PANDEMIA E TRANSFORMAÇÃO

Neues Deutschland, 3.2.2021. Tradução de Boaventura Antunes


Será a campanha Zero-Covid „irrealista“? Não, diz Tomasz Konicz – desde que o capitalismo tardio não seja visto como um estado de natureza.

A progressiva iniciativa Zero Covid parece propagar um facto evidente com a sua campanha: Através de um confinamento solidário abrangente, que também teria de incluir a economia, o número de novas infecções deve ser controlado o mais rapidamente possível. O confinamento deve ser alargado de modo a incluir uma forte componente social e coordenado a nível europeu. A luta contra a pandemia é, de facto, semelhante à luta contra as alterações climáticas. A crise dá origem a necessidades objectivas quanto à forma como deve ser combatida: reduzindo os contactos sociais ao que é absolutamente necessário, ou reduzindo as emissões de gases com efeito de estufa. Tudo o resto é poeira ideológica para os olhos. E no entanto, uma das críticas mais populares é acusar os promotores da campanha de não serem realistas.

Mas o entendimento da realidade de que se fala em tais casos está ele próprio saturado de ideologia. Não descreve a pandemia no seu curso como um processo objectivo de crise, ao qual a sociedade terá de se adaptar para a combater, mas esta relação está aqui virada de pernas para o ar: O capitalismo tardio é reificado como uma „realidade“ imutável, quase natural, à qual seria necessário adaptar-se na luta contra a pandemia. Este truque, declarando implicitamente o capitalismo como sendo „natureza“ objectiva, tem a sua lógica ideológica: no combate à crise, todas as medidas que afectariam seriamente as condições prevalecentes são rejeitadas como irrealistas.

O problema do combate à pandemia é simplesmente que medidas e estratégias eficazes e sustentáveis só são, em última análise, viáveis no quadro de uma transformação do sistema. O capital, enquanto valor que a si mesmo se valoriza, não pode abandonar a sua compulsão de crescimento, à qual todas as sociedades capitalistas tardias estão ligadas sob a forma de salários e impostos. As anteriores medidas de confinamento levaram centenas de milhões de pessoas na periferia a uma pobreza que ameaça a sua existência, estão a aumentar a pobreza nos centros e estão a levar a uma gigantesca inundação de dinheiro juntamente com uma nova explosão da dívida. A „realidade“ social tem portanto de ser fundamentalmente adaptada, a compulsão do capital ao crescimento tem de ser passada à história, a fim de poder enfrentar as crises que se avizinham sem quebrar a civilização. A pandemia é apenas uma amostra das convulsões sociais que as alterações climáticas desencadearão.

É por isso que iniciativas como a Zero Covid deveriam ver as suas propostas concretas como parte do processo de transformação inevitável e propagá-las em conformidade. A ideia de abolir as patentes de vacinas e de as substituir por uma abordagem de “open source”, a utilização eficiente e baseada em factos das capacidades de produção de uma indústria farmacêutica que fracassou durante décadas na investigação de vacinas e antibióticos – estas iniciativas teriam de ser compreendidas e explicadas como caminhos para a transformação do sistema. O mesmo se aplica à componente social da iniciativa, onde, com a exigência de um rendimento básico incondicional, é óbvio o limite da ligação contraditória entre o trabalho assalariado (e portanto a valorização do capital) e a garantia dos meios de subsistência. E mesmo a discussão sobre as relações de produção fundamentais parece de facto impor-se por si, numa época de crise em que as empresas fazem fila para agarrar o dinheiro do Estado.

A esquerda poderia assim, mais uma vez, actuar como uma força progressista, dizendo simplesmente o que é o quê, a fim de espalhar a consciência de crise necessária: O capitalismo está no seu fim, a transformação é inevitável. E é para este fim que iniciativas como a Zero Covid podem dar uma contribuição inestimável, se as exigências reformistas forem propagadas como um ponto de entrada num processo inevitável de transformação: Precisamente porque Zero Covid parece irrealista, a campanha deve ser entendida e ofensivamente propagada como um momento de convulsão na realidade social.

Original “Pandemie und Transformation”, Neues Deutschland, 3.2.2021. Tradução de Boaventura Antunes

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