IMPRIMIR DINHEIRO ATÉ AO PLENO EMPREGO?


Tomasz Konicz, Neues Deutschland, 28.12.2020, Tradução de Boaventura Antunes


A Teoria Monetária Moderna (TMM) parece ter conseguido a quadratura do círculo capitalista. Pleno emprego, Estado social, crescimento económico e transição ecológica – tudo isto é apenas uma questão de política monetária expansionista, de acordo com a tese central da TMM. Segundo esta teoria monetária neokeynesiana, muito popular na esquerda socialista dos EUA, os governos que controlam a sua moeda são livres de aumentar as despesas governamentais, sem terem de se preocupar com os défices. Isto porque podem sempre imprimir dinheiro suficiente para pagar a dívida pública na sua moeda. De acordo com esta teoria, a inflação não é problema enquanto a economia não atingir os limites naturais do crescimento ou houver capacidade económica não utilizada, como o desemprego.


Imprimir dinheiro até ao pleno emprego – esse é o objectivo desta estratégia económica orientada para a procura. A maioria dos defensores da TMM aponta para a política monetária expansionista da Reserva Federal dos EUA, que sustentou os mercados financeiros em tropeço com biliões de dólares entre 2007 e 2009 e em 2020. Uma vez que a impressão de dinheiro, conhecida como „flexibilização quantitativa“, aparentemente não resultou em quaisquer surtos inflacionistas, a TMM pretende elevar estas medidas de crise, por assim dizer, a princípio orientador da política económica social-democrata de esquerda. Através de uma política monetária expansiva, a oferta da mercadoria dinheiro deve ser aumentada até que a procura seja satisfeita, até que o desemprego tenha desaparecido e a economia floresça adequadamente.


Aqui se ignora a ligação entre a flexibilização quantitativa e o crescimento do inflado sector financeiro do capitalismo tardio. A impressão do dinheiro da Fed (como a do Banco Central Europeu) levou de facto à inflação – à inflação dos preços dos títulos nos mercados financeiros, que acabou de estabelecer novos recordes precisamente em simultâneo com o surto de pauperização deste ano nos EUA. Além disso, os bancos centrais estão a transformar-se em lixeiras de resíduos tóxicos do sistema financeiro, uma vez que, no decurso dos seus exercícios de „flexibilização“ de milhares de milhões de dólares, se limitam a comprar todos os títulos-lixo que desestabilizam os mercados financeiros. Como resultado, o total do balanço da Fed aumentou de cerca de 877 mil milhões de dólares em 2008 para cerca de 7,2 biliões de dólares em Novembro de 2020. A situação é semelhante no BCE.


O sector financeiro inflado – a base da dinâmica do endividamento global que actua como motor da economia – constitui assim o factor decisivo que impede um período de estagflação (inflação elevada juntamente com estagnação), como a que nos anos 70 mandou abaixo o keynesianismo e abriu caminho ao neoliberalismo. A TMM pretende declarar estes programas de compra dos bancos centrais historicamente sem precedentes, com os quais um capitalismo tardio a funcionar a crédito é laboriosamente estabilizado, como sendo a nova normalidade – e assim se transforma em ideologia, na justificação do existente. O neokeynesianismo também vê a causa do actual mal-estar capitalista principalmente na falta de oferta monetária. A causa central da crise, porém, é a falta de um sector económico líder, de um novo regime de acumulação que valorize trabalho assalariado em massa – e que, devido ao elevado nível de produtividade global, nunca mais será restabelecido.


Não é por acaso que a TMM tem a sua pátria política nos EUA, que controlam a moeda de reserva mundial sob a forma do dólar americano. Isto permite a Washington endividar-se na medida do valor global de todas as coisas-mercadorias. O que acontece quando os Estados da periferia passam a imprimir como entendem as suas próprias moedas, que têm no dólar americano a sua medida de valor global, pode actualmente ser estudado, por exemplo, na Turquia. Assim, a TMM não apenas representa uma teoria muito exclusiva, que ainda pode eventualmente encontrar adeptos na zona euro e é desonrada pela experiência da periferia – ela também padece do habitual truque de prestidigitação keynesiano. A sua política de procura procede como se o capitalismo já tivesse sido ultrapassado, como se o objectivo da economia capitalista fosse a satisfação das necessidades e não a valorização infinda do capital.

Original Gelddrucken bis zur Vollbeschäftigung? In: Neues Deutschland, 28.12.2020. Tradução de Boaventura Antunes

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