruene-Gesinnungspolitik.html
(17) https://www.deutschlandfunk.de/klimaschutz-co2-emissionen-in-deutschland-deutlich-gesunken.697.de.html
(18) https://www.heise.de/tp/features/Klimapolitischer-Schwindel-fuer-Fortgeschrittene-4210218.html?seite=all
(19) https://www.spiegel.de/politik/ausland/klimakonferenz-was-junge-menschen-an-der-klima-debatte-stoert-a-1299552.html
(20) https://www.msn.com/en-ie/news/other/huge-lashback-after-fake-image-of-greta-thunberg-eating-in-front-of-poor-children-is-circulated-online/ar-AAHWA88?li=BBr5PkP
(21) https://www.sueddeutsche.de/wissen/pyrozaen-wir-muessen-mit-dem-feuer-leben-1.4748575
(22) http://www.ipsnews.net/2016/04/will-the-middle-east-become-uninhabitable
(23) https://nymag.com/intelligencer/2017/07/climate-change-earth-too-hot-for-humans.html
(24) https://www.mandelbaum.at/buch.php?id=962

Original Konjunktur für Gesundbeter. Ein polemischer Überblick über die Anpassungsleistungen kapitalistischer Ideologie in Zeiten der manifesten Klimakrise, in: https://www.exit-online.org/ , 11.04.2020. Tradução de Boaventura Antunes

Die Kommentarfunktion zu diesem Beitrag wurde deaktiviert.