A última dança neoliberal sobre o vulcão

Tomasz Konicz, Tradução de Boaventura Antunes

A administração democrática do idoso presidente do establishment Joe Biden não será capaz de resolver os gigantescos problemas que os EUA enfrentam

O que podemos esperar de Joe Biden, o 46º presidente dos Estados Unidos da América? Não muito, porque parece certo, dado o seu avançado declínio mental, que o idoso homem do establishment terminará o seu mandato prematuramente, a fim de entregar a presidência a algum insider de Washington – como a Vice-Presidente Kamala Harris, notória como procuradora-geral dura. Independentemente das personalidades específicas, não se pode esperar nenhuma mudança substancial de política por parte da administração democrática, que consiga enfrentar eficazmente a profunda crise social e ecológica em que se encontram os EUA, tal como todo o sistema mundial capitalista tardio. Biden concorreu contra Trump, segundo o slogan da campanha, para assegurar o „regresso à normalidade“, como se o populista de direita na Casa Branca fosse apenas um „percalço“ – em vez de um sintoma especificamente americano da crise mundial do capital. A ideia profundamente conservadora de querer fazer voltar atrás o relógio da história no meio da crise sócio-ecológica em curso, a fim de restaurar uma „normalidade“ neoliberal que em si mesma é uma consequência e um amplificador da crise, só pode envergonhar-se amargamente perante esta mesma realidade.

Quase nenhum político simboliza melhor a era neoliberal nos Estados Unidos do que Joe Biden, o veterano cavalo de batalha democrata que tem estado envolvido em quase todos os grandes escândalos das últimas três décadas. Nos anos 80, durante a era Reagan, o democrata de direita votou, entre outras coisas, por um corte maciço na taxa máxima de impostos (de 70 para 50 por cento), e apoiou os cortes nos serviços sociais que foram levados a cabo na altura. Nos anos 90, Biden foi acusado de agressão sexual e recusou-se a conceder igualdade às minorias sexuais. O democrata também esteve envolvido no endurecimento das leis que contribuíram para o rápido crescimento da população prisional nos EUA, bem como na revogação das regulamentações do mercado financeiro que levaram a um rápido aumento da actividade especulativa e à formação de bolhas, com os conhecidos resultados. No século XXI, Biden apoiou o desmantelamento das liberdades civis na sequência do Patriot Act, votou a favor da Guerra do Iraque e do crescente encerramento da fronteira sul dos EUA aos migrantes, e contra uma expansão da legislação de protecção laboral.

Na campanha de 2020, o candidato deixou claro nos seus momentos de lucidez que iria continuar a operar como homem do establishment do partido neoliberal. A equipa de tecnocratas e lobistas por detrás do que resta do cada vez mais confuso Joe Biden deixou claro que a presidência Biden não envolveria uma mudança radical na política do clima. Dado o rápido avanço da crise climática, uma presidência Biden é um desastre na política do clima. A equipa Biden pronunciou-se contra um New Deal Verde, contra a introdução de um seguro de saúde público, contra a legalização da canábis – enquanto o candidato da extremada oligarquia do centro dos EUA prometeu que nada mudaria fundamentalmente sob a sua presidência.


As facções neoliberais das elites funcionais dos EUA que apoiaram a campanha de Biden estão bem conscientes de que as „suas“ políticas devem responder de algum modo às crescentes distorções ambientais e sociais, mas as reformas previstas não estão adequadamente relacionadas com as dimensões dos problemas em causa. Todos os projectos de reforma que possam ser iniciados para combater a crise sócio-ecológica pelos tecnocratas e lobistas por detrás de Biden – que na sua decadência mental representa uma alegoria ambulante do capitalismo tardio ao estilo americano – devem curvar-se à máxima dos financiadores da campanha de Biden: as condições existentes não devem ser alteradas. Mas isto não resolverá com sucesso a crise sistémica em curso. Consequentemente, os próximos quatro anos de governo democrático na Casa Branca são, provavelmente, na melhor das hipóteses, tratamentos cosméticos dos sintomas – se os Republicanos, que muito provavelmente controlam o Senado, o permitirem de todo.

Joe Biden foi efectivamente o candidato de compromisso das elites funcionais neoliberais do Partido Democrático, com as quais todas as forças fora da esquerda do partido contavam na campanha das primárias para impedir o socialista Bernie Sanders. Após as primeiras vitórias pré-eleitorais nos Estados do sul dos EUA, nas quais se tornou claro em Março de 2020 que o apoio de Joe Biden era de facto capaz de ganhar uma maioria nesta região, começou uma rápida construção de aliança do partido em torno do antigo vice-presidente. O antigo Presidente dos EUA, Barack Obama, foi visto como uma figura central nesta mobilização anti-Sanders, fazendo as chamadas apropriadas nos bastidores.

Em poucos dias, os esperançosos presidenciáveis Pete Buttigieg e Amy Klobuchar, que pertencem à ala direita do partido, terminaram as suas campanhas apelando aos seus apoiantes para votarem em Joe Biden. A eles juntaram-se pedidos de apoio de poderosas figuras partidárias como os senadores Harry Reid e Tammy Duckworth. No espaço de „72 horas após a primeira vitória de Biden na nomeação“ todos os candidatos „pragmáticos“ do establishment tinham saído do campo, comentou a CNN, reflectindo os esforços de um „establishment partidário profundamente preocupado“ em „juntar todas as partes“ para impedir uma nomeação do socialista de Vermont.


Sanders perdeu assim por pouco para a direita unida do Partido Democrata – enquanto que a esquerda entrou na corrida dividida. De facto, esta frente de direita, que se formou muito rapidamente em torno de Joe Biden, enfrentou um campo progressista dividido. A candidata de esquerda-liberal e social-democrata moderada Elizabeth Warren concentrou os seus ataques na campanha das primárias principalmente em Bernie Sanders, o que promoveu o processo de consolidação da direita do partido.
Biden foi o candidato de compromisso devido ao seu sucesso nas primárias nos Estados do sul, mas nem por isso o candidato não desejado do establishment – isto deveu-se principalmente ao próprio Joe Biden, a quem está visivelmente a ser exigido demais no seu papel. O antigo vice-presidente tem-se esforçado repetidamente para fazer aparições públicas sem constrangimentos, parecendo muitas vezes desorientado e confuso. O slogan do establishment do partido de que qualquer candidato é realmente melhor do que Sanders encontrou a sua encarnação adequada no aparentemente demente 46º presidente.


O choque de a esquerda quase conseguir ganhar as primárias presidenciais ainda marca profundamente até aos ossos o establishment democrata. Sanders só foi impedido por uma demonstração de força da direita – e isso não pode voltar a acontecer. Pouco depois da vitória eleitoral de Biden, a direita entrou consequentemente na ofensiva. Representantes da ala esquerda do partido, como Alexandria Ocasio-Cortez, queixaram-se de uma campanha maciça contra posições progressistas no Partido Democrata, uma vez que a esquerda do partido foi culpada pela fraca participação do Partido Democrata nas eleições contra o que foi sem dúvida o pior presidente dos EUA de sempre. Embora a campanha de Biden tenha tentado – em grande parte sem sucesso – ceder aos eleitores conservadores, especialmente nas fases finais da campanha, o jogo da culpa pouco depois das eleições destinava-se a desacreditar as posições de esquerda no partido em geral.


Não só os ataques intra-partidários contra a ala progressista, mas também o pessoal da equipa de transição do candidato do centro extremado deixou claro que, apesar da escalada da dinâmica de crise, a saída radical e necessária para a sobrevivência do business as usual capitalista tardio com a administração Biden não é sequer para ser pensada. Um terço dos funcionários da equipa de transição de Biden tem contactos com a indústria de armamento e com o complexo militar-industrial, e os representantes da indústria informática e do novo capitalismo da Internet e de plataforma baseado no emprego precário, como Uber e Airbnb, estão também desproporcionadamente fortes.


O abismo entre o neoliberal Biden e o socialista Sanders é particularmente evidente na política fiscal: de acordo com os planos do candidato do establishment, a taxa máxima de imposto para as famílias particulares deverá aumentar apenas de 37 para 39,6 por cento, enquanto que o socialista Sanders queria finalmente fazer com que a oligarquia dos EUA pagasse, após décadas de cortes de impostos neoliberais, uma taxa de imposto máxima de 97,5 por cento. Isto iria simplesmente restaurar o estado neoliberal antes de Trump tomar o poder. Nos impostos sobre as empresas, a taxa de imposto seria aumentada de 21% para 28% sob os planos do candidato presidencial democrata. Mas isso significaria nem sequer rever aqui os cortes fiscais decretados por Trump, que baixou esse imposto de 35 para 21 por cento em 2018.


Para além de um modesto programa de investimento ambiental, Biden também quer lançar um pacote de estímulo económico destinado especificamente ao eleitorado do populista de direita Donald Trump. Cerca de 400 mil milhões de dólares americanos deverão ser gastos durante os quatro anos de uma potencial presidência democrática para comprar produtos americanos e assim reforçar a indústria nacional. Além disso, o governo deverá investir cerca de 300 mil milhões em projectos de investigação, a fim de modernizar a economia dos EUA com o dinheiro dos contribuintes. A campanha Biden estima que estas medidas irão criar cerca de cinco milhões de novos empregos – na verdade, voltando ao nacionalismo económico da era Trump.


Estes modestos planos fiscais, cuja realização permanece questionável de qualquer modo dadas as maiorias no Senado, são contrastados por uma divisão social obscena na sociedade norte-americana devido à crise sistémica de sobreacumulação do capital, que foi ainda mais exacerbada durante a pandemia. Enquanto milhões de assalariados nos Estados Unidos mergulharam na pobreza e na miséria durante o último surto de crise, a oligarquia americana conseguiu aumentar a sua riqueza em quase um bilião de dólares. Entre Março e Outubro de 2020, o capital – largamente fictício – dos 644 multimilionários reportados nos EUA aumentou em 931 mil milhões para 3,8 biliões de dólares. Esta ascensão meteórica significou que os doze multimilionários mais ricos dos Estados Unidos acumularam agora bens com um valor nominal de um bilião. E é esta mesma oligarquia que é capaz de dominar campanhas eleitorais cada vez mais caras, gastando quantidades cada vez maiores de dinheiro nos „seus“ candidatos.
Ao mesmo tempo, a pobreza explodiu nos Estados Unidos em 2020 durante uma pandemia que matou mais de 200 000 pessoas. Um em cada oito cidadãos dos EUA vive abaixo do limiar oficial da pobreza, que é demasiado baixo de qualquer modo. Mais de 40 por cento dos trabalhadores assalariados não têm actualmente qualquer reserva financeira – vivem com a mão na boca. Bill Gates, Jeff Bezos e Warren Buffet possuem agora mais riqueza do que a metade inferior da população dos EUA, largamente empobrecida.


A força do colapso económico na Primavera de 2020 foi tão grande que se tornou difícil até mesmo encontrar analogias históricas para ele. Nos Estados Unidos, onde a precariedade da vida laboral está particularmente avançada, o desemprego explodiu literalmente de menos de cinco para mais de 14 por cento num período de tempo muito curto, apenas para cair para cerca de sete pontos na sequência de pacotes de estímulo lançados febrilmente – antes da segunda onda ter sido atingida no Outono. Só na segunda metade de Março de 2020, cerca de dez milhões de trabalhadores assalariados nos EUA tiveram de se registar como desempregados – um recorde histórico. A título de comparação, o maior aumento semanal do número de desempregados desde a introdução das estatísticas tinha sido registado em 1982, no final do período histórico da crise de estagflação, quando cerca de 695.000 assalariados tiveram de se candidatar ao apoio estatal durante uma grave recessão desencadeada por aumentos radicais das taxas de juro pela Fed („choque Volcker“).


No entanto, foram precisamente os trabalhadores precários do amplo sector americano dos salários baixos os mais duramente atingidos e mais rapidamente. Os salários são muitas vezes tão escassos que têm de ser aceites vários empregos a fim de se conseguir o sustento. Cerca de 44% dos assalariados têm de lidar com salários que não permitem quaisquer reservas para tempos de crise. Destes 53 milhões de trabalhadores pobres que têm de abrir caminho a custo todos os meses até ao próximo salário, cerca de um terço vivem em extrema pobreza, quase 50% são os únicos que sustentam as suas famílias, estando as mulheres e os afro-americanos sobre-representados neste grupo.


A desindustrialização dos EUA nas últimas décadas, com os antigos centros industriais do Norte a transformarem-se no famoso „Rust Belt“, tem sido acompanhada pela expansão sucessiva deste sector de baixos salários, que estava à beira de atingir a maioria dos cidadãos dos EUA antes do início da crise. A erosão da sociedade laboral americana é também evidente na ascensão da economia de partilha ou gig economy, na qual plataformas baseadas na Internet, como o infame serviço de transporte Uber (que conseguiu alojar a sua gente na administração Biden), servem como intermediários de serviços. Entretanto, diz-se que cerca de 30% dos trabalhadores assalariados nos Estados Unidos vivem em empregos a tempo parcial neste sector, como falsos trabalhadores independentes precários ao dia. E são precisamente estes trabalhadores ao dia da era da Internet dependentes das respectivas plataformas que são particularmente vulneráveis à pandemia. Trabalho e risco de infecção ou fome – estas são as alternativas enfrentadas, por exemplo, pelos condutores „fora da lei“ do serviço de transporte Uber.


A crise de 2020 encontrou assim uma sociedade laboral americana em dificuldades, estruturada de forma muito diferente do surto de crise de 2008, quando as bolhas do imobiliário rebentaram nos EUA e em partes da Europa. Nessa altura, o grande drama desenrolou-se nos subúrbios das áreas metropolitanas dos EUA, onde massas de famílias descendentes de classe média perderam as suas casas hipotecadas e sobreendividadas. Desta vez, são mais histórias de trabalhadores mal pagos, tais como os dos cuidados de saúde, que se encontram nas ruas como resultado de despejos repentinos das suas casas alugadas por senhorios em pânico, que estão a causar indignação. As enormes convulsões sociais que se seguiram ao rebentamento da bolha imobiliária levaram a um rápido colapso da outrora ampla classe média americana, a qual, confrontada com décadas de salários estagnados e custos de vida crescentes até ao surto da crise de 2008, só conseguiu manter o seu estilo de vida de qualquer forma assumindo dívidas crescentes – como a hipoteca da casa, que estava a subir de preço.


Estudos examinando a auto-avaliação social dos cidadãos dos EUA descobriram que a classe média tinha derretido de cerca de 53% no início da crise do imobiliário em 2008 para apenas 44% em 2014. Ao mesmo tempo, a proporção de cidadãos dos EUA que se sentiam pobres aumentou de 25% no ano da crise de 2008 para 40% em 2014 – o que corresponde praticamente à proporção de trabalhadores pobres na população activa americana em erosão. Além disso, o amplo crescimento salarial nos Estados Unidos que finalmente beneficiou os trabalhadores pobres só começou em 2018/19, enquanto a „retoma“ passou grandemente ao lado dos trabalhadores assalariados antes disso. Durante um ano antes do actual colapso económico, os salários na base da pirâmide de rendimentos estavam a subir.


Desde logo a perspectiva a longo prazo, no entanto, deixa claro como foi fraca a última retoma nos Estados Unidos, impulsionada principalmente pela bolha de liquidez dos bancos centrais. A economia de bolhas gerada pela „financeirização“ neoliberal do capitalismo, com crescimento do crédito e bolhas especulativas nos mercados financeiros mundiais em expansão actuando como motores económicos, está a perder cada vez mais a dinâmica conjuntural: entre o rebentamento da bolha imobiliária em 2008 e o último ano de boom em 2019, o produto interno bruto (PIB) dos Estados Unidos cresceu em média 1,7 por cento ao ano. Pelo contrário, durante a ascensão da grande bolha imobiliária transatlântica, entre 2001 e 2007, a economia dos EUA ainda estava a crescer a uma taxa média anual de 2,5 por cento. No auge do boom do mercado financeiro neoliberal, entre 1991 e 2000, quando as esperanças de um novo regime de acumulação levaram as acções das empresas de alta tecnologia a alturas absurdas durante a bolha dot-com, a economia americana conseguiu mesmo crescer em média anual de 3,4 por cento. Mas mesmo este período de boom durante a administração Clinton estava a abrandar perante o longo boom fordista do pós-guerra entre 1948 e 1973, pois durante esse período a economia dos EUA cresceu em média 4% ao ano.


Assim, a crise de 2020 atingiu uma sociedade americana empobrecida, dominada pelas tendências de estagnação económica que não recuperou das distorções da crise do imobiliário, incluindo a recessão de 2008-09. A classe média americana está a derreter rapidamente, e o mercado de trabalho está a mostrar o aumento característico do emprego precário e dos salários miseráveis que tem acompanhado a erosão das sociedades capitalistas do trabalho, desde os impulsos de racionalização maciça na sequência da revolução informática, na maioria dos países centrais do sistema mundial. Como consequência, as realidades sociais dos assalariados nos centros do sistema mundial podem convergir com as da periferia ou semiperiferia, onde há muito tempo existe um amplo estrato de pessoas economicamente „supérfluas“ – que, afinal de contas, constituiu o sujeito central da „crise dos refugiados“.


Cerca de 30 milhões de trabalhadores assalariados tiveram de se registar como desempregados nos Estados Unidos entre meados de Março e o início de Maio – o pico da onda de despedimentos. No entanto, estas estatísticas de desemprego, que culminaram numa taxa de desemprego de 14% em 2020, já não capturam a parte dos desempregados que não podem ou não são elegíveis para requerer prestações de desemprego, que de qualquer modo são pagas apenas pouco tempo. A escala da miséria é assim muito maior do que os selectivos números do desemprego de Washington sugerem.


O surto de crise de 2020 teve por consequência um aumento dramático da subnutrição. Mais uma vez, as crianças são particularmente vulneráveis. Cerca de 18% dos menores dos EUA sofrem de desnutrição na potência mundial em declínio, que está a degenerar numa oligarquia ao estilo ucraniano ou russo a um ritmo recorde. A corrida aos bancos de alimentos e às cozinhas de sopa que os Estados Unidos experimentaram trouxe de volta memórias da Grande Depressão da década de 1930. A única diferença óbvia em relação à crise sistémica da primeira metade do século XX, em muitas regiões dos EUA sem transportes públicos, é simplesmente que as pessoas têm de esperar horas nos seus veículos para obter comida. Por vezes, em bastantes regiões, a Guarda Nacional é chamada para, de algum modo, gerir a corrida à distribuição em massa de alimentos. As filas de quilómetros de comprimento que se formam em muitos distritos de cidades interiores de migrantes, para obter alimentos ou vales de compras, trazem de volta memórias dos últimos anos de socialismo realmente existente, quando os estrangulamentos de abastecimento se tornaram cada vez mais drásticos, pouco antes da sua implosão.


Para além da catástrofe nacional de um fracasso total no combate à pandemia, a era Trump deixará para trás outro legado tóxico, com o qual as administrações subsequentes terão de lidar durante muito tempo: o racismo e o fascismo que se instalaram e ganharam aceitação social generalizada devido ao frequente apoio do presidente – que muitas vezes se manteve publicamente na brecha com os extremistas de direita. Interagindo com o mito da fraude eleitoral generalizada que Trump popularizou em resposta à sua derrota eleitoral, são as partes militantes e armadas do movimento fascista que provavelmente continuarão a ser perigosas.


O movimento de milícias de direita nos Estados Unidos, que invoca esta tradição estabelecida com a famosa Segunda Emenda, foi considerado um dos principais grupos de apoio de Donald Trump. Este movimento conheceu o seu grande boom nos anos 90 sob a presidência do presidente democrata Bill Clinton, bem como durante a presidência de Barack Obama. Existem centenas desses grupos armados nos Estados Unidos, que podem mobilizar dezenas de milhares de milicianos. Embora estas formações armadas variem muito na sua orientação ideológica – que pode variar desde o racismo absoluto, passando pelo isolacionismo, até ao ódio extremo ao governo – na sua maioria partilham uma rejeição de qualquer restrição legal à posse de armas, bem como uma oposição diferentemente fundamentada à esquerda política.


Em meados do ano 2020, algumas destas milícias estavam activas como infantaria das campanhas de direita contra as medidas de resposta à pandemia nos EUA – como quando milicianos armados com metralhadoras invadiram o Capitólio do Michigan, apenas para serem elogiados por Trump como „muito boas pessoas“ por o fazerem. Alguns milicianos também se arvoraram em auto-intitulados guardas de fronteira, tentando interceptar migrantes na fronteira entre os EUA e o México por conta própria. Durante a revolta de Maio de 2020 contra a violência policial e o racismo nos Estados Unidos, que levou à formação do movimento Black Lives Matter, muitos milicianos também estiveram activos – como contra-manifestantes ou forças de protecção. Só nas primeiras duas semanas da onda de protestos, foram relatados 136 incidentes de milícias de extrema-direita em manifestações e protestos anti-racistas a nível nacional, a maioria dos quais envolvendo milicianos a intimidar manifestantes ou a proteger lojas e empresas.


Os protestos do movimento Black Lives Matter conduziram assim também a um rápido aumento da actividade das milícias de extrema-direita. Isto terá tido um „efeito arrepiante sobre a prática democrática“, afirmam os media. Os potenciais manifestantes seriam assim intimidados e manter-se-iam afastados dos protestos. Em muitas pequenas cidades do oeste dos EUA, estas formações armadas estão presentes para, literalmente, „prestar serviços que normalmente esperamos do governo“. Por vezes, já estavam a formar-se enredos directos entre um aparelho policial em debandada devido à crise e as milícias. Isto tornou-se evidente, por exemplo, no estado do Novo México em meados de 2020, onde os agentes da polícia são acusados de pertencerem a formações extremistas de direita. Há uma clara „sobreposição“ no Novo México entre pessoas activas em „milícias e serviço policial“, explicou o cientista social David Correia, que estudou este meio em profundidade.


No Novo México, disse ele, é difícil distinguir entre as „milícias fascistas de direita e a polícia“ porque as linhas estão cada vez mais confusas. Segundo Correia, os extremistas de direita, com a aquiescência tácita ou mesmo com o apoio da polícia, controlariam e intimidariam o movimento de protesto no Novo México. A rapidez com que esta militarização da sociedade americana estava a ter lugar em várias regiões podia ser vista no exemplo do estado americano de Utah, onde uma milícia branca conseguiu recrutar cerca de 15 000 membros só em Julho de 2020. Sob o pretexto de prevenir a violência, este exército de cidadãos liderado por antigos veteranos marchou armado contra os protestos do movimento Black Lives Matter, que como resultado foram cancelados várias vezes por medo dos milicianos brancos. Na capital de Utah, a cidade mórmon de Salt Lake City, 88% da população é branca, com os negros representando menos de um por cento.


Numa manifestação contra a brutalidade policial e o racismo em Salt Lake City, os manifestantes foram escoltados por uma fila de brancos armados enquanto a polícia mandava franco-atiradores para os telhados. Dentro do movimento, que realiza regularmente exercícios militares e mantém bons contactos com a polícia local, circulam boatos absurdos sobre conspirações, por exemplo, do „Estado islâmico“, que se diz estar a financiar os actuais protestos. Os milicianos preparam-se com o seu treino de guerra civil para uma iminente „guerra civil“, que está a ser promovida por forças sinistras a enraizar no subsolo, segundo relatórios de fundo. E Trump forneceu precisamente uma tal narrativa a estas forças de extrema-direita com as suas afirmações de que só perdeu as eleições devido à fraude eleitoral dos democratas.


A medida em que tem progredido o asselvajamento do aparelho estatal americano, que acompanha este aumento de formação de milícias induzido pela crise, é evidente precisamente na força policial encarregada por Donald Trump, no Verão de 2020, de acabar com meses de protestos no bastião esquerdista de Portland, Oregon. A Patrulha de Fronteiras (CBP – US Customs and Border Protection) implantada em Portland foi vista como um dos pilares da administração Trump dentro do aparelho estatal. Era „a sua gente“ que trabalhava na força policial militarizada de fronteira, que tinha crescido para 20 000 homens, disse um informador interno ao jornal The Guardian. A interdição dos refugiados na fronteira sul dos EUA, que se tornou a principal missão da CBP, está a ser imposta com consistência assassina. Desde 2010, pelo menos 111 refugiados não terão sobrevivido a encontros com os guardas de fronteira altamente armados. O puro racismo reina na força, onde se cultiva uma „cultura de violência“ em relação aos migrantes, disseram os antigos oficiais ao Guardian („These are his people“: dentro da unidade de patrulha de fronteira de elite que Trump enviou para Portland).


A extensão do racismo na Patrulha de Fronteiras tornou-se pública no início de 2019, com cerca de 9000 membros da Patrulha de Fronteiras a frequentarem um grupo do Facebook onde era partilhado conteúdo racista e desumano – isto era quase metade de todos os membros da CBP. Este escândalo permaneceu sem consequências graves. Dentro da CBP existe uma „formação de elite“, a Unidade Táctica de Patrulhamento de Fronteiras (Bortac). Este agrupamento, que é comparável aos Navy Seals da Marinha e está também implantado fora dos EUA, passa por treino militar – e é considerado a unidade „mais violenta e racista“ dentro do aparelho policial dos Estados Unidos, segundo o Guardian, citando informação privilegiada.


E foi precisamente este agrupamento, que já não se considera parte da força policial e pensa e age em termos militares nas suas operações, que Trump utilizou contra o movimento de protesto em Portland: Os homens Bortac, nas suas operações, considerariam as pessoas com que se confrontam como combatentes no „sentido militar, o que significa que não têm praticamente quaisquer direitos“, disse ao jornal britânico um antigo agente da Patrulha de Fronteiras. Os métodos de „sequestro“ de manifestantes por polícias de fronteira de Portland, que causaram indignação em todo o país, estão assim em conformidade com a abordagem habitual dos migrantes na fronteira.


Estas tendências para o asselvajamento e a fascização do aparelho de Estado não se limitam, naturalmente, aos Estados Unidos, dada a crise em pleno desenvolvimento do sistema capitalista mundial. Uma tendência semelhante pode ser observada no aparelho estatal da Alemanha, onde as correspondentes redes fascistas se estão a formar e os esforços terroristas de direita estão a aumentar rapidamente – enquanto as elites políticas olham para o outro lado por cálculo táctico, oportunismo ou simpatia. No entanto, este processo do aparelho estatal em funcionamento selvagem nos centros é apenas a forma preliminar de um fenómeno de crise que já se desdobra totalmente na periferia ou semiperiferia – e que é geralmente descrito com o conceito de „failed state“. O colapso do Estado não é promovido a partir do exterior, por conspirações de qualquer tipo, mas a partir do interior, pelas partes do aparelho estatal que, em reacção a tendências de crise, acreditam que podem ou devem tomar as coisas nas suas próprias mãos – quer na esperança de assegurar a continuação da sua existência através de um golpe e de uma ditadura, quer por simples interesse financeiro.


A extrema-direita tem não só um movimento militante e armado em rápido crescimento nos Estados Unidos, mas também amplas simpatias nos próprios ministérios do poder nos EUA – o que ensombra ainda mais as perspectivas da recém-eleita administração democrática, dada a sua insistência no business as usual neoliberal. Os acabados neoliberais que estão agora a fazer a sua última grande dança em Washington não serão capazes de resolver os enormes problemas sociais e económicos que estão a desfazer o capitalismo tardio, especialmente nos EUA como a sociedade capitalista mais avançada. É provável que a direita faça tudo o que estiver ao seu alcance para propagar uma vez mais a opção fascista na crise profunda – é provável que volte a alcançar o poder dentro de quatro anos para lucrar com o fracasso final do neoliberalismo e para o herdar como o seu produto de decadência ideológica e política.


Mas a revolta anti-racista do Verão de 2020, que deu origem ao movimento Black Lives Matter, mostra também que não deixa de haver alternativa a este curso reaccionário dos acontecimentos. A direita está a ganhar influência nos EUA, mas o mesmo acontece com as forças progressistas. Assim que a esquerda nos Estados Unidos conseguir construir alternativas progressistas à permanente crise capitalista, dentro ou fora do Partido Democrata, ela prevalecerá – simplesmente porque a alternativa capitalista interna a ser promovida pela direita é uma clara descida à barbárie. (1)
Como sopram agora os ventos nos Estados Unidos é claro pelos inquéritos sobre as atitudes populares em relação ao conceito de socialismo, que durante décadas funcionou como um palavrão político. Especialmente dentro da juventude, o socialismo está em ascensão, advertiu a emissora conservadora Fox News, citando uma sondagem do Outono de 2018. De acordo com a sondagem, a aprovação do capitalismo entre o grupo etário dos 18 aos 29 anos tinha caído de 68 por cento em 2010 para apenas 47 por cento, enquanto que o socialismo era agora visto positivamente por uma maioria magra de 51 por cento. Dentro do Partido Democrático, até 57 por cento dos inquiridos poderiam interessar-se pelas ideias políticas socialistas. (2)


(1) Nota da redacção da exit!: No entanto, existem correntes na esquerda dos EUA que são tudo menos progressistas. Pense-se, por exemplo, no anti-semitismo em partes do movimento Black Lives Matter. A título de exemplo: Kai Funkschmidt: Der Antisemitismus in der „Black Lives Matter-Bewegung“, in: Sabine Beppler-Spahl (ed.): Schwarzes Leben, Weisse Privilegien? – Zur Kritik an Black Lives Matter [Vida negra, privilégios brancos? – Para a crítica de Black Lives Matter], Frankfurt 2020.
(2) Nota da redacção da exit!: O que é decisivo aqui é o que se entende por socialismo em termos de conteúdo, se a imanência capitalista é rompida no processo, ou se não se passa de uma nova edição do keynesianismo (Green New Deal, etc.).

Original Letzter neoliberaler Tanz auf dem Vulkan publicado em www.exit-online.org em 16.02.2021. Publicado originalmente em telegraph Nr.137/138, 2020/2021, https://telegraph.cc/telegraph-137-138. Tradução de Boaventura Antunes

http://www.obeco-online.org/http://www.exit-online.org/

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