TRUMP NA TRILHA DE PUTIN?

Comentários sobre a origem da traição dos EUA ao experimento democrático de base dos curdos da Síria

Bom texto de Tomasz Konicz sobre os curdos da Síria.

Com Maurilio Botelho, Javier Blank.

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A traição é uma constante na história curda. Repetidas vezes, grandes potências e potências regionais usam esse, que é o maior grupo populacional apátrida do mundo, em suas lutas geopolíticas de poder para abandoná-los após terem alcançado seus objetivos numa região estrategicamente importante. O ditado curdo que diz que não há amigos, apenas as montanhas, é uma expressão dessa dolorosa experiência.

É de conhecimento geral a traição da administração norte-americana de George Bush Sênior durante a Guerra do Golfo em 1991, que primeiro apelou à população oprimida do Iraque para que se revoltasse contra Saddam Hussein, mas deixou o caminho livre para este na repressão sangrenta das revoltas após a retirada do regime de Baath do Kuwait. Por último, mas não menos importante, foi Vladimir Putin quem demonstrou a sua crueldade imperialista e desprezo pelos seres humanos quando acusou os curdos de devorarem a soldadesca turca na área de influência russa da Síria, em Afrin, para afrouxar a ancoragem da Turquia no sistema da Aliança Ocidental.

As limpezas étnicas, os estupros em massa cometidos pelos islamistas, o genocídio silencioso da maioria curda de Afrin, que a Turquia, parceira da OTAN, tem realizado desde a sua ocupação, não desempenham um papel na opinião pública alemã e ocidental — para qual, se necessário, são cometidos genocídios para que se imponham interesses geopolíticos. Especialmente no ponto de vista divulgado pela República Federal da Alemanha, no contexto do precário acordo de refugiados com o governo Erdogan, há um escandaloso silêncio sepulcral que se enquadra perfeitamente na desastrosa tradição de apoio alemão aos genocídios turcos que remonta à Primeira Guerra Mundial.

Geopolítica no pré-fascismo

À primeira vista, parece que o governo Erdogan está aproveitando a atual luta pelo poder em Washington para dar mais um passo em direção ao seu próprio sonho febril de um novo Império Otomano. Enquanto a cena política de Washington está envolvida em disputas ferozes sobre o processo de impeachment de Trump, Ancara quer rapidamente criar novos fatos, travar uma pequena guerra, incluindo limpeza étnica, para compensar a situação de Erdogan – atingido internamente devido à crescente turbulência econômica – com conquistas na política externa.

No entanto, apesar das críticas abertas, a decisão escandalosa de Trump pode obter uma aprovação silenciosa em grande parte do establishment geopolítico. É improvável que o presidente, sob pressão interna, tenha feito cumprir essa medida sem o apoio, pelo menos, das suas próprias facções no aparato de poder em Washington.

A aliança com os curdos sírios, depois da – provisória? – vitória contra o “Estado Islâmico”, tornou-se um bloqueio geopolítico para os EUA, pois afetou as relações com a Turquia, “parceira da OTAN”, cujo governo islamista, como se sabe, nunca irá tolerar o movimento de emancipação curdo devido à sua orientação democrática de base e secular.
A aliança entre Washington e os curdos da Síria surgiu apenas porque os islamistas de Ancara não estavam dispostos a se envolver seriamente na luta contra o “Estado Islâmico”, que eles apoiaram o quanto puderam – e com o qual foram conduzidos negócios lucrativos.

De modo absurdo, os islamistas do governo turco agora anunciaram que queriam assumir a “responsabilidade” pelas forças internas do EI no norte da Síria. Em breve, a ameaça de terrorismo na UE pode voltar a crescer.

A Rússia explorou as tensões entre Washington e Ancara para desatar a Turquia do sistema de alianças ocidental por meio de amplas concessões geopolíticas. A disposição de Putin de abandonar Afrin ao islamismo turco deve-se precisamente a esse cálculo imperialista. Durante algum tempo, Putin teve bastante sucesso com essa abordagem implacável; a cooperação entre Turquia e Rússia foi intensificada, culminando na entrega de sistemas de defesa aérea S-400 russos a Ancara, que foi fortemente criticada por Washington.

Então, ao decidir liberar os curdos também na esfera de influência dos EUA, Trump está seguindo a trilha de Putin para tirar-lhe essa alavanca geopolítica de poder. A destruição do governo autônomo curdo na Síria, que é intolerável não apenas para o islamofascismo turco, deve preparar o caminho para uma aproximação entre o Ocidente e a querida Turquia, “parceira da Otan”, contrariando assim os esforços da Rússia.

A crueldade e, literalmente, o desprezo assassino em massa pela humanidade, com o qual regiões inteiras com experiências democráticas de massa são declaradas abertas à caça selvagem das forças islâmicas, constituem uma constante da “geopolítica” do Oriente e do Ocidente.

O governo de Ancara, por sua vez, conduz uma aposta arriscada geopolítica bem-sucedida, usando o peso geopolítico do país do Bósforo para colocar as grandes potências, EUA, Rússia e UE, umas contra as outras. Equilibrando-se entre os blocos geopolíticos de poder, chantageando e obtendo concessões no Ocidente e no Oriente, ameaçando repetidamente transferir-se para o outro campo geopolítico, Erdogan quer estabelecer a Turquia como o poder dominante na região, como uma nova superpotência islâmica, ligada à tradição genocida do Império Otomano.

O silêncio sobre as limpezas étnicas é expressão da era atual do pré-fascismo.

O apetite imperial vem com a refeição. Após a bem sucedida conquista e limpeza étnica de Afrin, possibilitada pelo Oriente e ignorada pelo Ocidente, Erdogan dá o próximo passo para se aproximar dos seus sonhos febris megalomaníacos. É na lógica desta dinâmica islamofascista que todas as concessões feitas ao governo de Ancara apenas abrirão ainda mais seu apetite, motivando Erdogan a prosseguir em aventuras sangrentas, simplesmente por causa das crescentes tensões internas na Turquia.

A crueldade do cálculo de interesses geopolítico, o silêncio sobre a limpeza étnica, sobre o genocídio silencioso dos curdos da Síria, é uma expressão da era atual do pré-fascismo. Aqui são precisamente esses egomaníacos autoritários e fascistas – além de Trump tomar Putin como seu grande modelo, ele é admirador de seu irmão gêmeo islamista Erdogan – que, em muitos Estados, foram conduzidos ao poder pelo processo de crise como atores centrais da geopolítica. Até mesmo o disfarce retórico e ideológico do imperialismo ocidental clássico dos direitos humanos é abandonado.

A situação faz lembrar o pré-fascismo dos anos trinta do século XX, quando a geopolítica aproximou cada vez mais dos métodos do movimento fascista em ascensão – especialmente entre as potências ocidentais não fascistas, que abandonaram e impuseram um embargo à Espanha republicana ou entregaram os tchecos como presas aos nazistas em 1938.

Em última análise, a traição de Trump aos curdos da Síria selou apenas o fim da hegemonia dos EUA na região, uma vez que, no futuro, quase nenhum ator local estará disposto a ser queimado e traído por Washington. Geopoliticamente, após formar uma aliança com os curdos e derrotar o Estado Islâmico, os EUA estavam em um dilema: ou honrariam compromissos com os curdos e arriscariam um conflito com Ancara, ou Washington arruinaria sua reputação como aliada. Trump optou pelo último – e o fez por completo.

Pouco antes da traição, as autoridades estado-unidenses alegadamente chegaram mesmo a instar os curdos a desmantelar posições e fortificações defensivas no norte da Síria como parte das supostas medidas de “desescalada”.
A nova desordem mundial mais além da hegemonia dos EUA é, portanto, semelhante à antiga, exceto que agora muitos pequenos aspirantes a substitutos dos EUA desempenham por conta própria o mesmo ofício sangrento que, desde o colapso do Bloco Oriental, foi reservado por mais de duas décadas à maquinaria militar dos EUA.

Aliança Profana

Não só em nível global e geopolítico, mas também em nível regional, os curdos da Síria dificilmente podem esperar apoio porque representam uma anomalia emancipatória que é entendida por todos os fatores de poder na região como uma ameaça mortal. Não apenas o governo islamista da Turquia, mas também o regime residual da Síria, o regime dos mulás do Irã e os corruptos clãs curdos em volta de Barzani, no norte do Iraque, anseiam pelo fim da experiência democrática popular de Rojava, na qual desempenha um papel central a emancipação das mulheres.

Seria inconcebível se fosse bem sucedido e irradiado para uma região devastada pela desintegração estatal e econômica, pelo islamismo da Idade da Pedra, por regimes autoritários e pelo domínio mafioso.

Seguindo a “Santa Aliança”, forjada pelas grandes potências feudais tardias na Europa, após o fim das guerras napoleônicas, para cortar qualquer futuro movimento revolucionário pela raiz, uma forma similar de aliança informal pode ser observada na região. Todas as outras diferenças e lutas de poder são reduzidas em face de Rojava para sufocar em sangue essa mesma experiência, essa anomalia emancipatória – e assim tirar do povo da região, seja no Curdistão iraquiano, na Síria, no Irã ou na Turquia, toda a esperança de libertação.

Portanto, apesar das longas negociações, não foi possível aos curdos chegar a um acordo com o regime sírio, porque este não podia aceitar o autogoverno curdo e as estruturas democráticas de base a qualquer preço – apenas pela mera manutenção do poder. O regime de Assad prefere uma maior ocupação do território sírio pela Turquia à autonomia popular na Síria. Os curdos, por fim, responsabilizaram Moscou em particular pelo fracasso das conversações.

Em última análise, essa nova guerra de conquista turca baseia-se num acordo geopolítico que não seria possível sem coordenação com todos os atores importantes – é provável que as tropas sírias e turcas entrem ao mesmo tempo em Rojava, cuja divisão já foi negociada. Ancara recebe grandes partes do norte da Síria na fronteira, enquanto o regime invade as áreas restantes. É o acordo geopolítico que foi encontrado – e feito à custa dos curdos da Síria, que vão sofrer mais deslocamentos, repressão e marginalização.

Distopia monstruosa da administração dos homens

A UE, especialmente a Alemanha, deve deixar Ancara livre – ainda que seja para evitar uma escalada da crise dos refugiados, contra a qual o Ministro do Interior Seehofer diligentemente já alertou. No período que antecedeu a sua recente campanha de limpeza étnica, o presidente islâmico ofereceu publicamente aos europeus um acordo muito particular. As áreas conquistadas serão designadas como uma “zona de segurança” para a qual serão deportados até três milhões de refugiados da guerra civil.

É uma distopia monstruosa da administração humana que está se desenhando aqui. O Governo de Ancara pretende construir um gigantesco gueto ao ar livre para refugiados em uma terra de ninguém que não está sob controle do Estado sírio e nem oficialmente anexada à Turquia. Esses milhões de refugiados economicamente supérfluos produzidos pelas guerras civis e pelos processos de decadência relacionados com a crise na região seriam dominados, numa terra de ninguém, à luz do direito internacional, precisamente pelos bandos e turbas islâmicas que já tinham invadido Afrin ao lado da soldadesca turcos.

O islamismo teria assim uma função repressiva objetiva no controle, concentração e domínio das massas populacionais economicamente “supérfluas” que são um produto da crise mundial do sistema capitalista na região. Esse novo passo rumo a uma solução final bárbara da questão dos refugiados deve também encontrar seus apoiadores em Berlim – não apenas a nova direita alemã atraída por Trump e Putin, que sempre odiou o movimento de libertação curdo precisamente por causa do seu caráter secular, uma vez que contraria os habituais ressentimentos racistas e culturalistas.

A guerra anterior de agressão da Turquia contra Afrin foi flanqueada por uma campanha feroz de repressão estatal na República Federal Alemã, na qual – em grande parte sem sucesso – todas as possibilidades foram esgotadas para silenciar o amplo movimento de solidariedade com Rojava. Também desta vez a solidariedade deve ser demonstrada, apesar da repressão que mais uma vez se espera de parte do aparelho de Estado alemão, que já durante a Guerra de Afrin deu a impressão, na pior tradição histórica, de agir como quinta coluna de Erdogan.

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